segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017






Nº 3 Corações de Fogo

Revista não oficial de Filosofia, Poesia e Religião



Revista Opúsculos

“Opúsculos sobre o Fim de Um Mundo”, revista não oficial de poesia, filosofia e religião, lançada em 2007 com a divisa, “esta é a minha verdade conta-me a tua” (desde o número 11 referenciada como “Boletim de Ideias Filosóficas”).

Ilustrada com quadros dos mestres, quadros de novos artistas, promessas desconhecidas, serigrafias, poesias, breves e profundas orações (só nos primeiros números consegui colocar as ilustrações).

Nos primeiros números, pequenos contos, textos, explorando ideias da filosofia. Outros números, foram trabalhos para determinada cadeira e que acho que tem validade como tijolo na construção e sistematização de uma tese geral.

Revista feita por alunos e estudantes de filosofia, nas suas páginas, os textos preliminares dos pretendentes na descoberta e edificação de um pensar próprio, revista dos audazes aprendizes na disciplina de arquitetura da mente.

A revista não quer ser algo pomposo, nem se quer afirmar como detentora de qualquer verdade. Sustem-se na ideia aristotélica de arte na "Poética" aplicada à filosofia (acho que uma certa maneira foi o que Kant fez da filosofia, após o esclarecimento (na "Crítica da Razão Pura”), do que era ciência e de que a filosofia não o podia ser).





11:59 (2000/2002)



Utopia parte (x)
(texto alegórico)

...num universo paralelo
...Júpiter EC54
...ano Cristão : 2015
...quinta feira, 17 de Setembro
...hora sideral: 11:59

PRELÚDIO
Um cosmonauta brasileiro começou a captar uma estranha formação química naquela secção de exploração num dos satélites de Júpiter. Levava nas mãos um “Indicador” (instrumento que servia para fazer leituras cientificas) para medir o “composto” daqueles elementos. Havia dois anos que as explorações espaciais levadas a cabo pelo “Bloco do Sul” tinham estacionado ali, e se bem que já tivessem encontrado um numero imenso de novos “compostos”, por muito que a diversidade pudesse vir a aumentar, não se via um fim pratico à vista. Andava-se numa corrida louca na procura de algo, que todos sentiam que estava mesmo ali, mas onde ninguém se sentia com a destreza necessária para ver o que era.
De repente o Indicador começou a registar algo muito estranho, a sequência L23 estava muito alta. A sequência L23 fazia infalivelmente parte de todos os compostos, e estava normalmente baixa. A sequência L23 era considerada como a sequência base de todo o sistema de corpos físicos. E ali, naquele fim do mundo, na fronteira onde todos os dias se encontrava algo diferente, mas sem resultados práticos à vista, ali estava uma substancia que era por si própria fundamento energético de todos os compostos.
Ao principio, entre os cientistas, havia vários que compartilhavam da tese que os seres eram em ultima instancia energia. Depois, dentro dos seres em geral, pôde medir-se uma determinada unidade energética pura (L23), viu-se que ela era variável entre os diferentes seres, mas que em termos de percentagem, essa unidade pura constituía uma percentagem baixa em relação ao ser na sua totalidade. Os seres eram energia, mas só uma pequena parte de si era energia pura. Ao encontrarem-se compostos com energia a 100% os homens tinham dado mais um passo. Não eram apenas especulações filosóficas, a energia pura existia de facto. A energia pura constituía a chave para a “Terceira Vaga”. Era energia não poluente, era energia não excedente.
Ruben Leonardo ouvia musicas do Álbum Palavras ao Vento mas desligou imediatamente a musica, acionou o comando de comunicação e dirigiu-se a Frank Cooper.
- Frank...
- Disseste cinco minutos, ainda não estou lá,...
- Tenho aqui algo de muito estranho, o Indicador aponta um composto com alta percentagem de L23.
- Qual é a percentagem ?
- 100%.
- Estás a brincar não é ?
- Estou a (n) metros à tua esquerda, vem ter comigo.
Frank dirigiu-se para Leonardo, pensou para si que coisa estranha, só podia ser uma brincadeira, o componente L23 a 100%. Está bem que dentro de si muitas vezes tinha sonhado encontrar algo assim, mas que o tivessem encontrado agora não o queria acreditar, estar talhado para estar num momento destes era algo para que todos se preparavam ao longo da vida.
Ao aproximar-se do local onde Leonardo estava também no seu Indicador começou a registar a percentagem de L23 a subir.
- Caramba, é mesmo verdade? Sempre tiveste faro para cheirar o novo, mas desta vez excedeste-te. Começa ali atras, mas á medida que chegamos aqui o nível sobe.
- Já andei uns passos naquela direção, depois andei ali para a esquerda e para a direita, o nível mantêm-se sempre, fiz um registo a vinte metros de profundidade e continua a manter-se, é uma coisa grande que começa aqui, o aumento progressivo de intensidade à medida que nos aproximamos dele mostra que tem espectro á sua volta.
- Vamos contactar a central. Somos uns heróis. Sabes o que isto significa?
- As coisas nunca mais serão as mesmas. Mas não vamos contactar a central, tenho ordens para numa situação destas contactar só com Heiselman. Vamos permanecer aqui mais duas horas até acabar o turno, recolhemos as amostras e fazemos o inventario do material que está à sua volta.
- Não sei como consegues estar tão frio num momento destes, isto é Energia Pura, os compostos energéticos são os que maior percentagem de L23 têm, mas quanto ao componente essencial L23 a 100%, há quem defenda que nunca se poderá encontrar porque não existe.
- Por eles dizerem que não existe é que eu estou assim, já viste como o mundo vai mudar, é o começo de uma nova era.
Leonardo e Frank mantiveram-se ocupados até ao fim do seu turno. Quando a hora chegou, foram para o dirigível fazendo-se regressar à base.




CAPITULO I
Dortmund, Alemanha (27-9-1989, 15:27h)
Era uma tarde suave de Outono, as primeiras folhas amarelecidas começavam a cair. Havia poucas nuvens no céu, e o vento soprava uma brisa suave que já começava a arrefecer os dias. Na cidade de Dortmund, num dia de quarta-feira, duas mulheres na casa dos trinta discutiam sobre a próxima ação, de um até à pouco tempo desconhecido “Movimento de Ação Social e Ecológica”. Os seus nomes eram Patrícia Andersen e Cláudia Stewart. Contra a política ecológica do Norte, iam haver varias concentrações em cidades brasileiras. Nas praças e nos parques um grupo chamado as "vozes" ia-se reunir, e como lhes era próprio, as questões iam ser discutidas irmãmente.
Cláudia
- ... eles é que tem razão, temos de acabar de vez com as sobras deste século. Com os avanços da ciência e a tecnologia atual já se devia poder produzir sem poluir. Não se quer gastar o dinheiro a reconverter a indústria e os veículos, mas gasta-se dinheiro a fazer mausoléus à gloria dos governantes. Com que sentido se gastam milhões a construir o que não serve senão para envaidecer o ego, de algum dirigente que está mal centrado em relação aos problemas do seu povo ? Com que sentido gasta o Ocidente tanto dinheiro na investigação espacial, na construção de uma estação orbital agora, quando daqui a 50 anos sai por metade do preço. Gasta-se o dinheiro em explorações a Marte para satisfazer a curiosidade arquivista, e dizem eles que são cientistas. Limitam-se a recolher dados e elaborar listagens. “já temos mais uns elementos novos”; para quê ? Com que sentido se gastam milhões a descobrir o que não interessa para nada ?
- Um dia pode-se encontrar qualquer coisa que seja importante.
- Sim, um dia... no dia que nunca mais chega, ou que não vai chegar nunca. O espaço é vazio num largo sentido, não há ali nada que nos interesse, temos é de reconverter os poluentes e deixar de agredir a terra.
- Eu acho que a exploração espacial é importante.
- Pois eu acho que é uma perca de tempo e de dinheiro. Temos é de nos preocupar com o que está aqui, e deixar o além para depois. Temos um mundo que caminha todos os dias para o cinzento, há zonas que tivemos de abandonar, e mesmo assim eles continuam a envenenar a atmosfera, não percebem, a atmosfera está saturada? Temos de parar o mundo poluente, não é um sonho, é uma emergência.
- “Os países do Norte”, só fazem o que os Estados Unidos querem. E o resto do mundo é arrastado no jogo dos poderosos...
Toca o telefone. Cláudia atende
- Estou,... Sérgio ? Não devias estar já em casa ?
- Mãe,...estamos a fazer uma partida,...posso ficar mais um pouco ?
- Tu sabes que estás de castigo,...que eu te disse que não podias ficar na rua,...
- Mãe,...
- Vou te ai buscar dentro de vinte minutos, e não tem mãe. Tens de aprender a ser responsável pelos teus atos, um homem define-se pelos seus atos, e eu quero que cresças, não podes passar a vida em dualidades. Assim não sei lidar contigo, assim não sei o que posso esperar de ti.
- Não esperes nada...eu sou indefinido, visto as peles do que quiser ser.
- Vá,...não comeces com as vacuidades, não tem recurso. Vou te ai buscar. Até já...
- Até já mãe.
Cláudia desligou o telefone e ficou um momento pensativa, depois vindo a si disse
- Este meu filho, não sei o como hei-de fazer com ele. Não se define, diz me que o que se vê são as capas que se põem, mas que o ser em si não tem forma definida, é a pura possibilidade. Não vê que há uma das capas que as pessoas acabam sempre por associar a ti.
- Tens de ver que tem doze anos, precisa de descobrir o seu ser. Não tem pai, tem algumas referências neste mundo, mas são personagens que estão inacessíveis para a maioria dos mortais, fica num vazio da alma. Ao nível da alma ele não comunica diretamente, colhe a poesia dos álbuns que ouve, nos livros que lê, dá de si nos contactos do dia a dia, mas tem outro lado de si que só lá chega sozinho. E essa é sua grande tristeza, gostaria de partilhar esses momentos, mas não consegue a ponte para chegar ao outro de ser para ser.
- Sim,...tu és igual a ele, versão mais adulta, mais consciente, mas no fundo também andas á procura do “nada”... Queres vir comigo busca-lo ?
- ...uhm...vamos. Vai-me saber bem andar por ai um pouco,

