domingo, 29 de dezembro de 2024


 



Nº 8 

A Práxis Marxista

                            

Revista não oficial de Filosofia, Poesia e Religião




Revista Opúsculos

“Opúsculos sobre o Fim de Um Mundo”, revista não oficial de poesia, filosofia e religião, lançada em 2007 com a divisa, “esta é a minha verdade conta-me a tua” (desde o número 11 referenciada como “Boletim de Ideias Filosóficas”).

Ilustrada com quadros dos mestres, quadros de novos artistas, promessas desconhecidas, serigrafias, poesias, breves e profundas orações (só nos primeiros números consegui colocar as ilustrações).

Nos primeiros números, pequenos contos, textos, explorando ideias da filosofia. Outros números, foram trabalhos para determinada cadeira e que acho que tem validade como tijolo na construção e sistematização de uma tese geral.

Revista feita por alunos e estudantes de filosofia, nas suas páginas, os textos preliminares dos pretendentes na descoberta e edificação de um pensar próprio, revista dos audazes aprendizes na disciplina de arquitetura da mente.

A revista não quer ser algo pomposo, nem se quer afirmar como detentora de qualquer verdade. Sustem-se na ideia aristotélica de arte na "Poética" aplicada à filosofia (acho que uma certa maneira foi o que Kant fez da filosofia, após o esclarecimento (na "Crítica da Razão Pura”), do que era ciência e de que a filosofia não o podia ser).



A Práxis Marxista



CRITICA DE MARX AOS FILÓSOFOS ANTERIORES

Antes de Marx os filósofos tentaram resolver-se os problemas humanos sob o ponto de vista teórico.  Pensava-se que se poderia mudar a realidade a partir de dados que interpretavam o mundo, que com esclarecimento das coisas, ao nível do pensamento, se poderiam mudar as coisas.  A abordagem de Marx é outra, não basta descrever e inventariar o real, dever-se-á agir, criar guias para a ação, pegar o mundo como um dirigível e conduzi-lo.  Se os que o dirigem o dirigem mal, o resultado da sua ação vem criar as condições para a consciência da necessidade de uma nova ordem social, de uma nova estrutura que supere as deficiências em que o mundo assenta.  Esta nova estrutura fomentará uma melhoria no estado de coisas para que as pessoas possam viver melhor.

Marx crítica a filosofia alemã anterior por esta estar reduzida a uma crítica de representações religiosas.  Para Marx «O progresso consistiu em subsumir as representações metafísicas, políticas, jurídicas, morais e outras pretensamente dominantes, também na esfera das representações religiosas ou teológicas...»[1].  Para os filósofos alemães anteriores a Marx, a atividade humana podia ser unificada em termos religiosos ou teológicos e explicada a partir destes pontos.  Resolvendo-se o problema teológico tudo o resto viria por acréscimo, mas para Marx toda esta crítica era inconsequente na vida prática das pessoas, pois a base da vida era a infraestrutura; era aí que se devia agir, pela práxis e não pela crítica teórica.

Para os jovens hegelianos as representações, as ideias, os conceitos, e os produtos da consciência são os grilhões autênticos dos seres humanos.  Os jovens hegelianos tentaram lutar contra estas ilusões da consciência, colocando o postulado moral expresso pela ideia de trocar a sua consciência presente pela consciência humana, critica ou egoísta.  De modo a eliminarem estas barreiras, eles afirmavam que lutavam apenas contra frases; contudo, contra frases eles opuseram apenas outras frases e com elas pretenderam abalar o mundo.  O resultado traduziu-se em esclarecimentos unilaterais de história da religião, em critica teórica sobre teorias.  Ao não explicarem as relações da teoria com a realidade, faltou-lhes a relação direta com o mundo real.  A sua crítica foi aos sistemas e não uma critica para mudar o mundo real.  «Não ocorreu a nenhum destes filósofos procurar a conexão da filosofia alemã com a realidade alemã, a conexão da sua critica com o próprio ambiente material.»[2].  

Para Marx a libertação do ser humano não avançou por os filósofos terem resolvido a filosofia, a teologia, a substância na consciência de si. Segundo Marx, não encararam o problema na perspetiva de que a libertação real tem de ser feita no mundo real com meios reais.  Feuerbach chegou a preconizar a ideia de que para revolucionar o mundo existente, deve atacar-se e transformar na prática as coisas que se encontram no mundo; mas as suas ideias «...nunca vão além de conjeturas isoladas e têm uma influência demasiado reduzida no seu modo geral de ver para que aqui possam ser consideradas algo mais do que embriões capazes de se desenvolverem.»[3]; a conceção do mundo sensível de Feuerbach limita-se à contemplação e sensação deste.  Ele diz “o Homem”, e não contempla os “homens históricos reais”, julgando que o mundo sensível é uma coisa dada diretamente da eternidade, sempre igual a si mesma, e não o produto histórico resultado da atividade das gerações anteriores.  Feuerbach considera a natureza, mas uma natureza em si, que só existe numa ilha distante onde o humano não exerceu ainda a sua ação. Compreende o humano como objeto sensível, mas falta entendê-lo como atividade sensível, pois não concebe os humanos na sua conexão social nem as condições de vida reais que fizeram dos seres humanos o que eles são.  Feuerbach não chega aos humanos como eles realmente são, seres de ação; ficando-se pela abstração de “o Homem”.  Não aborda outras relações humanas além do amor e da amizade idealizadas.  Falta-lhe a critica às condições de vida atuais, por isso procura «...refugio na “observação superior” e na ideal “compensação na espécie”,...»[4].

Para Feuerbach a história não conta, e quando a considera não é sob o ponto de vista materialista, o materialismo e a história em Feuerbach divergem.  Falta aos filósofos anteriores a Marx uma base terrena, uma base material para a história, onde os humanos exercem a sua atividade, satisfaçam as suas necessidades e produzam novas necessidades, pois para Marx, a produção de novas necessidades é o primeiro ato histórico.  Para os teóricos alemães a transformação da história em historia mundial consistia «...um mero ato abstrato da “Consciência de Si”, do espírito do mundo ou de qualquer outro espectro metafísico,...»[5] , 

Segundo Marx os teóricos alemães não perceberam que todas as lutas no seio do estado «...não são mais do que as formas ilusórias em que são travadas as lutas reais das diferentes classes entre si...»[6], pretenderam que todas as formas e produtos da consciência podiam ser resolvidos pela «... critica espiritual, pela dissolução na “Consciência de Si” ou pela transformação em “aparições”, “espectros”, “manias”,...»[7].  Para eles a força motora da história, da religião e da filosofia era crítica.  Toda a conceção da história até Marx, deixou de fora a sua base real, viu nela apenas algo de secundário sem qualquer conexão com o curso da história, «...A relação dos homens com a natureza fica, deste modo, excluída da história, pelo que é gerado o antagonismo de natureza e história.»[8]; assim esta conceção só viu na história ações políticas de chefes e de Estados, lutas religiosas e teóricas em geral, partilhando em cada época, a ilusão dessa época.  A práxis real «...é transformada no único poder determinante e ativo que domina e determina a práxis desses homens.»[9]   

Para Marx Franceses e Ingleses agarraram-se à ilusão política, que está mais perto da realidade, mas os alemães fizeram da ilusão religiosa a força motora da história.  A sua questão não era a dos interesses reais, políticos, mas a dos pensamentos puros. Fazem passar o humano religioso pelo humano original, que coloca na sua imaginação a produção de fantasias religiosas «...no lugar da produção real dos meios de subsistência e da própria vida.»[10]

Quando se dão ao trabalho de tratarem temas verdadeiramente históricos falam apenas da história das representações, desligada dos factos e desenvolvimentos práticos que lhe estão na base.  Manifestam assim a intenção de apresentarem o passado como estádio preliminar imperfeito, precursor do seu tempo.  Dão da história uma narrativa não assente em estudos mas em mexericos literários e historietas.

