domingo, 29 de dezembro de 2024

 




Nº 6 - Heraclito

Processo da Liberdade

         Revista não oficial de Filosofia, Poesia e Religião





Revista Opúsculos

“Opúsculos sobre o Fim de Um Mundo”, revista não oficial de poesia, filosofia e religião, lançada em 2007 com a divisa, “esta é a minha verdade conta-me a tua” (desde o número 11 referenciada como “Boletim de Ideias Filosóficas”).

Ilustrada com quadros dos mestres, quadros de novos artistas, promessas desconhecidas, serigrafias, poesias, breves e profundas orações (só nos primeiros números consegui colocar as ilustrações).

Nos primeiros números, pequenos contos, textos, explorando ideias da filosofia. Outros números, foram trabalhos para determinada cadeira e que acho que tem validade como tijolo na construção e sistematização de uma tese geral.

Revista feita por alunos e estudantes de filosofia, nas suas páginas, os textos preliminares dos pretendentes na descoberta e edificação de um pensar próprio, revista dos audazes aprendizes na disciplina de arquitetura da mente.

A revista não quer ser algo pomposo, nem se quer afirmar como detentora de qualquer verdade. Sustem-se na ideia aristotélica de arte na "Poética" aplicada à filosofia (acho que uma certa maneira foi o que Kant fez da filosofia, após o esclarecimento (na "Crítica da Razão Pura”), do que era ciência e de que a filosofia não o podia ser).


PROCESSO DA LIBERDADE EM TRÊS PARTES

(2003)


PRIMEIRA PARTE

 Ao logos, à trimúrti, ao DNA, ....

 

Certos pensadores ao longo da história tem-nos sugerido metáforas representativas sobre os princípios últimos da realidade. A meu ver, estas tem sido as sugestões que menos se afastam da verdade.  Anaximandro com o seu apeiron sugeriu-nos que, se recuar-mos nas causas até ao infinito, encontramos sempre um ponto onde reconhece-mos que estamos na escuridão total.  Ali, podemos supor algo de definido na origem da ordem, podemos supor que foi um engenheiro, ou um arquiteto, ou a água, ou seja o que for.  Em vez disso, partindo do principio que não sabemos o que é, podemos utilizar uma palavra de forma representativa.  Algo esteve na origem, se há uma ordem, ela não é obra do acaso.  Mas dizer o que é esse algo supera a capacidade humana. O que fazer, calarmo-nos e ignorar algo que está ali, ou tentar dize-lo por aproximação, reconhecendo sempre que cada momento é apenas uma tentativa ? 

Posteriormente, Heraclito pensou que, há um mundo que muda constantemente, há algo que gere a mudança por compensações e há algo em nós que permite compreender como são feitas essas compensações.  Há um logos que está em todas as coisas, que é a sua estrutura, que instituiu a ordem.  Essa ordem tem em vista um fim, pois as coisas não mudam desordenadamente.  Essa ordem mantém um fogo vivo:

          Que se acende e se apaga por medida

Esse fogo consome todas as coisas com o objetivo de (...).

Podemos ver três níveis no logos, um deles é estático (binário), o outro é dinâmico(dialético), o outro é transcendente. O fogo representa a realidade dinâmica do logos, é sentido ultimo e momento presente, gere todas as coisas, leva-as ao seu fim, ao fim das coisas, num movimento sem fim.  A estrutura estática é a base inteligível do cosmos (as leis da natureza e a estrutura ordenada do mundo), mas para além dela há a estrutura dinâmica do logos, a base inteligente.  Esta estrutura dinâmica, este fogo, é a grande incógnita.  Quem é, de onde vem, para onde vai.  Enquanto a estrutura estática está ali, é circular, podemos perscrutá-la sabendo que mais cedo ou mais tarde acabaremos por lhe decifrar o código, representa-la e dominar-lhe as relações; a ordem da estrutura dinâmica permanece insondável. Há uma compensação entre os pares conceptuais, para que um não subjugue o outro, para que não o anule, pois o uno vive de todas as coisas.  A dualidade torna-se um, mas não é um sobre o outro, é um ao lado do outro, dando origem a um terceiro, que não é nenhum dos dois originais.  Assim o fogo vive de todos nós, a sua unidade não se faz à custa de anulações mas de compensações.

No fragmento 76 Heraclito apresenta-nos um circuito integrando todas as coisas, compensando-as. Neste fragmento, as forças de um fogo que tudo arrasta ainda são referidas por elementos naturais. Depois, Heraclito dá o grande salto para a abstração.  Existem as outras coisas, mas o que existe realmente é o fogo, e esse, ..., perante esse, ..., Heraclito cala-se.[1] Por isso a metáfora, ente representativo de algo que está para além da compreensão de uma razão circunscrita a determinada definição redutora. 

No fragmento 76 há uma representação do esquema dos quatro elementos. É nos apresentada uma sequência que vai para trás e para a frente, sendo que, o que o autor me disse ali é que há um movimento de transformação incessante.[2]

            Há uma tensão permanente entre todas as coisas que compõem o mundo. De uma perspetiva só existe o uno, só o uno realmente é, de outra, só as coisas existem, e se estas não existissem não havia o uno. Está lançada a dicotomia que vai marcar o pensamento.[3]  O pensamento a separar-se das coisas foi um momento na filosofia clássica, mas a mensagem do filosofo trespassou a história, está viva, diz-me coisas hoje, abre-me pistas. 