Porto Alegre (30-09-1989)
No Sábado o dia acordou cedo, embora não fosse um dia de semana havia uma agitação um pouco fora do normal. Logo pela manhã sentiu-se uma tendência das pessoas se dirigirem para o parque central da cidade. Ali, na imensa relva ou num dos anfiteatros, começaram-se a formar pequenos grupos que iam iniciando as conversas. Com frases banais, começando por assuntos marginais, “...que raio de moda, os dependentes da máquina...”, passando a assuntos mais abrangentes como “...os dependentes em geral”. Assim se iam acendendo as discussões, mas o ponto central, a ordem do dia estava ali tão certa como cada um ter vontade de participar. O “Verde” que no coração daqueles homens significava o valor Santo.
Havia realmente um pouco mais do que política ali, havia uma Ontologia por detrás daquele modulo (J.Rawls) dos assuntos humanos. “...o Ser Humano é o guardião da Natureza...”, esse era um dos slogans. “O ser humano tem de se definir, saber que ele é o elo mais forte. Tem de saber quem é, o que faz, para que serve, e qual o poder que está na sua mão. Ser menor já não dá para uma humanidade que chegou ao Nuclear”. Aqueles cidadãos acreditavam que os humanos não sofrem por acaso, se a vida for por acaso, os que sofrem, sofrem por acaso. O sofrimento, o padecimento de que era fértil a história não se coadunava com “...peitos abertos, corações que amam como loucos, homens desperto, que de tanto perguntar sabiam tão pouco”. As vozes tinham-se reunido, os cidadãos iam falar, pensar, empreender, tentar compreender em comum. Havia um novo interesse pelos diálogos e pelas discussões, os focos essenciais das discussões humanos tinham sido redescobertos pelos cidadãos daquele tempo.
Esse dia foi o primeiro grande sucesso do CLM. De um partido semi clandestino e sem significado tinha conseguido interessar as pessoas por uma política nova. A Terra estava doente, a Terra como ser de facto, o composto espirito-físico que numa alma singular representa o planeta no seu todo. Esse era um grande estandarte daqueles cidadãos. “...os confederados do Norte perpetuam este tipo de existência. Nós não queremos perpetuar com o Norte. Queremos encontrar novos caminhos para não destruir o equilíbrio de vida na Terra. Criar uma boa equipa de cientistas, dar-lhes os meios para que procurem saídas ecológicas”. O outro estandarte era a o Problema do Ser Humano, envolvia a Sociologia, a Psicologia, a Ética e a Moral. “...ou a moralidade está podre ou não há moralidade,... de que vale uma moralidade se esta só serve para esconder que temos um bicho bravo dentro de nós...”
Havia uma vontade nova perante a resolução do problema do ser humano. As questões antropológicas e as questões do Cosmos, envolvidas com as questões da Terra, com asfixia da natureza. As pessoas acorreram aos milhares, com os seus portáteis reuniram-se em grupos. Havia 5 tópicos centrais, cinco grandes janelas que discutiam simultaneamente on line. Os estrategas da propaganda do partido, tinham tido a habilidade para espalhar pelas praças vários painéis para que todos pudessem participar. Queria-se um mundo de amor verdadeiro, queria-se proteger a única vida que se conhece, a pérola azul. “...nossa casa, nossa mãe, nossa fonte, nosso refugio, nossa amante...”. Por isso os estandartes daquele momento eram a Natureza e o Ser Humano, no entanto, preservar a vida do planeta começou a ser mais essencial do que expandir a espécie. Havia uma critica ao elevado numero de filhos, certos governos queriam isso para haver sempre excedentes no emprego, e com isso continuar a politica dos baixos salários, para educar as crianças de maneira que elas ficassem dependentes do consumo, e a economia continuasse a dirigir o mundo. Criticavam aquele preocupar-se tão à maneira do Norte, onde muitas vezes se faziam convenções e ostentações, sem que, no entanto, se chegasse a lado algum.
A necessidade imperativa de mover as coisas foi o que juntou aquelas forças. Nas maiores cidades do Brasil repetiu-se o cenário de Porto alegre, e naquele ponto da pré campanha eleitoral, ter os cidadãos com o partido foi o começar a abrir o caminho para um grande resultado nas urnas. Foi uma energia que se uniu e se transmitiu, e que levou o CLM ao poder nas eleições seguintes.
03-12-1989
O CLM ganhou as eleições muito pelo seu programa revolucionário, mas também as ganhou porque os que se lhe associaram eram personalidades com fibra e tenacidade, sabiam bem onde se estavam a meter, sabiam bem até onde iriam. As lições da história foram lidas e relidas para que não surgissem equívocos nesta nova tentativa integralista. Havia a ordem, mas também a dialética, havia o reconhecimento que cada um por si ficava aquém da tríade que surge da união dos contrários. “A estática e a dinâmica criam um novo ser. Criam uma direção, um «Ante Ser, ...que é o universo atual. Dentro dele não podemos fugir ao determinismo imposto pelo “fogo” heraclitiano. O chamado «mundo de Deus» ainda se está a fazer...”.
Os dirigentes do CLM eram profundamente metafísicos, mas também profundamente físicos, viam que se tratava de dois níveis distintos em graus de existência. Contrariamente a Aristóteles (para além das suas substancias primeiras), consideravam as “substâncias zero”. Para Aristóteles, Homem , Cidade, Cavalo, não existiam de facto, eram apenas abstrações que os humanos usavam no campo conceptual. Não negando as abstrações que se usam no campo conceptual, certos intelectuais daquele tempo, reconheciam o “grau de existência composto” (“ seres simples e compostos”), grau este que afirmava uma singularidade unindo varias substancias primeiras, ( “grau de ser com varias substancias primeiras interligadas”). Chamaram a isso “substancia zero”. Para os homens da ideologia do CLM a substância zero existia de facto, havia realmente Homens. Não era a soma dos homens que faziam o Homem, mas a sua união. Havia a cidade X, existia de facto. A floresta Y tinha vida própria. A soma das árvores e da vegetação não dão a floresta. A sua composição, a maneira como está disposta, fazem dela, para além do seu conceito, uma singularidade real, fazem dela algo (...) que ela não era considerando os seus elementos fora da união ao todo.
Era necessário cuidar dos pares, das famílias, das nações, das civilizações, mas era essencial cuidar da Terra. A Ontologia e a Antropologia formaram ali uma parelha incrível que catapultou o CLM para as estrelas. Mas havia algum ceticismo no ar. Para quem tinha prometido tanto, o trabalho seria um culto. Os dirigentes da frente estavam dispostos a abdicar das suas vidas próprias. Eles tentariam, “acabariam com as dificuldades ou elas acabariam com eles”, lutariam até ao limite das suas forças, e se não o conseguissem, pereceriam, e viriam outros com sonhos revigorados.
A situação económica do Brasil no fim do século XX foi piorando de ano para ano. Foi isso que possibilitou que aquele tipo de radicalismo chegasse ao poder. As políticas de crescimento económico iam criando um número cada vez maior de pessoas que sentiam que algo faltava nas suas vidas. Ao longo da história estes momentos tinham surgido com uma regularidade que se manifestou vezes de mais para ser negada. Quando quantidades imensas de cidadãos estão dispostas a sacrificar tudo, começam as sérias agitações sociais. Começam a acentuar-se as diferenças entre as coletividades, cerram-se fileiras. Primeiro as nações, depois os blocos. Quando se enfrentam na dualidade, é o momento em que o martelo caí e bate na bigorna, “cumpre-se a história”, e depois disso nunca se sabe o que vai acontecer. A fé dos dirigentes do CLM dizia-lhes que “as coisas vão para melhor”, que ao longo da história tem crescido a humanidade, e que a humanidade não é a soma de todos os seres humanos, mas sim um conceito, um ideal que se procura e se luta por ele. Outros diziam que a desumanidade também cresceu, que tudo cresceu neste universo indefinido, até ele cresceu para fora das nossas definições. Os dirigentes do CLM diziam, “...o que podemos olhar é a realidade humana. O Espirito cresceu, a Alma cresceu. Todos os dias a Vida tem de começar tudo de novo, todos os dias morre um cidadão que cresceu e nasce uma criança que tem tudo para andar. Mas para além de cada um de nós, dentro de cada um de nós, há um ser imortal, com o qual temos de viver. O ser físico é feito de matéria perecível. O espirito é algo que nos ultrapassa, por isso não sabemos se morre ou não. Mantendo a espécie viva o Espirito vem vivendo desde o inicio dos tempos, se bem que não é uma prova da sua eternidade é uma prova da sua longevidade...”.
Os dirigentes do CLM tinham um sonho, viver em equilíbrio consigo próprios e em harmonia com o meio. No inicio quando chegaram ao poder, limitaram-se a tomar poucas medidas precisas e estratégicas em certas áreas chave. Com isso travaram a eminente derrocada da economia. Depois surpreenderam tudo e todos quando anunciaram as intenções de criar um bloco de cooperação cientifica com a África do Sul e com a Argentina. Os dirigentes da Austrália (que também tinham sido convidados para aquele meeting particular entre “os quatro” na cimeira de chefes de Estado e de governo das nações unidas) não se quiseram comprometer, tendo remetido o assunto para o parlamento australiano. A África do Sul e Argentina iam também levar o assunto aos seus parlamentos, mas o Brasil ia leva-lo às reuniões das vozes, as suas agoras renascidas.
O novo interesse dos brasileiros pela política levou-os a formar assembleias por todo o lado. Em todo o lado tudo se discutia, por todo o lado as pessoas se ligavam para discutir, pensar em conjunto, ler, ouvir, contribuir, para levar as coisas para melhor, para evoluir. Os brasileiros misturaram a política com as suas próprias vidas, e entre as discussões dançavam, pintavam, faziam desporto..., celebravam a Vida e o Amor que os unia . Sabia-se que não se queriam mundos perfeitos[1]. Ao longo da historia, tantas vezes os vencedores pensaram ter chegado ao mundo ideal. Não, a resposta tem um contexto, há um enquadramento. Os dirigentes do CLM não queriam trazer para a política valores absolutos, dogmas. Todos eles levavam a ciência a serio. Sabiam que a verdade pode ser apenas uma miragem, mas que a verdade do momento é algo que se procura e se encontra.
A noticia do Bloco de Cooperação Cientifica, com objetivos específicos de libertar os cidadãos e a Terra do jugo que o mundo que se perpetua lhe impõe, foi bem-recebida pelas opiniões publicas dos países constituintes. O CLM tinha conseguido agendar um novo encontro entre os quatro dai a dois meses. Nesse encontro, depois de ter sentido que as opiniões publicas dos outros três países também lhe eram favoráveis, o partido deu um passo em frente, propôs que a cooperação se alargasse ao campo económico. Que fosse criado um mercado interno e uma união aduaneira entre os quatro. Era condição a Austrália entrar, o projeto só assim teria viabilidade. As economias do Brasil e da Argentina ainda estavam muito frágeis. Todos foram apanhados de surpresa, as criticas e o sarcasmo não se fizeram esperar. Os comentários imediatos foram que o CLM se tinha deixado levar pelo entusiasmo. No entanto aqueles quatro povos ficaram a pensar.
Foram feitos referendos mas quando se fizeram já toda a gente sabia para onde iam a seguir. A grande maioria estava cansada de perpetuar o “American way of life”. Quase todos sentiam que era necessário fazer alguma coisa. Poucos sabiam o que fazer. Quando aquela oportunidade chegou foi como se aqueles cidadãos estivessem numa plataforma de embarque. Aquele foi o comboio que a “grande maioria não silenciosa” apanhou. O governo da Austrália sempre se mostrou hesitante, por um lado queria aderir, por outro, por precaução, sabia que o risco era muito elevado. No entanto, os cidadãos é que escolheram o seu destino. Quando os políticos australianos compreenderam o que o seu povo queria, o Pacto dos Quatro ficou consumado.
Foram formados grupos de trabalho para discutir as questões de pormenor e elaborar atas de constituição e normas de funcionamento dos diversos sectores. A cooperação iria ser cientifica, económica e cultural. Iria ser criado um centro de investigação com três vetores principais. A robótica, a investigação espacial, e a área de outros quaisquer projetos.
(Ano de 1993)
Seis meses antes da abertura oficial do centro de investigação, Leonardo já o integrava como um dos engenheiros responsáveis. Ruben Leonardo era professor no Superior Técnico de Porto Alegre. Tinha-se notabilizado pelas suas soluções audazes, pelas suas respostas inesperadas, que resolveram uns tantos problemas complicados. Em termos de robótica industrial iria tornar-se um mestre. As suas maquinas estavam um pouco acima de todas as outras.
Em 1990 o seu projeto principal tinha-lhe sido comunicado por escrito (...). Os dirigentes do CLM queriam criar o androide. Leonardo tinha sido destacado para integrar um projeto de investigação avançada, que começaria três anos antes da abertura oficial do Centro.
Avançou pouco Leonardo entre 1990 e 1994.
Em 1997 a área da robótica industrial já quase conseguia sustentar os custos do Centro de Investigação, mas o androide era apenas um frágil brinquedo. Leonardo levava sete anos de trabalho, repartidos entre o normal (Sustentar o Centro com a robótica industrial), e o nível avançado, onde, juntamente com uma equipa de técnicos altamente especializados se dedicava ao projeto do androide. O governo do CLM não tinha salvo o país milagrosamente, não tinha resolvido os problemas de uma vez por todas, mas os números da economia eram agora bastante animadores. As pessoas começavam a sentir no dia a dia que a cooperação entre os “Quatro” estava a dar os seus primeiros frutos. Nas eleições de 2001, o que o CLM pode mostrar foram dois satélites no espaço, uma sonda cósmica pronta a ser lançada (com objetivos específicos no sistema solar), taxas de crescimento económico bastante positivas e um Centro de Investigação (onde se desenvolviam tecnologias de ponta aplicáveis a todo o género de maquinas desde eletrodomésticos, automóveis, passando pela grande aposta que era a robótica industrial) que se tinha tornado altamente lucrativo. As máquinas projetadas pelo Sul eram as mais eficientes e as mais caras. Bom e durável tinha sido o lema, rejeitar a política do descartável, do muda duas vírgulas e já é novo. Em termos sociais, algumas pessoas pensavam que o que se fazia era muito pouco, que os novos políticos não eram assim tão radicalmente diferentes dos antigos. No entanto, a grande maioria continuava a acreditar no sonho. Depois de se verem à beira do abismo, aquelas pessoas olharam e acreditaram numa nova esperança. Doze anos passaram e ela continuou lá, ainda não se tinha ido embora. Por isso os homens continuaram a acreditar e o CLM foi reeleito pela terceira vez.
A sonda cósmica foi lançada (2001), gastaria algum tempo em orbitas a Marte, Júpiter e Saturno, e depois avançaria pelo cosmos. Foi durante o trajeto da bela Ônibus ( 2002/03) que as respostas começaram a surgir. Leonardo tinha passado doze anos à procura de uma ferramenta sem sentimentos, uma maquina eficiente, um software fiável, mas sem alma, sem intenções de ser uma replica do ser humano. As 11:57 do dia (x), ano cristão 2003, Leonardo teve um vislumbre de como conseguiria faze-lo. Dois anos depois (2005) ele estava quase lá, faltava limar umas arestas para que se pudesse apresentar um produto acabado no mercado. No projeto seguinte começou tudo de novo. Até ali já tinha conseguido realizar alguns projetos, mas nenhum tinha chegado ao grau necessário que se esperava.