A adjetivação de Feuerbach do humano comunitário, “o homem comunista”, transforma comunista num predicado do “Homem”, em vez de adepto de um determinado partido revolucionário, que existe realmente.  Comunista é para Feuerbach uma mera categoria, Feuerbach afirma e prova que os humanos precisam e sempre precisarão uns dos outros, esta é a sua forma de entender a relação entre os humanos.  No entanto, Feuerbach apenas produz uma consciência correta acerca de um facto existente, ele é apenas um teórico, enquanto o comunista real quer derrubar o existente.   Para Feuerbach, se os proletários não se sentem satisfeitos na sua condição de vida, «...se o seu “ser” de modo nenhum corresponde à sua “essência”, isto é, ...uma desgraça inevitável que deve ser suportada tranquilamente.»[11];   

Os filósofos anteriores a Marx desligavam as ideias da classe dominante da própria classe dominante, atribuíam-lhes uma existência autónoma.  Afirmava-se que numa época dominavam umas ideias, noutra época outras, não havendo a preocupação com as condições de produção, ou mesmo com os produtores dessas ideias.  Deixavam de fora os indivíduos e as condições do mundo que estavam na base das ideias; deste modo afirmavam que eram os conceitos que dominavam as épocas.  Para eles essas ideias que dominam são cada vez mais abstratas, assumem cada vez mais a forma da universalidade.  Segundo Marx tal sucedia porque a classe dominante da época assim o quer, visto que ao querem apresentar o seu interesse como o interesse comunitário, apresentam as suas ideias como as únicas racionais e universalmente validas. 

Da separação entre as ideias dominantes e os indivíduos dominantes resulta de que na história, dominam sempre as ideias.  Assim entenderam-se todas as ideias e conceitos «...como “autodeterminações” do conceito que se desenvolve na historia.»[12] ; todas as relações humanas podiam ser derivadas do conceito de Homem, da sua essência, «Foi o que fez a filosofia especulativa.»[13]; Hegel confessou que “apenas considerou o curso do conceito”, apresentou a “verdadeira teodiceia” .

O seu esforço de demonstrar na história a soberania do espírito é apresentado por Marx em três pontos:  1) a separação das ideias em relação aos que dominam por razões empíricas; 2) a demonstração de uma conexão mística entre as ideias que sucessivamente dominam por via de considera-las “autodeterminações do conceito”; 3) eliminaram o aspeto místico do conceito que se autodetermina transformando-o numa pessoa, a consciência de Si, ou para parecerem verdadeiros materialistas transformaram o conceito numa serie de pessoas que o representam na historia (pensadores, filósofos, ideólogos).  Marx refere que «Deste modo eliminaram da história todos os elementos materialistas, e puderam então dar rédea solta ao seu corcel especulativo.»[14], a razão porque este método histórico dominou é explicado por Marx a partir da conexão com a ilusão dos ideólogos em geral, das suas divagações dogmáticas e distorções, ilusão que se explica pela posição prática na vida dos teóricos.  Na vida comum cada lojista sabe distinguir entre o que é e o que pretende ser, mas na historiografia anterior, segundo Marx, ainda não se conseguiu esse saber, acredita-se «...que todas as épocas são, literalmente, aquilo que dizem e imaginam ser.»[15] 

            Para Marx, (em K. Marx, Obras Escolhidas Tomo I, Teses Sobre Feuerbach, Lisboa, Edições “Avante”, 1982, Tese 1.) no materialismo anterior a si, o mundo sensível é tomado apenas sob a forma do objeto.  A filosofia fica-se pela contemplação do mundo, pela interpretação teórica dele.  Na tese 1, Marx refere que deve tomar-se a realidade como atividade humana sensível, como práxis.  O lado ativo do humano foi desenvolvido pelo idealismo apenas abstratamente.  Feuerbach queria objetos sensíveis, mas «...não toma a própria atividade humana como atividade objetivas.»[16].  Para Feuerbach, só a atitude teórica é genuinamente humana.  No entanto, Marx acentua também, nessa mesma tese 1 que falta compreender a Feuerbach «...o significado da atividade “revolucionaria”, de critica prática.»[17]

A intenção de Marx vai ao encontro de um dos princípios das Luzes. Segundo Guy Besse, já Kant, no seu texto O que são as luzes?  acentuou «...a unidade indissolúvel e dinâmica entre o uso do intelecto...» – o pensar – «...e a energia do querer.»[18] – o agir.  As luzes preconizavam que o humano deveria organizar a sociedade. 

No século XIX, o século em que o humano fez um esforço para se libertar de todas as tutelas, um esforço para se tornar autónomo, dirigir o seu próprio destino, Feuerbach libertou o humano da tutela religiosa, mas segundo Marx, não libertou o agir, continuou a ver o humano apenas como um ser que age em termos teóricos.   

       Mesmo em termos de pensamento humano, para saber se a um determinado pensamento corresponde a verdade objetiva tem de comprovar-se na práxis se ele se adequa à realidade, se existe carácter terreno, pois todo o pensamento isolado «...da práxis é uma questão puramente escolástica.»[19].

           Feuerbach apela ao conhecimento sensível, «...mas não toma o mundo sensível como atividade humana prática.»[20], na tese 8, Marx afirma que «A vida social é essencialmente prática.»[21].  Os seres humanos não são apenas resultado de um determinismo imposto pelo meio onde vivem, os seres humanos são os construtores desse mesmo determinismo, os humanos transformam o mundo, o meio onde vivem, e no seu crescimento, ao serem influenciados pelo meio, não devem esquecer que esse mesmo meio é um resultado da ação humana, da práxis.  É deste assunto que Marx fala na tese 3, «...as circunstâncias são transformadas precisamente pelos seres humanos...»[22]. 

      Feuerbach descobriu o segredo da família sagrada na família terrena, não desenvolvendo mais neste sentido, enquanto Marx expõe na Tese 4 que falta ainda criticar teoricamente e revolucionar pela prática a família terrena.  Feuerbach toma a essência humana como espécie, generalidade e pressupõe um indivíduo abstratamente humano.  Marx contrapõe que a essência humana é o conjunto das relações sociais, sendo que esta essência não é criticada por Feuerbach, pois ele apenas crítica um humano abstrato, um humano feito conceito, afirmando que toda a visão que se possa ter desse humano é uma visão teórica, uma visão por analogia com o humano real, uma visão interpretativa, que teoriza, mas que se fica por ali.  Para Marx é necessário ir além da teoria, pois como Marx diz na tese 11 «Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diversas; a questão porém, é transforma-lo.»; com estas duas linhas Marx reenvia a filosofia para o seu pleno significado, ela não devia ficar-se por descrever e inventariar o real.  A filosofia estava presa ao conhece-te a ti mesmo, e Marx reintroduziu na filosofia o muda-te a ti próprio. – a filosofia não é só interpretação, é também interação, transformação do mundo pelos seres humanos com instrumentos e técnicas humanas. 

