domingo, 29 de dezembro de 2024


 




Nº 7 

Boécio de Dácia / Pseudo-Dionísio o Areopagita

Revista não oficial de Filosofia, Poesia e Religião




Revista Opúsculos

“Opúsculos sobre o Fim de Um Mundo”, revista não oficial de poesia, filosofia e religião, lançada em 2007 com a divisa, “esta é a minha verdade conta-me a tua” (desde o número 11 referenciada como “Boletim de Ideias Filosóficas”).

Ilustrada com quadros dos mestres, quadros de novos artistas, promessas desconhecidas, serigrafias, poesias, breves e profundas orações (só nos primeiros números consegui colocar as ilustrações).

Nos primeiros números, pequenos contos, textos, explorando ideias da filosofia. Outros números, foram trabalhos para determinada cadeira e que acho que tem validade como tijolo na construção e sistematização de uma tese geral.

Revista feita por alunos e estudantes de filosofia, nas suas páginas, os textos preliminares dos pretendentes na descoberta e edificação de um pensar próprio, revista dos audazes aprendizes na disciplina de arquitetura da mente.

A revista não quer ser algo pomposo, nem se quer afirmar como detentora de qualquer verdade. Sustem-se na ideia aristotélica de arte na "Poética" aplicada à filosofia (acho que uma certa maneira foi o que Kant fez da filosofia, após o esclarecimento (na "Crítica da Razão Pura”), do que era ciência e de que a filosofia não o podia ser).



Boécio de Dácia

Os problemas da metodologia e do domínio que compete a cada ramo do saber têm estado presentes desde há muitos séculos na mente humana.  Neste sentido, no século XIII, Boécio de Dácia no texto A Eternidade do Mundo, procurou demarcar as competências estritas da chamada filosofia natural, face a uma outra filosofia que utilizava ilegitimamente a argumentação lógica para sustentar os dogmas da fé cristã.  Esta separação entre o que pode e o que não pode ser racionalmente sustentado, mostrou como a teologia se servia abusivamente da filosofia e da fé.  A teologia sustentava assim o seu poder e afirmava que só ela tinha a verdade.  Mostrando como os argumentos racionais não se adequam na resolução de problemas como -  se o mundo é eterno ou foi criado – Boécio de Dácia distingue assim dois domínios sobre a verdade do mundo, o domínio relativo e o absoluto.  Daqui se reafirma a emergência da separação entre fé e filosofia natural, e, se bem que subentendida, a desclassificação da teologia como o saber por excelência.

            A marca que distingue a filosofia é a utilização da argumentação racional, mas esta argumentação racional utilizada de forma abusiva como demonstração para sustentar as verdades da fé é entendida por este autor como loucura.[1]  A metodologia utilizada pela teologia não se adequava ao seu objeto, os dogmas revelados são verdades da fé, não necessitam de demonstração, e assim sendo, a teologia não tem razão de ser.  A teologia extrapolou o domínio do puro acreditar, o domínio onde não faz sentido a utilização do diálogo lógico discursivo, pois em termos lógicos, neste domino, tanto se pode argumentar contra como a favor, ficando a razão na posição das antinomias kantianas.  Cinco séculos depois, Kant, grande sistematizador, vai falar dos problemas do começo do mundo e do primeiro princípio reafirmando a sua irresolução em termos racionais.  Nas famosas antinomias da razão pura, Kant mostra como em relação a estes problemas a razão se torna contraditória consigo própria, parecendo-lhe que tanto os argumentos a favor como os contra têm validade.  Assim Kant afirma a não competência da razão para resolver problemas que estão para lá do fenómeno.  É neste sentido que vai o texto de Boécio de Dácia, a teologia, como a razão de Kant faz um uso ilegítimo da argumentação racional para fundamentar aquilo que não pode ser fundamentado racionalmente, pois a argumentação racional só deve ser aplicada às coisas do mundo físico.  Só dentro do universo da física, só no domínio natural há legitimidade nas demonstrações da filosofia natural.  No mundo natural, mundo onde é legitimo o uso da demonstração racional, esta legitimidade advém do facto de “...os argumentos por meio dos quais se discute derivam das coisas; se fosse de outro modo, seriam, de facto, ficções do intelecto.”[2] 