Ano cristão 2004
Porto Alegre
Sexta-feira, 24 de Setembro
Hora terrestre : 17:15

Ao entrarem em casa, Sérgio dirigiu-se para o quarto para tomar um duche, enquanto Júlia foi para a cozinha pois ouviu a televisão acesa. A D. Carolina já tinha chegado das compras.
Júlia, para a D. Carolina
- Boa tarde Ana, conseguiste comprar tudo? Hoje quero fazer um jantar especial, sem saber porquê esta manhã fiquei muito emocionada. Fiquei com a sensação que hoje era dia de festa. Não tenho nada assinalado na agenda mas de qualquer maneira todos os dias podemos celebrar a Vida, a Existência em si. Comemorar a Vida, não a tua, nem a minha, mas a Vida como manifestação ao longo dos séculos. Como é bom haver um mundo onde podemos levar existências tão ricas...
de repente Júlia calou-se, virou-se para a televisão e balbuciou - Ah ?
a televisão estava no canal de noticias, e o jornalista falava de um carro com motor a som… ?
- o que é isto ? pensou Júlia
jornalista
-...testes confirmam que o motor com unidade Z, (motor de impulsão sonora), depois de desenvolvimentos surpreendentes nos últimos dois anos, é uma realidade com uma aplicação imediata. No inicio do próximo anos estão a sair de linha de fabrica os primeiros veículos que nos livram do pesadelo da gasolina. Numa conferência de imprensa, acompanhado pelo ministro da ciência e tecnologia, o recém-nomeado diretor do departamento automóvel Charles Cohen afirmou:
-... esta tinha sido uma procura que muitos consideraram vã. No entanto, o esforço e a perseverança desta equipa, que quase sacrificou as suas vidas pessoais à causa, sente-se recompensado perante o resultado final. Desde a fundação deste Centro de Investigação que tínhamos este projeto, muitas vezes nos olharam de lado por levarmos isto a sério. Tateámos nos nossos primeiros passos, tivemos momentos em que nos sentimos pretensiosos, julgávamo-nos alquimistas? E se estivéssemos á procura do impossível? Estas foram duvidas que nos assaltaram nos primeiros anos de investigação, o tempo passava, gastávamos o dinheiro dos contribuintes, mas os resultados eram nulos. Até então tínhamos teorias que não conseguíamos resolver na prática por diversos problemas de engenharia. Este projeto ficou na gaveta durante anos depois de algumas experiências muito desagradáveis, mas nós nunca desistimos dele. Depois veio o elo perdido, que nos permitiu disser, “we are back in business”. . Quando resolvemos o engenho, o produto ganhou realidade de facto. O pistão (êmbolo) tinha-se realmente deslocado por impulsão sonora. A partir desse dia, nós ficamos a saber que este motor era possível, que estávamos a fazer um bem ao mundo. Nestes últimos meses de aplicação, de desenvolvimento de potência, de aperfeiçoamento de componentes, temos vivido as nossas vidas em pleno, parecia que cada dia novo que passava resolvíamos um problema. Ao contrario do que muitos dos céticos afirmavam, o veiculo sonoro não é uma “orquestra andante”, o som que move o motor atua em circuito fechado e não se ouve nada. Essa é a única desvantagem em relação aos carros convencionais,...eu e muitos gostamos de sentir o rugido do motor, mas para salvar a atmosfera desta praga tóxica, eu não me importo de abdicar do rugido do motor...
Repórter
- E este é o ponto da situação nesta conferencia de imprensa, que apanhou o mundo de surpresa. Um carro completamente não poluente, com um motor movido a som, e silencioso...
Júlia
- Tu estás a ouvir o mesmo que eu ?
D. Carolina
- Eu tenho estado a ouvir. Como é que é possível fazerem o carro andar a som sem emitir ruído? Se calhar é mais uma charada, depois vem dizer que ainda não está pronto, que é preciso mais dinheiro...
- Não, então vão começar a sair veículos da fabrica no principio do próximo ano. O que me surpreende é como conseguiram manter isto em segredo,...tenho de dizer ao Sérgio, ele vai delirar...
Sai da cozinha e dirige-se para o quarto onde Sérgio se estava a vestir.