 

O ESTADO DE COISAS QUE LEVA AO COMUNISMO

O mundo encontrava-se dividido entre duas classes que levavam vidas desiguais.  Uns (os proletários) viviam dependentes das flutuações do mercado, das crises ou da prosperidade do momento, sem qualquer posse sobre as forças produtivas além da sua força de trabalho vendida ao preço que os capitalistas queriam pagar, pois a muita oferta de trabalho sujeitava-os a baixos salários, vivendo por isso em condições sub-humanas. Os proletários trabalham em unidades industriais onde as condições eram muito más, tornando-se a tarefa do operário um fardo penoso que tinha de suportar para sobreviver; os burgueses, que exploravam os trabalhadores, detinham a posse das forças produtivas, gastavam o mínimo possível para criar condições de trabalho justas e dignas, e viviam com um objetivo bem definido: aumentar sempre mais o capital seja a que preço for.  Descontente com esta realidade, Marx vai denunciar os abusos da sociedade do seu tempo; não ficando apenas pela denuncia, vai também elaborar uma filosofia fundindo a teoria e a prática, procurando ultrapassar a resolução dos problemas teóricos através da consciencialização do papel da ação. Para a resolução dos problemas deve agir-se, por isso, a filosofia de Marx pode ser vista também como um guia para a ação.

O sistema de intercâmbio vigente, (este intercâmbio, garantia a partilha mundial dos avanços tecnológicos, permitindo que a evolução em termos de forças produtivas pudesse sobreviver ao declínio de determinada cidade ou pais), produzia em conexão com o desenvolvimento das forças produtivas uma classe que tinha de suportar todos os fardos da sociedade.  Da classe que constituía a maioria dos humanos existentes, surgiu uma consciência, (a consciência comunista), que afirma a necessidade de uma revolução radical.  Esta revolução radical dirigiu-se contra a sociedade do domínio do humano pelo humano, contra a sociedade de classes, contra o modo de atividade que se manifestou na história até aos dias de Marx.  Para Marx existia uma classe que não era reconhecida como classe.  Existia para servir os interesses dos grandes capitalistas.  Esta classe que não era reconhecida como classe, «...é já a expressão da dissolução de todas as classes, nacionalidades, etc.,...»[23]; quando os humanos já não se distinguem como indivíduos, e são vistos como uma grande massa de trabalhadores que servem como peças de uma maquina, onde já nenhum vale por si, mas sim por ser uma peça que pode ser substituída sem afetar a grande maquina, então é possível agregar todos esses humanos na necessidade de uma revolução que os liberte a todos.  Todos eles estão perante as mesmas condições de vida, alienados do resultado do que produzem, fechados para a vida, limitando-se a tentar sobreviver.  O que interessa é o lucro dos grandes capitalistas, o humano comum tem de entrar no sistema se quer ganhar o seu sustento, tem de se fazer uma peça, tem de abdicar de si em prol de um resultado ao qual ele não pode dizer que lhe pertence.  É necessária esta consciência, de que uma minoria subjuga a grande maioria para que a grande maioria se una, para além da sua nacionalidade, para além do interesse de cada um em particular.  Existe uma necessidade coletiva de libertar o humano da subjugação a que está sujeito, e esta libertação só se dará se em conjunto, os humanos afirmarem o interesse geral como mais importante do que o interesse dos grandes capitalistas.  É uma questão de justiça social, pois não deve ser uma centena de famílias a saber o que a humanidade necessita.  Eles defendem os seus interesses, visam o seu bem-estar e o resultado do esforço de todos é alienado daqueles que trabalham, revertendo para os que detêm o capital. 

«...não é possível conseguir uma libertação real a não ser no mundo real e com meios reais,...»[24].  No tempo de Marx havia-se chegado a um limiar material em que era possível libertar o humano.  Em tempos antigos, por muito que os teóricos tentassem construir sistemas que apontassem caminhos, as condições materiais não permitiam que essa libertação se desse.  Engels, em Princípios Básicos do Comunismo, refere que tem de haver uma classe dominante enquanto não puder ser produzido tudo o que é necessário à vida dos humanos, e para além desse todo necessário tem também de ficar «...um excedente de produtos para o aumento do capital social e para a formação de forças produtivas...»[25]; vemos assim que foi necessário o período da dominação da burguesia, pois foi ela que instituiu a grande industria, esta foi uma condição fundamental para que se pudesse dar o passo seguinte, para uma ordem social onde a comunidade regesse a vida dos seres humanos.  Com o surgimento de meios materiais como a máquina a vapor, de uma agricultura aperfeiçoada que permitiu ao humano ter alimentação, das técnicas que permitiram o acesso à habitação e vestuário, chegou-se ao momento certo para que se projetasse e pusesse em execução a libertação do humano. É necessário um determinado nível na indústria, no comércio, na agricultura, e no intercâmbio para que o conjunto de necessidades básicas possa ser assegurado; só com as condições para assegurar estas necessidades básicas é possível pensar em fazer a revolução.  No tempo de Marx, esse conjunto de técnicas, meios de produção, estavam a desabrochar.  A evolução tinha chegado a um estádio que tornava possível pensar e executar uma revolução real, não teórica, no fundo uma real libertação dos humanos.  As duas condições da revolução são portanto, «...por um lado, as forças produtivas existentes, por outro, a formação de uma massa revolucionaria que faz a revolução...»[26]; são necessários os meios para assegurar a vida das pessoas, mas são também necessárias as pessoas para imporem a sua vontade. A necessidade fundamental de qualquer revolução é a sua base real, e não qualquer conceção teórica radical sem possibilidade de ser posta em prática.  Ao não serem criadas as condições materiais para assegurar o seu êxito, ficará na estante de qualquer biblioteca, não tendo qualquer valor efetivo ao nível da mudança que as necessidades dos humanos impõem enquanto não for atingida uma plataforma em que os humanos vivam com dignidade, repartido entre todos o resultado da produção, para que possam condignamente.         