Boécio da Dácia pretende retirar a teologia do topo da pirâmide do saber humano, libertar e afirmar a filosofia natural como saber autónomo que não necessita do aval da teologia para afirmar a sua validade como disciplina científica.  Desqualificando a teologia com a afirmação que cabe ao filosofo a determinação das questões que podem ou não ser discutidas racionalmente, Boécio vai mais longe e afirma também o domínio da fé como algo que não necessita de demonstração.    Boécio emancipa a partir dai dois domínios, a fé e a filosofia natural, perdendo a teologia assim a razão de existência pois os dois domínios que ela pretendia abarcar são distintos e de ora avante autónomos.

            É necessário fazer aqui um aparte para referir que a filosofia natural continha a ciência, nesse tempo filosofia e ciência ainda estavam ligadas, e quando esta afirmação da autonomia da filosofia se dá, dá-se em termos de um saber científico que se cinge aos factos.  Dai a circunscrição do seu objeto ao mundo da natureza, ao mundo da física.  Mais tarde, com a separação entre ciência e filosofia, entre o que pode ser conhecido e o que pode ser pensado, Kant vai abrir a possibilidade da metafísica, já sem pretensões ao conhecimento, mas com um lugar no campo de pensamento.  O homem não pode conhecer as realidades que estão para lá dos fenómenos, mas pode pensar nelas.

 

A possibilidade da ciência, independentemente da teologia estava baseada em argumentos que podem ser investigados.  É neste sentido que a filosofia natural se afirmou no século XIII como disciplina autónoma sem pôr em causa os dogmas da fé.  Mas para que isso fosse possível teve de pôr em causa a teologia.  As verdades da fé como a possibilidade da criação, a existência de uma causa que não foi efeito de uma outra causa, a ressurreição no dia do juízo final, pertencem a um domínio superior, podendo serem entendidas como verdades absolutas perante as quais as verdades da razão são apenas relativas.  Boécio afirma que é “...necessário colocar algum primeiro movimento no mundo...”[3], pois há problemas para os quais a filosofia natural não pode dar resposta.  Há verdades da fé que ultrapassam o campo dos fenómenos naturais, verdades como a criação do mundo, e desta maneira fogem às competências do filosofo natural.  Este, no limite da racionalidade, encontrará sempre uma causa anterior a qualquer causa que lhe pudesse parecer estar na origem de todas as outras; será sempre levado a pensar numa geração e não numa criação do mundo, pois é racionalmente inconcebível que o mundo tenha sido criado a partir do nada.  Assim, Boécio afirma que a verdade da fé que diz que Deus criou o mundo está fora do campo de aplicação dos princípios da filosofia natural.  O filosofo natural não deve negar as verdades de outras disciplinas que não contradizem os seus princípios nem destruam a sua ciência.  No entanto, certas verdades da fé como a ressurreição de um morto contradizem a ciência e os princípios da filosofia natural.  Assim o filosofo natural, a partir dos princípios da sua ciência tem de negar certas verdades da fé, mas esta negação não é uma negação em absoluto.  Em sentido absoluto a negação das verdades da fé pelo filosofo natural é falsa, em sentido relativo é verdadeira.  Isto é possível porque “Tudo aquilo que o filosofo natural negar ou admitir, na qualidade de filosofo natural, é negado ou admitido a partir de causas e princípios naturais.” , e as verdades da fé são possíveis “...graças a uma causa cuja força é maior do que a de uma causa natural.” [4]  Há assim duas verdades, uma relativa à ordem natural, onde a racionalidade pode ser utilizada como instrumento de validação dos conhecimentos e relações (as leis) do mundo físico, verdades estas que virão mais tarde a formar a ciência; e as verdades absolutas, consideradas a partir de uma causa superior à natureza, que continuarão a constituir os dogmas de fé.  Embora aparentemente as verdades da fé e as da razão sejam contrarias, com a colocação da sua validade em níveis distintos Boécio consegue um lugar para a filosofia natural sem por em causa o dogma cristão. 