Patrícia tinha ficado em casa porque lhe apetecia nesse dia ficar um pouco sozinha, ao contrario de Júlia, tinha acordado melancólica, sentia-se vazia, queria entregar-se de corpo e alma, mas não sabia a quem. Tinha casado três vezes, e nas três vezes o seu casamento tinha falhado. Ao fim da tarde ligou o som, e depois de folhear umas revistas e se aborrecer, foi tomar um duche. O telefone tocou enquanto ela estava no duche, ela ouviu, mas deixou-o tocar. Quando saiu do duche foi ver se tinham deixado mensagem. Ouviu-se a voz de Cláudia
- Patrícia, onde te metes-te,...ouve as noticias, nem sabes o que aconteceu, nem te vou dizer para ficares tão siderada quanto eu, depois liga-me.
Patrícia desligou o atendedor. Que poderia ter acontecido de tão extraordinário. Resolveu ficar a tentar adivinhar por si o que teria acontecido, deitou-se em cima da cama para ficar a deambular com o pensamento, mas acabou por cair no sono.
Duas horas depois o telefone tocou outra vez, Patrícia acordou, a luz do dia estava a findar, o vento assoprava um pouco mais forte. Por momentos não soube onde estava, nem o que significava aquele toque sincopado. Depois veio a si, acendeu a luz e atendeu o telefone.
- Estou...
Cláudia
- Não tens estado em casa ?
- Estava no duche quando tocou o telefone, e depois adormeci.
- Então ainda não sabes o que aconteceu ?
- Não, ouvi a tua mensagem e dormitei sobre ela mas não consegui adivinhar.
- Colhemos um grande fruto na nossa cruzada pela ecologia. Liga a televisão ou o rádio. É tão importante que o mundo não será mais o mesmo. Demos definitivamente o passo em frente em relação ao Norte. A nossa fé no Sul, concretizou-se. Passamos definitivamente para a frente deles em termos ecológicos.
- Estás a falar a sério ?...
Patrícia deixou precipitadamente o telefone, dirigiu-se para a sala e ligou a televisão. Ali estava no canal de noticias as imagens de um carro, um carro exteriormente igual a alguns que se faziam naquele tempo, mas que estava rodeado de uma turba de fotógrafos fora do normal. A agitação à volta do veiculo também era um pouco fora do normal. Entretanto Patrícia prestou atenção ao que se estava a dizer.
Comentador de reportagem.
- Muitos não querem acreditar, muitos preferem esperar e ver, mas muitos já o tomaram como um facto consumado. Um jovem dizia-nos à pouco numa entrevista algo que todos sentimos “A consciência de um amante da Terra está mais limpa com um carro que não emite gás venenoso.”
Patrícia voltou ao telefone, atendeu na sala e disse :
- Ainda estás ai ?
- Então. Não é uma maravilha,...?
- Surgiu como resposta aos nossos anseios de uma atmosfera mais limpa
- Está pronto a ser comercializado a partir do inicio do próximo ano...
- A industria automóvel do Norte é que vai sofrer um rude golpe...

Naquele momento ninguém conseguiu estar sozinho, as praças encheram-se de gente, as Vozes reconheceram o CLM em que tinham acreditado no principio, o caminho era aquele, a procura de novas soluções. O chão da vida daquelas pessoas era o seu sonho. Tinham dado um passo de gigante na não agressão à Terra. Depois de todo aquele céu disfarçado, eles começavam a conseguir o que realmente se tinham proposto a fazer. ...” Adeus monstros a gasolina, adeus motores do bem e do mal, nós somos livres de nos deslocar sem estar a envenenar a atmosfera...” ... Antes disto, os cidadãos do Sul, na sua saúde e sua alegria não deixavam de ter dois tumores a roer-lhes a consciência. A humanidade ali ao lado, a sofrer e eles sem podetrem fazer nada, e a Terra, a ser ferozmente asfixiada. Um deles tinha levado um alivio tão grande, tão grande que só cabia num sonho. Aquele era tempo de celebrar o sonho, de se celebrarem a eles próprios. Não resolveram o problema do mundo, mas resolveram um dos muito graves.

No ano de 2007 aconteceu o extraordinário lançamento no mercado do XR2, o primeiro robô humano ao qual se podia legitimamente chamar androide. Executava praticamente todas as tarefas físicas e de atenção em grau um e dois de dificuldade. Continuava a existir o lugar do especialista, do grande artífice, do operador especifico. O lugar do criador, do artista, do sonhador tinham sido salvaguardados para os seres humanos.
As intenções do CLM (que a partir de 2004 tinha conquistado os quatro governos dentro do Bloco do Sul) foram mais no sentido de comercializar o produto com o mercado externo do que pô-lo de imediato no mercado interno. A elite do partido esteve sozinha nessa luta contra a vontade da maioria. No entanto, inesperadamente, essa estratégia passou. Depois de apresentações bem conseguidas terem feito passar que o androide era bastante fiável, os privados apressaram-se a comprar androides e a dispensar pessoas. O CLM foi muito criticado por aquele disparar do desemprego. Em 2009 o Bloco esforçava-se ao máximo por não vender aos privados do Sul, mas mesmo assim, se bem que não ao ritmo do que sucedeu no Norte a taxa de desemprego também disparou. Certas pessoas tinham ódio de morte aos do Sul. “fizeram uma maquina que dispensa o ser humano, para que servimos nós agora?”. Os cidadãos do Sul começavam a estar incrédulos perante o uso que o CLM estava a fazer do androide.
Foi nessa altura que o CLM revelou as suas intenções. Começaram a dispensar pessoas dos seus postos de trabalho sem no entanto deixarem de lhes garantir os salários. Ao nível dos trabalhos mais duros e indignos os cidadãos começaram a ser libertados... “este é o inicio da Grande Libertação”. Quem quisesse não trabalhava, assinava um Contracto de Evolução e tornava-se estudante. O dever de todos os que optavam por esta via era educarem-se para estar à altura das discussões. O trabalho era feito com eficiência. O androide não tinha ferias, descanso semanal ou feriados. Duas vezes por ano era totalmente revisto, e depois era recolocado.
Os cidadãos estudariam até estarem graduados e depois exerciam o que amassem fazer. O mais importante eram os diálogos e a comunicação. Cada um procurava expandir as suas capacidades em expressão, interpretação e compreensão. Só minimamente esclarecidos podiam perceber o que estava em causa, o valor da sua liberdade era a força do seu coletivo. Mas o coletivo não é algo abstrato que só existe no conceptual. Eles sabiam que coletivamente existiam de facto, havia uma Alma comum, havia varias almas comuns. Tinham de cuidar do seu destino, tinham de tomar decisões e tinham de as ponderar. Por isso não foi surpresa para ninguém quando anos depois foi proposta a lei do voto restrito. “Quem não se interessa pelo comum não deve votar. Quem quer estar fora da política está fora dos problemas, não pode decidir sobre eles. Quem não percebe os problemas e não se interessa por perceber é menor, os menores não votam. O ser humano só se emancipa na idade adulta. Só ai nasce livre, pois como ser nasce tutelado. Tem de haver igualdade nas oportunidades para os menores se dotarem de razão”.
Em 2014, as universidades, as praças, os jardins os anfiteatros e os parques, eram o centro da vida social. As ágoras das vozes eram a essência, eram a força. Do confronto de opiniões sabiam os dirigentes do CLM tirar as mais razoáveis, mas muitas vezes também se aventuravam a ir contra a maioria. Não havia aquela cegueira que diz que a maioria tem sempre razão O CLM manteve a chama acesa, a esperança que os levou a saltar ainda estava muito viva e presente. A força dos argumentos era de peso, mas havia também um Sentimento profundo que ajudava a percecionar o melhor caminho. Digamos que eles utilizavam a ciência para se esclarecerem sobre as coisas, mas não faziam dela tirana perante as decisões que tinham de tomar.
O primeiro nível de necessidades começou a ser superado (2015), já quase todos tinham casa, alimentação, e educação garantidas. A grande maioria tinha uma ocupação. (Faltava ainda pequenas grandes coisas, como ocupação para certas pessoas que não tinham animo para procurar). Reconheciam-se na maneira como se apresentavam (look), tinham as portas abertas no campo da educação. A saúde não era paga, assim como a maior parte das coisas, mas os espaços (terrenos rurais e urbanos) continuavam inflacionados.
O caminho da procura do Ser foi o mais requisitado. Este na parelha com o problema do Ser Humano. Os cidadãos tinham um interesse novo sobre o que eles eram, com o que poderiam fazer consigo próprios, e quais eram realmente as peles do seu ser. Agora que estavam livres podiam realmente olhar e perguntar, desvendar aqueles caminhos que sempre ficaram para trás por falta de tempo no corre corre da vida que tinham antes.