            Foi com o surgimento da manufatura, aquando da divisão do trabalho entre as diferentes cidades, que apareceu uma relação diferente entre o operário e quem lhe dava trabalho.  O vinculo patriarcal em que assentavam as organizações corporativas pré industriais é alterado com o surgimento da produção em massa. Com a generalização da circulação monetária, o dinheiro passa a ocupar um papel privilegiado na relação operário capitalista « O comércio e a manufatura criaram a grande burguesia,...»[27], quando a procura de produtos manufaturados deixou de ser satisfeita pelas forças produtivas até ai existentes na indústria, a grande burguesia fez disso a força motriz para a criação da grande indústria, «...a aplicação de forças elementares para fins industriais, a maquinaria e a extensa divisão do trabalho.»[28], estabeleceram-se os meios de comunicação e o mercado mundial moderno concentrou os capitais.  A grande indústria criou a história universal ao aniquilar a exclusividade de cada uma das nações, aniquilou a familiaridade no seio do trabalho, e «...resolveu todas as relações naturais em relações de dinheiro.»[29].  Cada vez mais o operário se viu afastado do produto do seu trabalho, cada vez mais se acentuou a clivagem entre o indivíduo que usa os outros para aumentar o seu capital e os que eram explorados.  Os proletários, viram-se afastados das suas vidas no campo, onde muitos produziam para consumo próprio.  Desta maneira não estavam deslocados do processo de produção, pois viviam desde o princípio ao fim o ciclo da produção.  Trabalhavam para um determinado produto, com o qual, e em relação ao qual se sentiam parte integrante do seu desenvolvimento.  Com a saída dos humanos dos campos, com o progressivo desaparecimento das corporações, os humanos para viverem tinham de integrar-se nestas grandes unidades industriais, servindo apenas como parte menor num processo que os ultrapassava, vendo-se assim afastados do resultado final, tanto em termos do produto em si, como do bem económico que advinha da venda do produto.  O fosso social foi-se alargando, de um lado os capitalistas que detinham as forças produtivas, do outro os proletários que só tinham a sua força de trabalho, e que tinham de a vender abaixo do valor real.  Os capitalistas ficavam com a mais-valia, e os proletários com a insatisfação de nunca terem o suficiente para viver, na triste realidade de uma vida miserável.  Constataram que os outros para quem eles trabalhavam viviam bem, sentindo os proletários que esse bem-estar dos capitalistas era conseguido com o suor do seu trabalho, mas que as circunstâncias do momento impunham que as coisas fossem assim.   Ao longo da história uma classe sempre dominou outras, mas naquele tempo, como hoje, eram os que detinham as forças produtivas que dominavam os que só tinham a sua força de trabalho.  Como havia muita oferta de mão de obra, os capitalistas podiam pagar o trabalho dos proletários abaixo do preço, ficando os proletários na miséria e os capitalistas bem de vida.  Marx fala da contradição entre forças produtivas e a forma de intercâmbio, afirma que todas as colisões da história têm a sua origem nesta contradição.

            Os indivíduos estavam desunidos pela concorrência entre si, mas para que se unam deverão conseguir-se os meios necessários para esta união.  Estes têm de ser estabelecidos pela grande indústria, pelas grandes cidades industriais e por comunicações baratas e rápidas.  Para que os proletários ultrapassem os interesses particulares de cada um, têm de ganhar consciência que há uma luta comum, e as grandes cidades industriais permitem que grandes quantidades de proletários dialoguem entre si e se apercebam que as dificuldades de um são as dificuldades dos outros, pois que todos em conjunto têm em comum condições de vida injustas.  Da união surge uma vontade comum onde já não lutará cada um por si, mas lutarão todos por todos, de uma maneira articulada.  A luta será a vontade de muitos expressa num plano de ação comum, única maneira de se poder ter êxito.  Os transportes permitiram que as cidades se ligassem entre si, que os proletários de uma cidade se unissem aos proletários de outra, que as ideias circulassem, que as soluções encontradas por uma determinada região não ficassem circunscritas a essa região, que se estabelecesse um plano de ação geral a nível mundial, e que pudesse servir todos os proletários.  Ao circularem as ideias, unifica-se a luta em vez de a dividir com estratégias dispares que enfraqueceriam os proletários e que constituiria uma vantagem para os capitalistas.

            « Os indivíduos isolados só formam uma classe na medida em que têm de travar uma luta comum contra outra classe;...»[30], só no sentimento e na consciência de que há exploração, de que as condições dentro das fabricas são desumanas, de que as habitações não oferecem as condições mínimas, e de que todos os proletários estão no “mesmo barco”, é que surge a união dos proletários em torno de uma luta comum.  Do outro lado estão os que exploram, os que pagam pouco, os que não se importam se os humanos que trabalham passam bem ou passam mal.  Assim, os que estão no lado que sofre sentem que na união serão mais fortes, que se unirem os seus interesses vão convergir numa estratégia comum e esta será tanto mais forte quanto for a adesão dos proletários. 

            O proletariado, ou a classe dos proletários surgiu com a revolução industrial, revolução industrial que «...foi ocasionada pela invenção da maquina a vapor, das varias maquinas de fiar, do tear mecânico e de toda uma série de outros aparelhos mecânicos.»[31].  Ao nível da confeção de tecidos e sistema fabril, estas maquinas, devido ao seu preço só podiam ser adquiridas pelos grandes capitalistas, e uma vez nas mãos destes, observou-se o declínio do trabalho feito com as rodas de fiar e os teares imperfeitos.  Estas novas máquinas forneciam mercadorias mais baratas e melhores.  Os antigos operários viram-se assim sem propriedade, pois as suas ferramentas e teares já não tinham valor.  O que se passou ao nível da confeção de tecidos e sistema fabril, passou-se posteriormente em todos os restantes ramos da indústria.  Os operários viram-se pois, com necessidade de se integrarem nas novas unidades industriais, onde o trabalho era feito com gestos mecânicos muito simples, sempre iguais.  Um operário que antes fazia uma peça, fazia agora a componente de uma peça, sempre a mesma do princípio ao fim do dia, provocando uma saturação no humano que se sentia também ele uma peça, integrado numa grande engrenagem que o ultrapassava.  Esta divisão do trabalho servia os interesses dos grandes capitalistas, pois com cada pessoa a fazer uma determinada componente de uma parte do processo de produção, os produtos eram fornecidos mais depressa e eram mais baratos.  Mas cada vez mais os gestos simples dos operários podiam ser feitos por máquinas, e assim cada vez se desvalorizou mais o trabalho humano. 

            Por todo o lado e em todos os ramos a grande indústria suplantou a manufatura e o artesanato, todos os antigos mestres artesãos se viram ultrapassados por esta viragem para a mecanização, consequência da viragem para o lucro e produção em massa.  Desta maneira a situação dos operários viu-se totalmente alterada, e a posição dos humanos perante esta nova organização do trabalho assume duas formas: duas novas classes que absorvem todas as outras, os grandes capitalistas, ou classe dos burgueses como detentores dos meios de produção necessários; e o proletariado, que nada possui para além da sua força de trabalho vendida diariamente, hora a hora, «...a fim de obter em troca os meios de existência necessários ao seu sustento.»[32].  O trabalho pago pelos capitalistas é visto como uma mercadoria como outra qualquer, e está assim sujeito às flutuações do mercado, ou seja, sujeito à lei da oferta e da procura.  Como a oferta do trabalho proletário é muita, o capitalista paga ao trabalhador o mínimo possível, paga-lhe a quantia necessária para que este não morra à fome, o que no entanto muitas vezes acabou por acontecer.

            O facto de os artigos industriais se tornarem cada vez mais baratos levou a que em todos os países do mundo, o sistema da manufatura ou da indústria assente no trabalho manual fosse completamente destruído.  Em todos os países do mundo foram preferidos os produtos mais baratos da grande indústria, o que levou à ruína das manufaturas locais.  «...a grande indústria colocou em relação uns com os outros todos os povos da Terra, juntou todos os pequenos mercados locais no mercado mundial, preparou, por toda a parte, o terreno para a civilização e o progresso, de modo que tudo aquilo que acontece nos países civilizados tem de repercutir-se em todos os países.»[33], e se a ruína da indústria assente no trabalho manual na Inglaterra foi um facto, também na China e na Índia tal sucedeu.  A grande indústria fez com que todas as nações ficassem dependentes umas das outras, ou seja, que todas as nações do mundo ficassem dependentes da grande indústria.  Deste modo a burguesia tornou-se a classe com maior riqueza e poder e transformou-se em cada país onde a grande industria substituiu a manufatura, a classe dominante, tomando desta maneira nas suas mãos o poder político.  Pela livre concorrência instituiu-se que «...os membros da sociedade são apenas desiguais na medida em que os seus capitais são desiguais, de que o capital se tornou o poder decisivo...»[34], mas a livre concorrência é necessária porque a grande indústria só pode crescer numa sociedade onde a livre concorrência existe.  Constata-se assim que a grande indústria é uma condição necessária para que se possa fazer a revolução comunista, pois só com a grande indústria se podem satisfazer as necessidades das pessoas.  Vemos então, que segundo Marx existe um desenvolvimento necessário na história, e que ao longo da história se veem criando as condições para que se chegue ao ponto onde é possível instituir a vida comunitária.    