            O que é que podemos tirar desse movimento de emancipação no século XIII para os nossos dias ?  naquele tempo, ciência e filosofia, ainda unidas entre si, procuravam a libertação de um jugo que condicionava as suas investigações e conclusões.  Foi necessária audácia para que a fé e a filosofia reclamassem as roupas com que se engalanava a teologia.  Assim, com a revelação num lado e a argumentação racional noutro puderam os homens ver que o rei ia nu.   Desde o início da filosofia que esta tem dado à luz as disciplinas do saber humano.  Na seu tender para o saber, a filosofia, que se situa na linha da frente do combate contra o desconhecido, estabelece, organiza e emancipa metodologias especificas para objetos específicos.  Quando uma das disciplinas se quer afirmar como detentora de toda a verdade em relação a todos os objetos tem de haver uma reação.  Naquele tempo era a teologia que tinha pretensões a usurpar todo o edifício do saber humano.  O que está em causa neste texto é o lugar específico das disciplinas do saber humano, lugar especifico que terá a ver com o método e o objeto de cada disciplina.  É necessário separar domínios, circunscrever os diversos níveis, para que, em cada um deles haja uma abordagem adequada.  Quando uma das disciplinas quer monopolizar a verdade, quando quer ser ela a marcar os limites, as investigações e as soluções de cada ramo do saber humano, é necessário que surja alguém que ponha ordem nas pretensões absolutas dessa disciplina, e isto foi o que Boécio da Dácia fez.  Atualmente, a ciência pretende ser o saber por excelência, e o que não é científico não será saber.  Tenho dúvidas se não haverá saber além do científico, assim, hoje como ontem (à oito séculos atrás) este texto continua a ter todo o sentido, pois o que está aqui em questão é a tendência para certos domínios saírem dos seus campos restritos e ditarem aos outros o tom pelo qual todos tem de estar afinados.  O que nos diz Boécio é que as afinações são diferentes consoante o objeto que se está a tratar, cada disciplina rege-se pelos seus princípios e há limites para além dos quais não se pode extrapolar.  Não há razão para que uma disciplina na sua soberba queira servir de diapasão a campos diversos do saber.  É necessária uma disciplina coordenadora dos saberes, e não uma disciplina que tiranize o saber, impondo-se arrogantemente.  O saber não é algo que só pode ser abordado de uma só maneira, mas um edifício onde cada andar e cada apartamento adquire a sua coerência interna.  A legitimidade advém da correta aplicação de princípios e metodologias a o objetos específicos.


BIBLIOGRAFIA:

Boécio da Dácia, A Eternidade do Mundo, Lisboa, Edições Colibri, 1996.



[1] Boécio de Dácia, A Eternidade do Mundo, Lisboa, Edições Colibri, 1996, página 33.[2] Boécio da Dácia, obra citada, página 51.

[3] Boécio da Dácia, obra citada, página 53.

[4] Boécio da Dácia, obra citada, página 59.

 

 

Pseudo-Dionísio o Areopagita

«O restabelecimento das ciências e das artes terá contribuído para purificar ou para corromper os costumes?  Aqui esta o que vamos examinar.  Que partido devo tomar nesta questão? Aquele, meus senhores, que convém a um homem honesto e que nada sabe, e que não se julga menos por isso.»

                                                        Rousseau, Discurso sobre as Artes e as Ciências

 

Um homem que nada sabe, despojado de toda a tentativa de encerrar em abstrações o que as coisas realmente são.  A nossa perceção integrada está mais perto da verdade das coisas que uma certa visão racional abstrata.  Uma certa nossa perceção mística (Pseudo-Dionísio), humilde (Eckhart), sem véus (franciscana), sincera (Rousseau), assumida (Nietzsche).  É de novo Heraclito, não tomar a parte pelo todo, saber o valor relativo de todas as coisas em si. Saber o valor da relação entre as coisas, achando nele o sentido para a diversidade.

Eckhart ajudou a forjar o novo mito, (“Igualmente, é preciso que também o homem se não distinga de todas as coisas, isto é, que ele não seja nada em si mesmo e que a si próprio se tenha abandonado, porque é assim que ele se não distingue de todas as coisas e é todas as coisas.  Porque só na medida em que nada és em ti mesmo, é que és todas as coisas e te não distingues delas.”[2] ), a semente que iria estar na base do sobre humano de Nietzsche, (“O homem só existe para ser superado.” “O homem é uma corda estendida entre o animal e o sobre humano – uma corda estendida por cima do abismo.”[3])  O ser que se assume, o ser que não se esconde no laboratório racional, que o utiliza como instrumento necessário; o homem que não se fica pelo que está e procura ir mais além. 