CAPITULO II
Depois de ter lançado o androide YP em 2009, Leonardo (com 44 anos de idade) abandonou o departamento de robótica para se dedicar exclusivamente ao ensino. Mas nesse mesmo ano conseguiu ser integrado na recém-formada Equipa Exploração Espacial, e Leonardo partiu da Terra pouco tempo depois do CLM ter anunciado ...”a Grande Libertação”....
No momento de partir, olhou para trás, e quando sentiu a rampa de lançamento a ficar cada vez mais distante pensou para si:
-...para onde vou eu, lançado nesta corrida em direção ao céu estrelado? Sentia-se a ir para muito longe, para tão longe como nunca tinha estado. Agora era a Terra que ele via a ficar para trás ...”Vê-la lá longe, tão iluminada, tão suave. Tão cheia de mistério e de contraste. Quem é que adivinharia os problemas com que nos deparamos estando lá. Parece dormir, parece deixar-se levar num sono leve, tão plácido, tão divinal. Como tinham razão os homens que a ponham no centro do mundo, realmente ainda não vi nada igual...”.
Em 2014 Leonardo foi destacado para a base Júpiter DL14, num dos satélites de Júpiter. Procuravam-se novas fontes de energia. Um mineral, uma rocha, um liquido ou um solido, um gasoso ou algo...

Júpiter EC54
Ano Cristão 2015
Quinta feira, 17 de Setembro
Hora sideral : 14:45
(Leonardo e Frank perante Haiselman...)

Depois de se terem desembaraçado do material de campo, Leonardo e Frank dirigiram-se à central e entraram no gabinete de Haiselman.
Leonardo para Haiselman :
- Então Rogério, alguma novidade ?
- Não, as coisas continuam na mesma. São as picardias habituais do confronto Norte Sul, quando os blocos económicos e ideológicos não se entendem, o mundo dá nisto...
- Rogério... precisamos de falar contigo, surgiu algo código Beta.
- Como ?
- Surgiu L23 a cem por cento.
- O quê ?
- Nem eu nem Frank queríamos acreditar, mas estende-se numa área bastante vasta, quer em comprimento quer em profundidade.
Rogério ficou um pouco em silencio, depois dirigiu-se a Leonardo e disse .
- Deixa-me ver as leituras.
Leonardo entregou a Rogério o Indicador com as leituras e analises efetuadas nas ultimas 2 horas.
Rogério
- Então é disto que andamos à procura desde o inicio dos tempos...!?
Frank
- Eu não estou a gostar do tom disto. Tu (dirigindo-se a Leonardo), dizes que vais fazer o relatório em conjunto com o Rogério, mas o relatório que vocês vão fazer é que me está a inquietar. Os dirigentes querem abafar uma coisa destas ? Eu não me quero calar, o relatório que vais fazer não é o teu relatório, é nosso. Esclareçam-me se querem que eu alinhe no que se está a pensar em fazer.
Rogério.
- Calma Frank, tu sabes como estão as coisas na Terra. o Norte, liderado pelos Estados Unidos perpetua uma maneira de estar na vida que já não nos interessa. No Sul tentamos viver de outra maneira, tentamos libertarmo-nos da escravidão da Economia. No Norte a Economia dirige a vida dos cidadãos, estão presos a um ciclo vicioso, que os leva a esquecerem-se de que o que interessa é a vida e não a Economia. Fizeram de um instrumento o fim. Nós, os quatro grandes do Sul, tentamos encontrar outro caminho, podemos ainda não ser muito diferentes deles, mas ao menos não alinhamos com o baixar de braços do seu Existencialismo quanto ao sentido da vida em geral. Para nós há teleologia, a vida não é um absurdo, é um caminho..., um processo, um percurso. O universo tem um comando, segue determinado trilho, houve um plano inicial.
Frank
- Sim, isso é tudo política e filosofia, a Nova Esperança, mas a diferença está apenas ao nível das intenções. Agora que a humanidade encontrou a energia pura, nós somos iguais a eles, já queremos o L23 só para nós.
Leonardo
- São interesses antagónicos, eles perpetuam um caminho que a nós não nos serve. Ainda não descobrimos o nosso caminho, mas estamos um passo á frente deles, pois sabemos que aquele caminho não nos serve.
Frank
- Sim, tu tens uma maneira mais prosaica de dizer as coisas, mas vai dar ao mesmo, vivemos num mundo de interesses.
Rogério
- Tem de ser assim, nós temos direito a uma posição própria, assim o fizemos, desvinculamo-nos das suas políticas e por isso eles pensam que estamos contra eles.
Frank
- O que se está a pensar fazer em relação ao L23 ?
- Em principio vamos manter isto dentro do Centro de Investigação..
Leonardo
- Quanto ao relatório ?
Rogério
- Eu elaborarei e assinarei o relatório. Quero que por agora tirem uma licença. Não pensem que os estou a afastar do que se encontrou aqui hoje, quero apenas que passe algum tempo para as estratégias serem definidas e vermos como vão ficar as coisas. Nada será como antes, esta nossa vontade de fazer um mundo novo ganhou hoje a sua alma. Com o L23 podemos realmente afirmar os nossos valores como melhores que os valores caducos do Norte. Eles estão a pressionar-nos para que voltemos a alinhar com as suas políticas, começam a ver o mundo a fugir-lhes debaixo dos pés. Se já estávamos determinados a não seguir por ali, agora parece que Deus nos deu um sinal que estamos certos.
Leonardo
- Ia-te mesmo pedir que me deixasses voltar á Terra, já estou aqui à demasiado tempo. Gostaria que me encontrasses funções em Curitiba.
Frank
- Eu quero ficar aqui, vais ter de ter equipas a vistoriar o local da descoberta, e eu acho que já viste que podes contar com a minha descrição quanto ao facto.
Rogério
-Tudo bem, eu confio em vocês, tu (para Leonardo), vai lá para a Terra, tenho um pressentimento que não vais voltar á exploração espacial por alguém tempo. Frank, passas a ser chefe de equipa, quero saber a verdadeira extensão da fonte. Quero a área delimitada e selada, depois começamos a recolher amostras para começarmos a testar as aplicações.

Segunda-feira, 21 de Setembro.
Leonardo começou a sentir-se diferente, percorreu-o uma emoção forte. Olhou e viu-a, a “Pérola Azul” estava diante dos seus olhos. Um ponto infinito, perdido na imensidão do cosmos, insignificante perante a grandeza do Ser, mas no entanto tão preciosa, tão única, tão acolhedora. De volta a casa, Leonardo chegava ao fim do dia ao porto espacial de Buenos Aires. Mesmo ao lado do porto espacial ficava o porto aéreo, onde Leonardo ia tomar um avião para Curitiba. No trajeto entre o porto espacial e o porto aéreo, Leonardo encontrou Rui Pedro, um ex. colega da faculdade.
Leonardo
- Então Rui, desta vez vais para onde ?
- Vou para Los Angeles. O John Laques com outros pintores de vanguarda está a organizar uma exposição lá. Vamos fazer uns belos saraus, está lá muita malta, não queres vir ?
- Não, entrei agora de férias, mas tenho outras coisas a fazer.
- Tudo bem, mas olha que ficas a perder, íamos estar em convívio, em dialogo, circular ideias, fazer correr a cultura...tudo bem, já sei que não comungas com os círculos culturais do norte, mas olha que, apesar de agora dizermos à boca cheia que temos um novo rumo, ainda temos muito que aprender com eles.
- Eu sei onde acabam sempre esses teus saraus da cultura velha, nunca se chega a lado nenhum porque prevalecem sempre as posições antagónicas, não há acordo porque cada um dos interpretes quer fazer prevalecer o seu ponto de vista. Não estão à procura da verdade, estão à procura do confronto para vencer. O confronto filosófico, do meu ponto de vista, não tem como objetivo fazer prevalecer qualquer opinião ou saber particular.
- Pronto, este é o nosso ponto de rutura, tu procuras a verdade, chamas verdade à melhor tese, e de tese em tese nos vamos aproximando de um conhecimento mais exato. Para ti a verdade é essa tese melhor que substituirá a vigente. Para mim, essa verdade não existe, só existem teses, teses que se suplantam umas às outras, para quê complicar, para que falar em verdade, o que é isso da verdade ?
- A verdade é o caminho. Um caminho que temos de percorrer até ao momento da Grande Liberdade, o momento do Ser. Antes de atingir-mos esse ponto não podemos fugir ao determinismo, tudo é ante Ser. Há uma senda da humanidade que se tem vindo a cumprir, e não podemos fugir ao nosso destino. Isto revolta muita gente, que se põem com círculos à volta do segmento principal, tentando encontrar outros caminhos alternativos, mas no fim das épocas, a linha acaba sempre por seguir o seu rumo.
- Essa é a tua prisão. Esse teu determinismo circunscreve-te as vistas. Não te entregues a um destino feito, tenta antes pensar o mundo como um infinito de possibilidades.
- Mas ai é que está, eu penso-o assim, só que para o ser que somos, ainda não temos maturidade para lidar com esse infinito, por isso temos antes de nos desenvolver. Crescer para ser, nessa linha, eu acho que o determinismo tem todo o sentido. Deus deu-nos um mundo infinito, no entanto, ainda não o sabemos gerir. Ser humano é isso, aprender a desenvolver potencial e a gerir o poder, e acredita, que o poder humano é imenso. Como ainda somos apenas crianças, os brinquedos mais perigosos estão fora do nosso alcance. Ainda não jogamos na plenitude, ainda não nos efetivamos realmente. Por isso temos tanta dificuldade em dizer quem somos, estamos em processo, estamos em mudança, assim como o próprio mundo...
- Não quero continuar com esta discussão. Diz-me antes, como é que são as coisas em Júpiter ?
- É um recanto tranquilo, inventário, e investigação de materiais novos. Deu para por a leitura em dia, deu para estudar a fundo certas temáticas que tinha de clarificar, enfim, foi um bom retiro, mas agora já não volto para lá.
- Então, não aguentas-te mais estar longe de casa ?
- Vou desenvolver um projeto em Curitiba, pedi transferência para lá.
- Olha, eu depois desta exposição penso em ir passar uma temporada na ilha, se quiseres aparecer, já sabes o caminho.
- Se calhar dou lá um salto num fim de semana.
- És sempre a mesma coisa, porque não vais lá passar uns dias, olha, até te digo mais. Estás de férias, precisas de descansar um pouco, vais já para lá, ficas lá à vontade, depois da exposição eu vou lá ter contigo. Vou ficar uma semana nos Estados Unidos, tu vais para lá, relaxas, fazes praia se te apetecer, se não te apetecer fazes uns passeios pelos campos, preparas-te, que depois eu vou-te dar umas tareias filosóficas.
- Tudo bem, é isso que vou fazer, depois do fim de semana vou para lá.
- Se quiseres levar companhia, também já sabes que o limite é levares duas pessoas, não faças como o outro que me encheu a casa de gente que nem ele conhecia.
- Eu devo ir sozinho, vou mesmo desligar um pouco, e brincar lá com a rapaziada, fazemos umas surfadas, bebemos umas canecas e tá se bem.