      O desenvolvimento industrial tornou os burgueses mais ricos, a maquinaria permitiu que se pagassem salários baixos, mas à medida que se expandiu tornou também os operários mais numerosos.  À medida que o capital aumentava, aumentou também o número dos proletários, pois o capital só se multiplica quando emprega trabalho, donde os proletários só podem ter emprego por meio do capital.  Por isso Engels afirma «...a multiplicação do proletariado avança precisamente ao mesmo tempo que a multiplicação do capital.»[35].  O desenvolvimento industrial concentra burgueses e proletários em grandes cidades, e esta concentração de massas dá ao proletário consciência da sua força.  Também a redução dos salários possível com o surgimento de mais maquinas que reduzem o trabalho manual, aumentou o descontentamento dos operários.  Este descontentamento, juntamente com a consciência de poder dos proletários, prepara a revolução da sociedade pelo proletariado.
     Por outro lado, a grande indústria cria excedentes de produção, fabricando mais produtos do que pode vender; estes excedentes originam crises comerciais que obrigam as fabricas a parar, levando à falência muitos fabricantes, o que tem por consequência o desemprego de grande número de operários.  Estas crises comerciais ocorrem ciclicamente, normalmente de cinco em cinco anos ou de sete em sete.  Marcam períodos de alternância entre épocas de prosperidade e épocas de crise.  Consequentemente, épocas de crise levam a uma agitação revolucionária geral que põe em perigo a ordem vigente.  
            Se com estas crises a grande indústria continuar com a livre concorrência institucionalizada, viver-se-ão constante crises ameaçadoras da civilização, lançando na miséria proletários e na ruína muitos burgueses.  Daqui advêm duas possibilidades: ou se abandona a grande indústria ou deverá haver uma nova organização da sociedade, onde os fabricantes individuais não concorram entre si, mas toda a sociedade dirija a produção industrial de acordo com um plano estabelecido segundo as necessidades de todos.
             A expansão da produção até ao infinito, possível pela grande indústria, deveria permitir criar as condições para que fosse produzido tudo o que é necessário à vida de cada pessoa.  Permitiria que cada pessoa se desenvolvesse e pusesse «...em prática todas as suas forças e aptidões em completa liberdade.»[36].  Assim, o excesso de produção industrial, numa sociedade organizada de outra maneira, acabará com a miséria e com a oscilação das épocas entre crise e prosperidade.  Assim existem os meios para acabar com os males da sociedade, mas esses meios, com a organização da sociedade nos termos descritos, só criava miséria e mal-estar social; com a nova ordem social proposta por Marx, a capacidade da grande indústria será utilizada para satisfazer as necessidades das pessoas e não para criar monopólios que enriqueçam alguns e empobreçam a grande maioria.  Havia aqui um desajuste entre as possibilidades da grande indústria e a maneira como estas eram utilizadas; em vez de serem os seres humanos em geral a beneficiar do desenvolvimento humano, eram uns poucos capitalistas que se serviam do desenvolvimento humano para aumentar o capital, fazendo do progresso um retrocesso para quem só utilizava a sua força de trabalho.  

 

PRÁXIS DE MARX

Para Marx o comunismo não é um ideal, é um movimento real que transforma e derruba o mundo existente.  A transformação da sociedade não deverá ser feita através de teorias abstratas, deverá transformar realmente o que existe.  É através da revolução violenta que se dá a transformação de toda a ordem social; uma revolução que muda realmente as coisas, com um movimento levado a cabo por humanos reais, sobre a própria realidade, e contra a forma de organização burguesa.  Não basta por no papel ideias para mudar o mundo, estas ideias tem de se adequar ao que existe e apontar soluções viáveis para a transformação.  Não se quer uma transformação que traduza um reajuste da organização burguesa, mas uma transformação que supere a organização burguesa, abula a propriedade privada e crie uma sociedade sem classes, onde a vida comunitária seja uma realidade de facto, tornada possível pela grande indústria e por uma agricultura aperfeiçoada[37].

Antes de Marx, os filósofos efetuaram críticas à sociedade, mas foram críticas teóricas.  Interpretaram a realidade mas não tentaram transforma-la, interpretaram-na de um ponto de vista abstrato, tentando construir um determinado sistema.  Para Marx esses sistemas tinham pouca ligação com a realidade, pois como ele dizia, «Não ocorreu a nenhum destes filósofos procurar a conexão da filosofia alemã com a realidade alemã, a conexão da sua crítica com o seu próprio ambiente material.»[38].

O mundo realmente existente é o mundo sensível, «...produto da indústria e do estado em que se encontra a sociedade...»[39], produto do desenvolvimento humano ao longo de gerações, produto histórico, que se mostra empiricamente. 

As premissas da conceção materialista da história são premissas reais, «São os indivíduos reais, a sua ação e as suas condições materiais de vida, tanto as que encontram como as que produziram pela sua própria ação.»[40].  A filosofia de Marx quer operar na realidade e não trabalhar num campo de ensaio abstrato com muito pouco reflexo na realidade.  «Estas premissas são portanto, constatáveis de um modo puramente empírico.»[41], não se pode conceber uma interpretação fora desta base real, não se pode tratar a vida a partir de abstrações, a partir de generalizações que não traduzam realmente o que é o mundo e o que os seres humanos são.  A conceção materialista visa a realidade, e a partir daqui interagir com a realidade, pois se se está equivocado em qualquer abstração que passe ao lado da realidade, todas as tentativas para fazer algo pela realidade serão vãs.  Quanto às condições materiais produzidas pela ação dos indivíduos, Marx refere na tese 3 (Teses Sobre Feuerbach), que não se podem ver os indivíduos apenas como resultado das circunstâncias, deve aceitar-se que «...as circunstancias são transformadas precisamente pelos seres humanos...»[42], a práxis revolucionaria tem de ser entendida como o mudar das circunstancias pela atividade humana.  Não se deve ficar apenas pela contemplação do mundo, pela interpretação teórica.  Na tese 2 Marx diz que a disputa sobre a realidade de um pensamento só pode ser resolvida na práxis; só o mundo mostra que determinado sistema tem ou não validade objetiva.  Na tese 1, Marx refere que no idealismo o lado ativo do humano foi desenvolvido apenas abstratamente, o mundo sensível foi tomado apenas como objeto, não se reconhecendo a atividade sensível, real, como atividade objetiva, onde o humano pode influir no desenrolar dos acontecimentos. Marx deseja este papel para o humano, não apenas descrever, mas operar no real e conduzi-lo, dirigi-lo para que se criem melhores condições de existência para os humanos.

Segundo Marx faltou a Feuerbach criticar teoricamente e revolucionar pela prática a família terrena; Feuerbach descobriu a família terrena como o segredo da família sagrada, mas ficou por aí, não resolveu as contradições desta família terrena.  Faltou-lhe dar o passo para além da leitura do mundo, o passo que preconizaria a transformação do mundo.