Uma frente de ataque tem também o meio do terreno.  Muitas vezes uma equipa tenta a mística não integrada, tenta avançar só pelo meio, (como o fizeram todas as religiões primitivas, as quais não puderam levar a ciência e a filosofia em conta), mas as dificuldades agregadas, ainda não trabalhadas, fazem desse esforço místico uma luta quase vã.              Só quando as forças são combinadas, só quando uma frente de ataque consegue coordenar os seus meios, fazer com que todos os seus esforços e todas as suas energias sejam bem direcionadas é que se atinge a tal visão do logos de Heraclito, (...tudo é um...”), e para que se possa perceber o que é esse um ele tem de ser percecionado fora da medida subjetiva, tanto em termos de sujeito como em termos de sensores de captação.  Quem ataca só com um braço está condenado ao fracasso, quem se fica só por uma perspetiva não acerta, ou acerta parcialmente e por acaso.  Rejeitar os sentidos é estar enganado, a resposta é integrar os sentidos.  Mas onde ?  Integra-los para serem geridos por uma razão que também não está integrada, isso é entregar o lado esquerdo ao lado direito.  A centro gerirá a frente de ataque, a mística integrada, que se apoia na ciência e na filosofia.  Saber abrir as dificuldades pela esquerda e pela direita, por uns sentidos apurados e por um pensamento preciso. 

A palavra é apenas um veículo, uma realidade paralela desenvolvida pelo homem para que se possam trocar reflexões sobre o que é.  As reflexões conceptuais são trabalho de laboratório, são manipulação e campo de ensaio.  As coisas estão para lá da linguagem, o númeno de Kant ultrapassa as nossas conjeturas.  Tudo se conjuga para que..., para quê ?  Para um presente que integra toda a memória (Agostinho), sendo esta identificada com a alma, para um presente que chama a si toda a alma e toda a história, tempo psicológico que trespassa o decorrer normal do tempo cronológico ?   “ No principio era o verbo..”[4], principio intemporal, tornado presente pela memória, a Acão que pressupõe movimento, alteração, de um determinado logos que se amplia e se renova, se mostra e se esconde. 

Queremos ver, queremos saber a verdade, já nem sabemos o que é isso, olhamos para nós como indivíduos, milhões e milhões de fins em si, cada um a tocar em desalinho.  Perguntamos se haverá algum sentido, se haverá algum caminho nesta diversidade de caminhos.  Continua a fazer todo o sentido o estado de plenitude, o estar com a divindade, o adjetivo teos, a necessidade da procura de um certo estado, onde os vetores funcionam coordenados, integrados, dando azo a que estejamos mais próximo do que realmente somos.  No mundo da queda dos referenciais, onde cada um com a sua resposta fomenta um reino da diversidade absurdo, sem sentido e sem unidade, que nos deixa a todos no vazio da nossa pequenez.  O mundo está dentro de nós, “...a profundidade da nossa alma é insondável”, e lá está o D.N.A, talvez a caixa de pandora como diz Sagan, mas também a chave para homens emancipados poderem, não manipular a realidade à vontade e tirar a sua vantagem, mas sim dar mais uns passos na compreensão e no incremento do que é.  

A resposta do nada, num deserto sem palavras, onde somos obrigados a interpretar de novo os sinais dos tempos, onde somos obrigados a inventar palavras para falar de coisas que parecem novas mas que são intemporais, e nos aparecem hoje numa fase de desenvolvimento diferente da que foi dada a percecionar aos pensadores do passado.  Somos obrigados a cair mais uma vez em terreno virgem, e um novo universo metafísico se abre perante os nossos olhos com a força da necessidade marcada pelos três níveis físicos do real, (a física de Newton, a teoria da relatividade e a física quântica).  Este novo universo metafísico diz-nos o que já ouvimos tantas vezes, o Ser está em desenvolvimento, o universo é como um puzzle que ainda não está acabado.  O mundo do Criador tem erro e imperfeição porque ainda nos estamos a dirigir, não sabemos quem somos porque ainda nos estamos a fazer.  Dai o indefinido, dai as respostas que acho mais geniais ao longo da historia do pensamento, o apeiron, a metáfora do fogo que tudo dirige em Heraclito ( se acende e se apaga por medida)  ,  a ideia do Bem em Platão.  Tudo o que tivemos de passar, tantas vezes a alma morreu sem desaparecer, tanto sofrimento ao longo da história para podermos compreender, sempre com a intuição de que se o fizermos conhecemo-nos melhor, conhecemos melhor o mundo e disso resultará que viveremos melhor.  Válidas são todas as tentativas na procura de um mundo melhor, mas não bastam só as intenções.  Quantos caminhos se calaram perante becos em saída, quantas vidas passaram em vão ?  Hoje continuamos na senda da compreensão, da integração, da relação, do sentido. 