Bem protegida, a descoberta do L23 ficou em segredo durante três anos. Em 2018, depois de verificada a sua aplicabilidade a unidades industriais, e se concretizarem as intuições que iam no sentido de se poder suster qualquer tipo de maquina com a nova energia, com pompa e circunstancia o facto foi tornado publico.
Dois meses depois, os veículos de transporte que faziam a comunicação entre Júpiter e a Terra quebraram as comunicações. Algo se tinha passado, normalmente sabia-se quando as comunicações estariam difíceis ou ia haver anomalias. As naves desapareceram simplesmente dos sensores. Ninguém sabia o que lhes tinha acontecido.
Dois dias depois um dos dirigentes do CLM acusou o 2º destacamento lunar, (militares de elite britânicos) de ter feito um ato de pirataria espacial. O governo britânico apressou-se a negar tudo, mas o facto é que os serviços secretos de sua majestade, se tinham servido de um pequeno grupo de oficiais, para se apoderarem das duas unidades de L23 que seguiam a bordo das naves. No Sul a decisão estava tomada, as carreiras estavam suspensas até as naves se poderem fazer acompanhar por escolta. Para já, teria de se fortificar o posto de origem. O projeto levaria à construção de uma esquadra espacial e de duas bases militares, uma em Júpiter, outra na Terra. O Norte endureceu as criticas e ameaçou com um bloqueio às entradas da energia se o Sul não estivesse disposto a partilhar o filão de Júpiter.
Em 2020 o mundo novo era já muito diferente. O Sul era um oásis fechado, de costas voltadas para o passado recente. Tão cheio de comunidade mas ainda longe de Humanidade. (Ponto sobre a pré humanidade ;as humanidades menores/fragmentos humanos/culturas/cacos)
O que movia os cidadãos do Sul era uma vontade de andar, de estar a caminho na procura de algo, de melhorar a existência humana sem sugar o planeta. Movia-os uma vontade de dialogar, de participar, de se integrarem na Alma que é mais que humana, que é mais que uma abstração, que os fazia sentir bem, e os levava na superação do ante Ser.
Em 2020, o Norte agonizava perante vários desequilíbrios que se traduziam afinal em termos económicos. O fosso entre famílias abastadas (que se protegiam mutuamente e se relacionavam em circuitos fechados) e famílias cada vez mais carenciadas resultava numa instabilidade social crescente. O Norte não se tinha conseguido resignar em relação à perda de hegemonia na economia mundial. Os governos geriam muitas vezes à margem da vontade das pessoas. Muitas pessoas queriam mudar, muitas estavam sem trabalho. Alguns queriam a ideologia do Sul, outros odiavam o Sul por lhes ter desgraçado a vida.
Em 2019, um grupo de radicais islâmicos deflagrou um engenho nuclear no deserto do Saara. Com isto quiseram mostrar ao mundo que tinham a bomba atómica (aquele grupo islâmico fazia ...”terrorismo de exibição”...., destruíam infra estruturas, edifícios e veículos, mas sempre com a preocupação de poupar vidas humanas). O Norte continuava a perder a guerra contra os extremistas radicais. Não havia maneira de os conseguir vencer enquanto continuassem a existir as Bombains, os Bangladeches, as lixeiras em Teerão onde as moscas gravitam em superioridade numérica à volta das pessoas. Enquanto houvessem condições sub humanas de existência o Norte não conseguia vencer o terrorismo. (O Sul era “não alinhado” ).
No Norte imperava um individualismo que chegava a chocar, as assimetrias materiais ao nível da sociedade acentuavam-se cada vez mais. Era cada um por si, pela sua família, pelo seu bem estar. Por isso é que o Sul tinha virado as costas aquele mundo. No Sul os cidadãos só se sentiam bem integrados. A ideologia do CLM apontava para a liberdade. Mas o que era a liberdade ? Para o Sul era esse grande sonho, a grande imagem poética que transportava o mundo para melhor. O Sul cresceu, da procura de um novo caminho, o CLM estava agora na posição onde os grandes vacilam. No princípio tudo era um sonho. Os dirigentes do CLM tinham conseguido gerir os seus sonhos mantendo os pés no chão. Depois ...“todos são surpreendidos quando o chão é o sonho e tu já não sabes onde estão os teus pés”... Haveria estratégia ? O CLM dirigia os Quatro, mas conseguiria dirigir o mundo ? Queria o CLM dirigir o mundo ? Havia repressão perante os simpatizantes do Sul no Norte. Havia uma perseguição, quase como a que os Estados Unidos fizeram com a lista negra em relação aos comunistas durante a Guerra Fria . Muitas vezes foi pior, famílias de simpatizantes eram brutalmente espancadas por grupos de jovens protegidos por certas elites governamentais. Cláudia, Patrícia e Sérgio tinham dado o salto para o Sul no ano de 1995, estabelecendo-se então na cidade de Curitiba. Livraram-se assim dos sofrimentos que muitas pessoas que eles conheciam viriam a passar. Em 2020, o capitalismo cada vez mais selvagem tinha dado naquilo, as ...”cento e vinte famílias”... continuavam a dirigir aquele mundo. Os ricos, e os pobres que não tinham trabalho, que não conseguiam sustentar as famílias e que mal se conseguiam aguentar. O Sul prosperava e contrastava com o clima cinzento no Norte. O esclarecimento era o mandamento, a negligencia o maior pecado. Viviam para se ajudar na escolha do melhor caminho. Continuava com eles aquele sonho antigo de salvar o Ser Humano e a Terra. Tinham melhorado as suas existências, tinha-lhes sido dada a possibilidade de viver. Perante isso alguns voltaram costas, desinteressaram-se, passaram o seu tempo a fazer nada, a desconstruir. Era uma pequena minoria. A maior parte dos cidadãos viu que poderia viver melhor se se desenvolvesse, se de um construir tirassem as respostas para encontrar o caminho.
Perante o seu intentar, perante a sua perseverança, os cidadãos do Sul tinham conseguido o céu, mas este céu tinha um amargo de boca, e este situava-se bem nas suas costas, no mundo que sufocava atrás dos muros que os circundavam. O problema da criança que chora continuava ali. O CLM melhorou a parte, mas a parte não chegava para aqueles integralistas humanistas. ...”Como podemos revolver o problema dos cidadãos do Norte sem nos impormos pela força ? As economias das famílias perpetuam o fosso entre ricos e pobres. Enquanto não se libertarem das famílias, das corporations, dos senhores feudais, a humanidade falha. Mesmo nós que vivemos como os gregos, que escravizámos a maquina e libertámos o ser humano, mesmo nós que sentimos que vivemos no «melhor dos mundos possíveis», não conseguimos ser plenamente felizes enquanto eles sofrem”. Os cidadãos do Sul tentavam libertar-se com os seus transes, com os seus rituais, as suas danças, os seus jogos, as suas atividades que procuravam a evolução física e espiritual. As pessoas continuavam à procura da vida. As pessoas continuavam à procura da compreensão, do entendimento mutuo, das pontes para a comunicação. As pessoas queriam compreender os seus sentimentos, mas não só os seus, queriam compreender os sentimentos dos outros, queriam compreender os sentimentos do mundo, os anseios da mãe Terra, as necessidades cósmicas, e o determinismo Divino, que os levava a uma posição de teleologia. O mundo ainda se estava a fazer, aquele a que muitos chamavam Ser não passava de um ante ser, de algo processual que se desenvolve sem magoa ou piedade por nós, os humanos, que em tudo isto, não somos mais que“ alcatrão na estrada da história”.