A essência humana não é uma abstração, ela é o conjunto das relações sociais, mas Feuerbach não criticou esta essência real, não viu que a vida social é essencialmente prática. Ao ficar por uma explicação teórica quanto à base antropológica das religiões não deu conta do que realmente o ser humano e a vida são.

Para que haja uma libertação do humano, essa libertação deve dar-se «...no mundo real e com meios reais...»[43], não se pode libertar um humano abstrato que não existe senão no pensamento, deve fazer-se uma leitura correta do que os humanos são.  Para além disso, a grande indústria, e a agricultura aperfeiçoada têm de garantir o suporte material para a satisfação das necessidades.  Marx afirma que a libertação é um ato histórico, que é possível com um certo grau de desenvolvimento, garantir a satisfação de necessidades.  Trata-se de revolucionar o existente, de pela prática, com a ajuda do desenvolvimento tecnológico, operar no mundo real, mudar o que existe realmente e não criar sistemas teóricos que operam a partir de abstrações[44].

Para que os proletários valham como pessoas têm de abolir a sua própria condição de existência anterior, que é a de toda a sociedade anterior.  Os indivíduos têm de derrubar o Estado para afirmar a sua personalidade «...o proletário liberta-se abolindo a concorrência, a propriedade privada e todas as diferentes classes.»[45].  Antes os humanos eram vistos como uma peça que servia para manter o funcionamento da “grande maquina”.  Alienava-se o humano, pois ele trabalhava grande parte do dia ao serviço do capitalista.  Vendia a sua força de trabalho e sentia-se estranho no local de trabalho, pois não era ele como pessoa que estava ali.  Estava no local de trabalho como um autómato que agia maquinalmente, não era ele próprio; era parte de si, mas essa parte era-lhe estranha, pois o trabalho que ele fazia não o realizava em plenitude.  Sentia que perdia grande parte do seu dia não a viver mas a tentar sobreviver; transformava-se numa peça e essa transformação retirava de si o que ele era.  Para que o humano volte a ter valor como humano, a organização anterior da sociedade deveria ser abolida, deveria reestruturar-se a sociedade.  Esta reestruturação conferiria dignidade à pessoa humana.  Contra o modo de atividade que existiu ao longo da história humana tem de se instituir outro modo de atividade, onde já não haja dominação de uma classe sobre outra.

Para que se processe esta abolição do modo de atividade anterior, o proletário tem de tomar consciência da sua força, por isso a importância das grandes cidades e do desenvolvimento das vias de comunicação.  As grandes cidades, como atrás referi[46], permitiam que grandes massas de operários se juntassem e agissem em conjunto; as vias de comunicação permitiram que as ideias circulassem, que as cidades se unissem, que o proletário se visse como a força principal na comunidade humana.

Para levarem a cabo a transformação da sociedade existente os proletários teriam de se organizar como partido revolucionário.  Para que possam derrubar o domínio da burguesia os proletários tem de se formar numa classe una, pois só unidos serão fortes e poderão ter um plano comum que leve à transformação da sociedade.

O proletariado organizado num partido revolucionário deverá conquistar o poder político para que se possa instituir o interesse geral na estrutura social.  A classe dos proletários não afirma nenhum interesse particular de classe mas o interesse da comunidade.  Para que os indivíduos desenvolvam em todas as direções as suas aptidões é necessária a vida comunitária, «...só na comunidade, portanto, se torna possível a liberdade pessoal.»[47], antes a liberdade pessoal existiu apenas para alguns privilegiados da classe dominante, mas na vida comunitária todos os indivíduos serão livres.  Os comunistas não tem interesses particulares, visam o interesse dos proletários em geral, visam a formação dos proletários em classe, para assim conquistarem o poder político e derrubarem o domínio da burguesia.

Devido às crises cíclicas provocadas pelo excesso de produção da grande indústria, está a abandonar-se a livre concorrência, pois a exploração da produção por particulares leva a essas crises.  A sociedade não pode aguentar por muito tempo estas crises cíclicas, logo ou se abandona a grande indústria, o que é inviável, ou surge a necessidade de «...uma organização totalmente nova da sociedade...»[48].  Nesta nova organização da sociedade já não se dará a concorrência dos fabricantes individuais entre si, mas será a sociedade de acordo com um plano estabelecido segundo as necessidades de todos, a dirigir a produção industrial.  A expansão da produção da grande indústria até ao infinito, leva a que seja produzido tudo o que é necessário à vida, sendo assim possível aos indivíduos «...desenvolver e pôr em prática todas as suas forças e aptidões em completa liberdade.»[49].

    A revolução comunista será feita pelo proletariado.  Este suprime o domínio de uma classe por outra eliminando as próprias classes, mas para que tal aconteça a classe dos proletários tem de tomar consciência da sua força, terá de organizar-se como partido revolucionário, e levar a cabo a transformação num movimento prático, numa revolução.

Na nova ordem social, os indivíduos têm de apropriar-se da totalidade das forças produtivas[50] existentes no seio do intercâmbio universal, para alcançarem assim a sua auto ocupação e para assegurarem a sua existência.  Só os proletários, completamente excluídos de toda a auto ocupação estão em condições de realizar a apropriação das forças produtivas.  A exploração da indústria e de todos os ramos da produção em geral será feita por toda a sociedade, será feita por conta da comunidade, segundo um plano da comunidade.  Abule-se assim a concorrência e estabelece-se em vez dela a associação.

As proposições teóricas dos comunistas são apenas «...expressões gerais de relações efetivas de uma luta de classes que existe...»[51], para Marx pode condensar-se a teoria dos comunistas numa única expressão «...supressão da propriedade privada.»[52]; «...no caso da apropriação dos proletários, uma massa de instrumentos de produção tem de ser subordinada a cada indivíduo e a propriedade tem de ser subordinada a todos.»[53]; «...com a apropriação das forças produtivas totais pelos indivíduos unidos cessa a propriedade privada.»[54]

A propriedade privada não pode ser separada da exploração individual da indústria e da concorrência; estas eram uma consequência da exploração da indústria por singulares.  Uma vez abolida a exploração da indústria por singulares, será também abolida a propriedade privada e a concorrência, estabelecendo-se no seu lugar «...a utilização comum de todos os instrumentos de produção e a repartição de todos os produtos segundo acordo comum, ou a chamada comunidade dos bens»[55].  A reivindicação principal dos comunistas é a abolição da propriedade privada, esta é segundo Engels «...a expressão mais breve e mais característica desta transformação de toda a ordem social necessariamente resultante do desenvolvimento da indústria...»[56]

A abolição da propriedade privada não pode-se dar por via pacífica.  Os proletários estavam a ser cada vez mais reprimidos, e esta repressão empurrava-os para a revolução, tinham de conquistar pela força aquilo a que tinham direito.  Engels refere que os comunistas defenderiam nos atos a causa dos proletários.  Aqui se vê a práxis marxista, os comunistas não se ficam por palavras, passam aos atos.  Querem mudar a sociedade, mas se o estado de coisas resiste, eles não se resignam, passam aos atos, levando-os até às últimas consequências, até a uma revolução, que de forma violenta mudaria a forma de organização da sociedade.

Realizado o primeiro ataque contra a propriedade privada, o desenvolvimento da revolução concentrará nas mãos do Estado todo o capital, indústria, agricultura, transportes e comércio.  Quando tal se verifica, a propriedade privada desaparecerá por si própria, o dinheiro tornar-se-á supérfluo e as últimas formas de intercâmbio da antiga sociedade tombarão.