     Querer o nada e não o não Ser, mais vale querer o nada que nada querer..., querer o nada no sentido de Eckhart, onde o nada é não quero isso, há algo mais que ainda está longe das vossas conjeturas, por isso me dispo delas, para poder estar disponível para outras “intuições”, portas abertas para outras conjeturas e outros empreendimentos, que se forem levados na tentativa de superar o que temos no presente, estarão no caminho certo para que amanha saibamos mais que ontem e hoje.  O mundo não é uma fotografia, um filme, uma conjetura, o mundo é mais que tudo isso, como captar a sua plenitude ?  O homem tem sentidos e razão, é necessário ir além disso, e se para tal for necessário ir além do homem dos doutos, que se vá além do homem, do singular, se integre o singular no todo e se sinta o todo como um.  É necessário ser mais que as definições estritas que fecham o deserto, que abafam o abismo e o encerram em momentos estáticos, parciais e redutores.  Não, o mundo não se encerra, não é apenas estático, tem dinamismo, dirige-se na procura de algo, como aquele puzzle que se constrói à custa do suor humano, o fogo de Heraclito que se acende e se apaga por medida.   A razão mas não a vossa razão amputada, definida, circunscrita; o logos mas não o vosso logos unitário.  O logos binário, das realidades estáticas, das leis da natureza, do sim e do não, mas também o logos ternário, das realidades dinâmicas, da dialética, num mundo que corre para além da nossa compreensão.  Além da razão diacrónica, além da conjetura contextual, a razão para além de, a razão integrada na fusão com todas as coisas, a operar num todo de superação, de desenvolvimento de potencialidades, como a semente que fecundou o útero universal e deu origem ao mundo.           

A explicação é inócua quando não é instrumento para o caminho.  As coisas em si não tem sentido, a resposta velha de Heraclito, transfigurada, viva de novo, nova palavra, a plenitude é a união com o mundo, a funcionalidade dos meios, o avanço do fogo sem fim, do logos dinâmico, que nos dirige, que nos impõe o determinismo.  O fogo que nos trouxe na sua linha, que se vem fazendo em nós e em todas as coisas, deixando-nos ainda “a liberdade de escolher o autocarro”.  Os caminhos dos mundo estão traçados, as carreiras estão definidas.  Quando escolhemos quem somos escolhemos um determinado caminho.  Temos uma certa liberdade quando podemos escolher o caminho, mas depois de entrarmos no “autocarro”, ai surge o fogo com toda a força do seu determinismo, acende-se e apaga-se na medida das suas necessidades.  Todas as conjeturas são aproximações, o sentido do mundo está no fundo da nossa alma, abrindo a tampa dos nossos referenciais estamos mais próximos , mais perto da verdade, pois a mística diz-me que não sou só aquilo.  Vazio de visões dogmáticas estou disponível para a alteridade, será vão pensar que já sei, é valido saber que ainda não estou lá, por isso a abertura para o que me transcende.  A humildade é a força que nos lança para oceanos desconhecidos.  Só com a humildade, só despido, só preparado para falar de outra maneira posso expandir a capacidade de captar o sentido do mundo.



[1] Rousseau, Discurso sobre as Artes e as Ciências, Textos Marginais, 1972, página 15.

[2] M. S. Carvalho, Síntese Frágil, Edições Colibri, Sermão (77) de Mestre Eckhart, página 252

[3] Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, Editorial Presença, 1974, Páginas 12 a 14.

[4] Bíblia Sagrada, S. João 1:1.


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