Certos cidadãos no Sul ainda se sentiam perdidos. No meio de todo aquilo faltava algo. O Sul vivia bem, mas grande parte do mundo continuava mal. Parecia que a espécie ia com a sua passagem libertando uma tripa de dejetos que envenenavam o mundo. Certos cidadãos, mesmo com o nível 1 de necessidades satisfeito continuavam a ser mesquinhos, continuavam a ser infantis, a dizer eu, eu, eu. O Novo Acordo não se coadunava com crianças a fazer que são homens. A Physis falava, deixava fluir a sua aspiração, levava os humanos. Mas queria que eles crescessem. O homem nuclear tem de ser adulto.
Sérgio sentia-se por vezes desconfortável, por vezes em agonia naquela luta Norte – Sul. Sentia sempre algo, não o conseguia esquecer. Estava-se a limpar a Terra, mas os cidadãos do Norte também eram humanidade. Não se podiam fazer assim dois mundos.
...”O integralismo humanista é uma grande mentira. Defende o cidadão no Sul, mas pouco se importa com as lagrimas do Norte. Vira as costas ao norte como o Norte as virou ao terceiro mundo durante o Século XX. Nós alimentamo-nos e engordamos da vossa miséria, e isto, quando realmente olhado traz muita dor à alma. As crianças que crescem em ambientes infestados, qual é o professor que lhe vai dizer, acorda para a vida, abre os olhos, desperta. Se ela o faz, não suporta. O coração das crianças nasce puro, e ofende-lo daquela maneira é um dos crimes mais hediondos. Se queremos plenitude, temos de saber amar, temos de saber medir, temos de saber que a verdade do momento é apenas a verdade do momento. Ainda nos falta um grande passo, ainda não somos totalmente self made minds, ainda não realizamos plenamente o Novo Acordo. Ainda mentem um pouquinho os cidadãos do Sul. Ainda falham muitas vezes a medida do seu amor perante os diversos graus do seu Ser. Por vezes ainda lhes falha intenção e são por momentos dominados pelo medo. Os do Norte não querem dar o braço a torcer, os do Sul tem uma política rígida e não querem interferências externas. Uma herança que ficou do século XX foi a de que um homem não pode impor a sua visão do mundo a outro. O outro tem de se entregar de vontade. Só há união verdadeira quando a entrega é livre. A ainda não estamos lá, estamos a caminhar, mas ainda nos falta muita coisa...”...
O mundo estava neste tom. O sul fazia a luta da interioridade, tinha procurado mudar as mentalidades, mas as mentalidades viraram as costas ao outro de si. No Norte perpetuava-se a agonia dos que são ultrapassados pela história. O Norte tentava gesticular, tinha ainda as armas nucleares, mas o florescimento , os novos já não o podiam contar. Na mudança começaram a chegar ao poder governos pró CLM, e as tensões multiplicaram-se. Os progressistas e os conservadores fizeram outra vez o mesmo que as cidades gregas depois da queda do império do grande. As querelas ainda minaram mais as débeis situações económicas, muitos culpavam o Sul de tudo, defendiam abertamente o conflito armado. ...” aqueles comunistas, budistas, vegetarianos, artistas, espiritualistas e afins, trouxeram a miséria às nossas ruas”. Certos países provocavam deliberadamente os Quatro para a guerra, mas nenhum tinha a coragem de abrir diretamente as hostilidades.

CAPITULO III
AFRICA DO SUL
Cidade do Cabo
Ano : 2022
Kurt[2] estava em casa, olhou o relógio, marcava 11:59. Sentou-se no sofá e ficou um pouco out da realidade. Parecia que tinha entrado num torpor onde a mente é tudo e nada. O pensamento-sentimento, aquela mescla sincrética de graus de apreensão do real levava-o, e ele deixava-se ir como quem sonha. Sem estar com muita atenção mas no entanto com o seu intelecto acesso, a sua memória retinha emoção.
Estava longe, e olhava fixamente para um chinelo sem se aperceber. Num momento o chinelo levantou do chão e subiu cerca de trinta cm, caindo depois desamparado como se alguém o tivesse atirado ao ar. Kurt acordou da letargia em que estava, ficou espantado com o que tinha acontecido. De alguma maneira sabia que tivera algo a ver com aquilo. Fixou-se num ponto a refletir. Não ia ficar por ali em relação aquilo. Se tivera o poder para de alguma maneira mover aquele objeto tinha de saber como isso funcionava. Tentou faze-lo outra vez, desta vez como “experimentação cientifica”. Abandonou-se perante o espaço e tempo, e deixou o espirito à deriva fixando-se mais uma vez no chinelo. O chinelo deu um ligeiro gesto, quase como quem não se quer mexer, mas algo estava ali diante dos olhos de Kurt. Durante três horas Kurt fixou-se naquela experiência, no fim delas, o chinelo saltava regularmente na casa dos vinte e poucos cm.


Kurt, depois de comer qualquer coisa e descansar um pouco, passou a outros objetos, e viu que, depois de uma sincronização correta, também os conseguia mover.
Resolveu mudar de terreno. Alugou uma casa isolada para ficar uns tempos, e por ali ficou, sozinho com a natureza.
Instalou-se, e no dia seguinte iniciou o treino. Resolveu tornar-se mestre e aluno no que estava a fazer. Resolveu colocar a “frente de ataque” (Filosofia, Ciência, Religião) em pleno perante aquele desconhecido. A partir dai, em tudo o que fizesse, servir-se-ia das religiões, das filosofias e das ciências. “ O que tenho perante mim é tão poderoso e desconhecido, que só o Organismo Integrado me pode responder”.
Nos seis meses seguintes Kurt trabalhou que nem um louco. Estabeleceu um esquema rígido de trabalho, com rigor e disciplina registou e documentou tudo o que se estava a passar. No fim desse tempo, Kurt não só deslocava qualquer objeto inerte, como conseguia deslocar o seu próprio corpo em levitação, e desmaterializar e observar as coisas sendo apenas espirito. Mudava a liga a qualquer objeto, transformava pedras em qualquer coisa, transformava qualquer coisa inanimada em qualquer coisa inanimada. Controlava mentalmente qualquer engenho mecânico e informático. Descobriu que podia acionar uma cápsula em sua volta, que lhe servia de escudo e onde podia visualizar os controles principais. Depois desta extraordinária descoberta, Kurt ainda se apurou um pouco. Dias mais tarde Kurt abandonou a floresta pela manhã e dirigiu-se em voo invisível para Roma.
Estava um dia a querer chover, mas o tempo mantinha-se teimosamente seco. Kurt chegou à praça de S. Pedro, e invisível como estava ninguém deu por ele. Recolheu-se dentro da cápsula e acionou o radar. Viu que havia demasiadas pessoas ali para surgir repentinamente. Dirigiu-se para um recanto e depois de se assegurar que ninguém o veria num primeiro momento, tornou-se visível. Avançou uns passos para o centro da praça e ficou um tempo a olhar, pois nunca tinha estado ali. Repentinamente centrou-se no assunto que o trouxera. Acionou a língua italiana para o exterior e falou:

- Povo de Roma e povo do mundo. Perante esta imponência que é a igreja de Cristo, venho reclamar o meu trono. Olhai, olhai, vejam estes pães nestas cestas a aparecerem do nada, vejam estes jarros de vinho...”
À sua volta as pessoas ficaram completamente assustadas. Kurt aproveitou o balanço e caminhou sobre aguas postas ali de improviso. Ali houve uma explosão de histeria. Umas pessoas afastaram-se a correr, outras gritaram, outras sideraram simplesmente. Os padres acorreram apressadamente...

- Quem é o senhor, o que faz aqui ?
- Conhecem-me por Kurt, mas o meu nome é George, George o Cristo, ou o anti se me quiserem ver assim. Neste momento cheguei onde ele chegou, cheguei onde os grandes chegaram, penso que não foi por acaso. Venho aqui liberta-lo das ocupações que exerce na minha igreja.
Jorge levitou a três metros de altura e disse:
- Já estão aqui pessoas suficientes para o testemunhar. Não é um truque, não é um sonho. Sou o líder espiritual da humanidade.
Vários vídeos amadores captaram as mesmas imagens que foram difundidas pelos canais de informação em três segundos. No momento em que as imagens eram difundidas pelos canais de todo o mundo, já Kurt estava em Washington a quinze metros da Casa Branca. Falou em inglês:
- Senhor presidente, venho lhe dizer que já não necessita de ser policia do mundo, já não precisa de ser governante, porque a partir de agora haverá um só governo.
Kurt foi rapidamente interpelado por vários seguranças. Libertou-se deles sem dificuldade e deu uns passos em frente. Foi imediatamente brindado com uma chuva de balas. Elas desapareceram antes de o atingir. Num segundo desarmou toda a gente. As armas desapareceram simplesmente num raio de 5 km.
- Agora escutai! Isto é o que eu posso fazer com os vossos mísseis e as vossas bombas de hidrogénio. Venho aqui transmitir-lhes que assumo o governo mundial. Haverá uma só nação, gerida à maneira do Sul. Todos se poderão educar e crescer, mas onde eu terei a palavra final, e a posse sobre toda as maquinas (os meios de produção). As maquinas libertarão também os cidadãos do Norte, e os bens deixarão de ser cobrados. Os cidadãos poderão fazer o que amam.