            A revolução comunista realizar-se-á simultaneamente em todos os países civilizados, pois a grande indústria uniu e tornou dependentes uns dos outros todos os povos da Terra. Os comunistas não tem interesses particulares, visam o interesse dos proletários em geral.  Desta forma a união dos proletários ultrapassa a nacionalidade.

Verificamos portanto, que a partir de uma análise rigorosa da sociedade do seu tempo, Marx e Engels chegaram ao comunismo.  Não o viram como um ideal, mas como uma necessidade real.  Viram-no como um movimento que se impunha como algo que era inevitável.  O comunismo é como que uma vontade do próprio mundo, uma vontade dos próprios humanos de melhorarem a sua vida, como diz Marx «...chamamos comunismo ao movimento real que supera o atual estado de coisas.»[57].  É como que um impulso contra a injustiça, contra o domínio do homem pelo homem, um impulso que se afirma com toda a legitimidade uma vez que uma minoria da sociedade vivia às custas da grande maioria.  Marx, no seu sentido humanista não pôde estar de acordo com a situação humana vigente, não pôde estar de acordo com as bases onde assentava a sociedade.  Tinha de fazer-se qualquer coisa, mas não adiantava fazer um sistema teórico.  Marx compreendeu que só com uma filosofia prática se poderia realizar a transformação.  Marx não negou o conhece-te a ti próprio, corrigi-o.  Teve visão para apreender a necessidade de ir mais além, teve a visão de ir buscar um dos fundamentos da própria filosofia, o muda-te a ti próprio. Este fundamento tinha ficado inexplicavelmente esquecido ao longo dos tempos, ou se não ficou esquecido, as tentativas de o pôr em prática ficaram-se por tentativas ténues, teóricas, inconsequentes ao nível da realidade.  Mesmo em termos do conhece-te a ti próprio, as relações estabelecidas pelos filósofos anteriores tinham fracassado, pois conheciam do mundo apenas o seu reflexo inteligível.  Marx quer conhecer o mundo, mas o mundo realmente existente.  Só conhecendo o mundo realmente existente se pode transformar a realidade.

No tempo de Marx os humanos não valiam como pessoas, para que valessem deveria ser abolida a existência anterior, pois ela alienava os seres humanos, transformava-os em meios para que os burgueses aumentassem o capital.  Numa sociedade dividida em duas classes, para que aquela que constituía a maioria dos seus membros tivesse uma existência digna, era necessário criar-se as condições para que o proletário tomasse consciência da sua força. O tempo do domínio da burguesia constituiu uma fase necessária na evolução humana; permitiu o desenvolvimento da grande indústria, das grandes cidades e o desenvolvimento das vias de comunicação.  Uma vez atingidas estas condições, a humanidade pôde pensar em dar um passo em frente, levar o proletariado a tomar consciência da sua força, organizá-lo como partido revolucionário, e apontar a conquista do poder político por parte do proletário para que se instituísse o interesse comunitário na sociedade.  Uma vez conseguida a conquista do poder político, é possível instituir o interesse geral na sociedade, utilizar a grande indústria não ao serviço dos capitalistas mas ao serviço da comunidade humana em geral. 

A revolução comunista ao apropriar-se das forças produtivas acaba com a propriedade privada.  Os humanos passam a poder utilizar as forças produtivas para satisfazer as necessidades materiais da comunidade humana.  A grande indústria passa a estar ao serviço dos seres humanos em geral, deixando desta maneira de servir os interesses de poucos, e subjugar a existência de muitos.   


Depois do exposto, uma reflexão pessoal sobre certa maneira de encarar o comunismo.  Em princípio será uma reflexão ingénua, pois não domino profundamente a filosofia de Marx e Engels, mas do que estudei e compreendi surgiu-me a reflexão que parece fazer sentido.

Marx e Engels, em certas passagens parecem apresentar um quadro cor-de-rosa sobre o futuro. Apresentam o comunismo como o movimento para a sociedade perfeita, para a perfeição.  A evolução humana, a transformação da sociedade, que se faz através do comunismo, parece apontar para um estádio ideal que estaria logo ali; «...conseguir uma libertação real...»[58]; «...ao passo que na sociedade comunista, na qual cada homem não tem um círculo exclusivo de atividade, mas se pode adestrar em todos os ramos que preferir...»[59]; «De tal modo que precisamente aquela qualidade da grande indústria que dá origem, na sociedade de hoje, a toda a miséria e a todas as crises comerciais, é a mesma que, numa outra organização social, acabará com essa miséria e com essas oscilações que causam tanta infelicidade.»[60].  

Penso que o plano de ação ou o movimento para mudar o estado de coisas foi válido, mas a meta a atingir não poderia ser definida.  Não podemos dizer o que será o futuro.  O comunismo tentou ser científico, talvez influenciado pela importância que a ciência teve no século XIX, mas hoje vemos que mesmo a ciência tem os seus limites; ela não é cem por cento certa. Quando apontamos uma meta determinada para o futuro estamos a circunscrevê-lo, a limitar o futuro a uma visão de um determinado tempo.

Quando dizemos o que será o futuro, a ideia começa a ultrapassar a realidade.  Depois, o mundo muda, as circunstâncias mudam, mas nós temos tendência a ficar presos à ideia inicial e assim ela começa a impor-se à realidade. 

Para Platão o fim era o reencontro com a ideia do Bem; apontou um fim indefinido, uma possibilidade em aberto, que não circunscrevia o futuro.  A lição que tiro daqui é que não devemos ter como finalidade última algo pré-estabelecido.  O comunismo para ser fiel a si próprio tem de reconhecer que não consegue expor exatamente onde se vai chegar.  Talvez porque se calhar grande parte das palavras que explicam o futuro ainda não foram inventadas. 

A ideia com que fiquei é que se pretende instituir a perfeição na realidade e dizer, a perfeição será assim.  Penso que esta apresentação do futuro de uma maneira definitiva é restringir a possibilidade humana quanto à existência, pois hoje o que para mim me parece a perfeição, amanhã, com outros meios e outras dados pode não parecer. 

Circunscrever o futuro às ideias de hoje é para mim comunismo numa perspetiva fechada.  Compreendo que tivesse de ser assim, pois não se podia apresentar aos humanos uma ideia abstrata como meta a atingir.  No entanto pôr no comunismo uma meta concreta é desligar-se mais uma vez da realidade, pois as circunstâncias de amanhã podem negar as metas de hoje.

Penso que hoje se pode falar do comunismo numa perspetiva aberta.  O comunismo continuará a ser o movimento da transformação do estado de coisas, mas essa transformação tem como meta, não uma ideia pré definida, mas uma possibilidade em aberto.  O comunismo numa perspetiva aberta não é uma tentativa para instituir a perfeição na terra; é sim, o movimento para levar o mundo tornar-se melhor, a evoluir a partir do que ele é, para o que pode vir a ser; seguir o desenvolvimento do mundo a partir da exploração das suas potencialidades, e não impor ao mundo o que queremos que ele seja.  O comunismo não é um mundo perfeito, não é a perfeição que vai chegar ao virar da esquina, o comunismo é luta contra dificuldades, é esforço, é suor.  Mas é também saber que se dermos o nosso melhor vamos tornar o mundo melhor. Pois como tão bem Marx exprimiu, “Não há problemas humanos para os quais não haja solução humana”.  O comunismo não pode ser exposto da maneira cor-de-rosa como é apresentado por muitos, ele não deverá ser demagogia para chegar ao poder.  O comunismo é antes uma certa atitude perante a vida, é participar, interessar-se para além dos interesses limitados de cada um, é interessar-se pelo todo.  Um comunista não sonha um mundo para realizar, sonha tornar este mundo melhor, torná-lo melhor não é torna-lo azul, cinzento, verde ou vermelho. 