Depois de se mostrar ao mundo fazendo explodir em escala reduzidíssima uma das bombas de hidrogénio na palma da sua mão, Kurt impôs um governo mundial e uma nova ordem. Escolheu pessoas competentes para liderar certas cidades, deixou que outras cidades escolhessem os seus próprios lideres. Cada uma das “grandes cidades” responderia diretamente perante Kurt. Tratou de todos os lixos e resíduos tóxicos, ligou todo o processo industrial ao L23 e redesenhou toda a rede de escoamento dos detritos. Nos meses seguintes trabalhou incansavelmente até todos terem casa, alimentação, apresentação (look), e estabelecimentos de ensino. Todos os cidadãos tinham de evoluir, esse era o contrato de liberdade em relação ao trabalho. Só depois de formados podiam optar se queriam ter uma vida política, opinar ou não. Só depois de formados se podiam entregar ao que lhes desse prazer. Depois de as coisas estarem encaminhadas Kurt instalou fantoches nas administrações internas e retirou-se para o seu Olimpo. Deixou estar os cidadãos a viver, convidou amigos e amigas e retirou-se para a sua ilha e para as suas orgias. Kurt vivia o erotismo de uma maneira exacerbada, não conseguia parar de amar.

Nas ágoras os cidadãos começaram a discutir os avanços na espécie. O que representava “aquele novo deus, o que restava ao ser humano”. Muitos pensavam que a espécie tinha chegado à morte por falta de objetivos materiais. Mas muitos continuavam a acreditar que no campo do espirito ainda há tudo para andar. Muitos trocaram anti Cristo por ante Cristo, e fizeram simbolizar em Kurt o momento de passagem para a realidade do Ser. “se aquele senhor que vive na sua ilha não nos diz isto, temos nós de o dizer a nós próprios.”
Os cidadãos sentiram que este céu também “não era ainda o mundo de Deus”. Era quase, mas faltava algo. Entre os cidadãos tinha-se conseguido superar o nível 1, mas apenas em termos materiais. A mentira continuava, o ciúme, o egoísmo, a inveja, a vingança, a traição, e tudo isto, dizia-se, por amor. Era essa a grande conquista que restava aos cidadãos. “Encontrar a companheira certa ou ficar pelo que se encontra”. Muitos viviam fora das discussões, viajavam pelos campos, pelas praias, pelas cidades, iam conhecendo o mundo. A grande maioria estava fascinada com o surgimento daquele Kurt. Todos sabiam que Deus não era ele, mas Kurt estava lá muito perto. Algo tinha acontecido. Nunca o poder conhecido por sobre natural se tinha revelado assim no mundo natural de uma maneira tão explicita.
Kurt também sentia que o Ser ainda não se tinha revelado em absoluto. Sentia-se num momento intermédio, onde já não se é o que se foi, mas ainda não se é o que começa a ser. Kurt sabia que esse ultimo passo não seria dado por si. Sentia-se bem naquele estado de semi deus. Enquanto durasse viveria, depois, conforme as coisas corressem, logo se mudaria.
Os cidadãos estiveram um pouco atordoados e confusos ao principio, mas dentro de si já sabiam, Kurt só era assim porque estava mais perto de algo que todos os outros. E se era assim, os outros, dentro de certas condições também se conseguiriam aproximar desse algo. A consciência começou mais uma vez a despertar gradualmente, nas ágoras passou-se a discutir quais seriam as condições. O Amor é necessário sem duvida, mas, amor sem verdade é apenas disfarce. Os cidadãos pensavam nestas coisas, e tinham medo. No entanto aquele medo também os fazia estar mais despertos, mais atentos, mais centrados quando tentavam respostas serias. Saber controlar o medo (equilíbrio de energias), era também condição. Ao principio eram muitos os receios em falar, em abordar assim algo que se fosse verdade tornaria o mundo no Ser, no verdadeiro Mundo de Deus. Era algo que se tinha vindo a apurar ao longo dos milénios, mas que, perante o qual, se podia dizer,

-“este Criador omnipotente, que nos criou à sua imagem, faz-nos desta matéria perecível porquê ? Este Criador permite tanto sofrimento, tanta dor porquê? A vida não é um engano, não é ilusão, não é um estoicismo amputante. A vida é bem real, a existência neste nível tem um objetivo. Não é libertarmo-nos dele, mas sim crescer nele e com ele. Este Criador permite tanta anormalidade porquê? Tanta fealdade porquê? Tanta desconjuntura, tanta desopurtunidade de felicidade, tantos inadaptados, tantos infelizes porquê? Tantas pessoas afastadas da possibilidade de agradar aos outros porquê? Tanta incompreensão, tanto mal-entendido... (...) ...tudo isto porque o mundo ainda se está a fazer, tudo isto porquê esta vida não é apenas uma câmara para expurgar o Karma. São passos que caminham para algo que está em aberto. Há ideias fechadas, há coisas que são resultado final, o logos estático, as leis da física de Newton. Mas temos de saber que as leis da natureza são apenas a física provisória enquanto o ser humano não dá o grande salto. Quando o que se cose ao lume estiver pronto, quando o que está no feto sair e vir a luz do mundo do Ser, tudo será novo e este mundo ficará para trás. O mundo do Ser abrir-se-á, a seta atingirá o alvo, o navio encontrará um novo porto, e depois, todos saberão que é verdade...”.
Kurt tinha sido um novo porto para aqueles cidadãos, a partir dali tinham a certeza. Sempre o tinham sabido, sempre tinha havido seres que tinham ido além, mas antes, a consciência cósmica, estava ainda numa fase muito inicial. Tinha tomado aqueles acontecimentos como extraordinários, só tornados possíveis com a intervenção de forças superiores. Os cidadãos das novas ágoras já sabiam que as energias, as forças superiores sempre estiveram presentes. O que as grandes mentes conseguiram foi conectarem-se com essas energias e forças sempre presentes. No dia em que Sérgio chegou perante uma das ágoras e anunciou que também tinha chegado ao pleno, os cidadãos souberam que as suas intuições e conjeturas estavam certas. Kurt também soube, abdicou do governo mundial e uniu-se a Sérgio na divulgação dos princípios do novo Ser. O que era necessário cumprir para que se pudesse ter acesso à plenitude. O Novo Acordo permitia ao cidadão ultrapassar as barreiras do espaço e do tempo, da materialidade e do acesso às Energias e às Forças. Teria de saber controlar o Poder. Por isso era uma grande responsabilidade, por isso os seres humanos tinham de ter uma Ética muito evoluída. Para se chegar lá tinham de ser puros na Verdade, puros no Amor. O poder da mente era superior a tudo o que se conhecia, não poderiam ser irresponsáveis perante a gerência da Vida.
-“ Como podemos gerir o mundo se continuamos mesquinhos, se continuamos a mentir, se amamos a parte, se esquecemos o todo? Só do outro lado, só sendo conscientes e responsáveis, despertos e compreensivos, libertos, vivos, podemos aceder a uma outra maneira de viver”.

Kurt e Sérgio andaram por todo o lado e por todo o lado começou a nascer dentro do coração e da alma dos cidadãos esta nova velha esperança, a esperança que consiste no caminhar para o desenvolvimento daquilo que somos. Eticamente evoluídos conseguimos interagir nesse nível, só juntos conseguimos levar o mundo. Sérgio e Kurt foram os primeiros, mas depois o mundo cresceu, e os seres humanos tornaram-se realmente seres á imagem de Deus, o mundo do Criador efetivou-se. Tinham sido criadas as condições para que o mundo do Ser tivesse nascido. Sérgio e Kurt gritaram ao mundo que todos podiam aceder ao Ser, com um elevado grau de evolução, os seres humanos poderiam aspirar a Ser. A plenitude perante o espaço e o tempo, a plenitude perante uma vida com a mortalidade como opção...

Na galáxia JLP3, o projector de hologramas foi desligado por um pai zeloso em relação ao seu filho. Eram horas de ir dormir, o rapaz e o pai tinham revisto mais uma vez : “a história do caminho para o Ser”,... isto foi há duas horas atrás.
Parte dos cidadãos estão neste momento a brincar, parte deles descansam à sombra num clima aprazível. Outros entram em competições desportivas, ou fazem arte, cinema, teatro; outros andam pelo universo a torna-lo habitável. Com a força da mente implantam atmosferas nos planetas mais distantes, continuam a expandir a Vida e a realizar grandes paisagens (“Homem o pintor da tela Universal”). Encontramo-nos por aqui e por ali, mas vivemos quase cada um no seu planeta. Ali, com companheira ou sem companheira, com filhos ou sem filhos, com familiares ou sem familiares, construímos um mundo à nossa medida. Qual é o objetivo? Qual é o significado? Para nós, é a Grande Liberdade. A Vida expande-se na medida das suas necessidades. A Verdade é luz, o Amor é fé, o equilíbrio ...ajusta as diferenças..., a harmonia com todas as coisas é exigida. Uma célula no corpo humano não deixa de ser ela própria quando se vê a mesma célula integrada na realidade do corpo. Os seres humanos são como células individuais, mas são também parte de algo maior. A Ética evoluída é condição para o Novo Acordo. Somos seres a brincar como crianças e não crianças a cometer erros escusados.

                                       
FIM