 

  

BIBLIOGRAFIA

Marx, “Marx Engels Obras escolhidas Tomo I”, Teses sobre Feuerbach, Lisboa, Edições Avante, 1982.

Marx e Engels, “Marx Engels Obras Escolhidas Tomo I”, Capítulo Primeiro de A Ideologia Alemã, Lisboa, Edições Avante, 1982.

Engels, “Marx Engels Obras Escolhidas Tomo I”, Princípios Básicos do Comunismo, Lisboa, Edições Avante, 1982.

Marx e Engels, “Marx Engels Obras Escolhidas Tomo I”, Manifesto do Partido Comunista, Lisboa, Edições Avante, 1982.

 

 

 

 

 



[1] Marx e Engels, “Marx Engels Obras Escolhidas Tomo I”, Capítulo Primeiro de A Ideologia Alemã, Lisboa, Edições Avante, 1982, página 6.

[2] Marx e Engels, obra citada, página 8.

[3] Marx e Engels, obra citada, página 16.

[4] Marx e Engels, obra citada, página 19.

[5] Marx e Engels, obra citada, página 29.

[6] Marx e Engels, obra citada, página 25.

[7] Marx e Engels, obra citada, página 32.

[8] Marx e Engels, obra citada, página 34.

[9] Marx e Engels, obra citada, página 34.

[10] Marx e Engels, obra citada, página 35.

[11] Marx e Engels, obra citada, página 37.

[12] Marx e Engels, obra citada, página 41.

[13] Marx e Engels, obra citada, página 41.

[14] Marx e Engels, obra citada, página 42.

[15] Marx e Engels, obra citada, página 42.

[16] Marx, “Marx Engels Obras Escolhidas Tomo I”, Teses sobre Feuerbach, Lisboa, Edições Avante, 1982, Tese 1.

[17] Marx, obra citada, Tese 1.

[18] Guy Besse, A Herança das Luzes: Coragem para pensar, coragem para agir, in O Património Espiritual da Europa, Lisboa, Edições Cosmos, 1999, página 190.

[19] Marx, “Marx Engels Obras Escolhidas Tomo I”, Teses Sobre Feuerbach, Lisboa, Edições Avante, 1982, Tese 2.

[20] Marx, obra citada, Tese 5.

[21] Marx, obra citada, Tese 8.

[22] Marx, obra citada, Tese 3.

[23] Marx e Engels, “Marx Engels Obras Escolhidas Tomo I”, Capítulo Primeiro de A Ideologia Alemã, Lisboa, Edições Avante, 1982, página 31.

[24] Marx e Engels, obra citada, páginas 15,16.

[25]Engels, “Marx Engels Obras Escolhidas Tomo I”, Princípios Básicos do Comunismo, Lisboa, Edições Avante, 1982, Página 85.

[26] Marx e Engels, “Marx Engels Obras Escolhidas Tomo I”, Capitulo Primeiro de A Ideologia Alemã, Lisboa, Edições Avante, página 33.

[27] Marx e Engels, obra citada, página 50.

[28] Marx e Engels, obra citada, página 53.

[29] Marx e Engels, obra citada, página 54.

[30] Marx e Engels, obra citada, página 58.

[31]Engels, “Obras Escolhidas Tomo I, Princípios Básicos do Comunismo, Lisboa, Edições Avante, 1982, página 77.

[32]Engels, obra citada, página 78.

[33]Engels, obra citada, página 81.

[34]Engels, obra citada, página 81.

[35]Engels, obra citada, página 82.

[36]Engels, obra citada, página 83.

[37] Mas, quem dirige, quem carrega no botão? Não são todos ao mesmo tempo. A diversidade de funções cria classes de profissionais.

[38] Marx e Engels, “Marx Engels Obras Escolhidas Tomo I”, Capítulo Primeiro de A Ideologia Alemã, Lisboa, Edições Avante, 1982, página 8.

[39] Marx e Engels, obra citada, página 17.

[40] Marx e Engels, obra citada, página 8.

[41] Marx e Engels, obra citada, página 8.

[42] Marx, “Marx Engels Obras Escolhidas Tomo I”, Teses Sobre Feuerbach, Lisboa, Edições Avante, 1982, página 2.

[43] Marx e Engels, “Marx Engels Obras Escolhidas Tomo I”, Capítulo Primeiro de A Ideologia Alemã, Lisboa, Edições Avante, 1982, página 16.

[44] O resultado da técnica revelou-se não como a superação das necessidades mas o seu desenvolvimento em prol do fabrico de produtos manufaturados em grande escala engrandecendo a economia de consumo.

[45]Engels, “Marx Engels Obras Escolhidas Tomo I, Princípios Básicos do Comunismo, Lisboa, Edições Avante, 1982, Página 80.

[46] As grandes cidades e as vias de comunicação como condição do comunismo, só elas permitiram a revolução global.

[47] Marx e Engels, “Marx Engels Obras escolhidas Tomo I”, Capítulo Primeiro de A Ideologia Alemã, Lisboa, Edições Avante, 1982, página 59.

[48]Engels, “Marx Engels Obras Escolhidas Tomo I”, Princípios Básicos do Comunismo, Lisboa, Edições Avante, 1982, Página 83.

[49]Engels, obra citada, Página 83.

[50] Na minha perspetiva de um marxismo mais justo, a apropriação poderia dar-se apenas ao nível dos meios de produção. Ao nível da força de trabalho e da posse comum das técnicas (as técnicas não são dominadas por todos, há a classe de técnicos) não, é inviável neste mundo. Aqui falha o marxismo, quanto aos meios de produção poderia haver posse comum, quanto aos técnicos é muito difícil, pois não nos podemos apropriar da vida das pessoas. Grande passo em falso, para além da ausência da propriedade privada e do incentivo à revolução violenta.

[51] Marx e Engels, “Marx Engels Obras Escolhidas Tomo I”, Manifesto do Partido Comunista, Lisboa, Edições Avante, 1982, página 118.

[52] Marx e Engels, Obra Citada, página 119.

[53] Marx e Engels, “Marx Engels Obras escolhidas Tomo I, Capítulo Primeiro de A Ideologia Alemã, Lisboa, Edições Avante, 1982, página 70.

[54] Marx e Engels, obra citada, página 70.

[55] Engels, “Marx Engels Obras Escolhidas Tomo I”, Princípios Básicos do Comunismo, Lisboa, Edições Avante, 1982, Página 84.

[56] Engels, obra citada, Página 84.

[57] Marx e Engels, “Marx Engels Obras Escolhidas Tomo I”, Capítulo Primeiro de A Ideologia Alemã, Lisboa, Edições Avante, 1982, página 28.

[58] Marx e Engels, obra citada, página 15.

[59] Marx e Engels, obra citada, página 26.

[60] Engels, “Marx Engels Obras Escolhidas Tomo I”, Princípios Básicos do Comunismo, Lisboa, Edições Avante, 1982, página 84.