No fragmento 76, quando Heraclito refere a transformação incessante dos elementos naturais, esta apenas a falar-nos por imagens de uma transformação mais profunda que se dá ao nível do logos vivo.  O mundo é um processo, os esquemas avançam para a frente e para atras, os avanços de uns são os retrocessos de outros, no entanto há algo que regula o processo e promove as compensações.  Há uma tensão permanente, mas também há um órgão regulador.  Esse órgão mantém o organismo num equilíbrio que lhe permite seguir uma rota.  Há um processo, há um caminhar, há uma direção, e, embora ela tenha escapado a Heraclito, nós hoje, olhando para o passado, podemos ver muitas linhas, mas vendo-as de fora, percebemos que afinal eram dois ou três os segmentos fundamentais, e mesmo esses dois três se podem uni focar.  Há uma linha ao longo da história, uma linha que contém todas as outras linhas.  Muitos poderão querer objetar, perguntando se a realidade são as linhas ou é a Linha, acho que em Heraclito a pergunta não faz sentido, não se pode fazer a distinção entre dois homens vivos perguntando qual deles é que está morto.  Existe a pluralidade de seres, mas também existe a unidade do processo, ambos constituem o que é, e um não seria sem o outro.  O fogo não seria o mesmo sem a oposição, as tensões não existiriam se não existissem os contrários, o fogo não seria fogo sem as tensões.  A multiplicidade sem o uno não tem sentido, mas o uno sem a multiplicidade apaga-se por medida.[4] 

Os homens não sabem escutar o logos, pensam-se separados uns dos outros, separados das outras coisas.  Temos vivido vidas assumindo posições que provocam as tensões perante as quais o fogo se tem movimentado. A metafísica em Heraclito começa com o fogo.  Na sua metáfora, ele representa aquilo que nos ultrapassa, mas que nos fala  do mais intimo de nós.   

           

 SEGUNDA PARTE

 

- O fogo acende-se e apaga-se por medida –

 

Há um fogo que consome todas as coisas, que vai produzindo e alimentando os seres físicos, que os trás a si, os transforma em fogo.  Do fogo, fusão da experiência imediata, do input e do output momentâneos, no que vêm e no que vai, entregamo-nos ao sacrifício como uma tocha se transforma dentro de uma gruta escura, em fogo.  Quem é esse fogo que me ultrapassa, quem é esse ser que se alimenta de nós, quem é ele, que já cá estava quando cheguei, que continuará a estar depois deste ser físico?  Que ordem é a dele, em que mundo nos lançou, que homens são estes e que relações são estas entre os diversos organismos da terra ? 

Temos percebido as suas relações binárias, temos vindo sabendo escutar.  O esquema das realidades cíclicas está avançando, as leis da natureza, às quais chamo logos estático, estão a ser entendidas num movimento sem retorno.  No entanto há um outro logos, ao qual chamo dinâmico, que é esse fogo, que se alimenta de todas as coisas.  Há ainda um terceiro logos que é o logos que está em Deus, o logos transcendente.  Quanto ao logos estático, há ainda ciclos que não dominamos, há relações que nos escapam, há leis que ainda não conseguimos formular, mas, a estrutura estática da realidade será inevitavelmente conhecida. Assim se faz a ciência, e para ela, o conhecimento de toda a estrutura binária é uma questão de tempo. 

            As coisas complicam-se quando surge a tríade, pois ai não se fala de realidades estáticas, de ciclos fechados, ai surge o dinamismo para a liberdade. Para onde vai o mundo, para onde vai essa inteligência viva que governa todas as coisas ? Heraclito respondeu – liberdade – não me vou comprometer, há processos cíclicos e esses vão sempre dar ao principio, mas há o processo do fogo, que vai de encontro à liberdade.

            Quando nos libertamos da perspetiva parcial, e nos integramos na experiência da vida, sentimos que nós somos apenas uma gota de agua numa imensa onda.  Podermo-nos sentir nela é a experiência de uma vida.  O fogo faz todas as compensações, necessita dos homens que dormem, quer-nos vivos, necessita do mundo natural, necessita de estrelas e galáxias.  O fogo ultrapassa-nos, mas faz-nos pensar, não é uma onda, a onda é o engano dos que dormem.  A realidade não se repete incessantemente, os que pensam assim não escutaram o logos.  É impossível tomar duas vezes banho nas mesmas aguas, as margens mantém-se, (o logos estático), as leis da natureza são algo que é estrutura da realidade, mas o rio, (a vida, o fogo), passa.  O fogo é como um rio que corre sem fim, mas a metáfora do fogo ultrapassa o rio, por isso o rio foi apenas uma imagem, pois o rio ainda está circunscrito a um fim.  O mundo também é um rio definido, mas é mais que isso, uma das partes do mundo é essa realidade cíclica, uma outra a realidade dinâmica que só se pode representada pelo fogo.

            O rio tem um momento de liberdade, que é escolher o caminho enquanto se está a fazer, depois fica sempre condicionado ao caminho escolhido.  O verdadeiro rio passa uma vez, depois o ciclo está instituído.  É maravilhoso ver como a natureza criou os seus ciclos.  Um forte caudal de agua desceu um dia de uma montanha e nasceu um rio.  O fogo é um rio que se está sempre a fazer.  É um rio sem margens, (ou as margens deste rio transcendem-me) que corre com a liberdade suprema, sem fim, que se acende e extingue na medida das suas necessidades.  O logos é ordem de segurar a base estática, estrutural, mas é também ordem para o dinamismo.  Não bastam as leis, tem de existir os seres.  Não basta o dever, tem de existir o prazer, compensam-se, mas um sem o outro não faria sentido.  Não basta as coisas estarem encerradas, tem de existir a abertura.  Os seres interagem com as leis.  Há leis rígidas, há leis flexíveis, há leis que vão mudando, há valores fundamentais, ( preservação -  criação/destruição )  mas também um há um valor que ultrapassa a experiência dos sentidos, que ultrapassa a própria realidade imediata, que ultrapassa o pensamento.  Esse valor é o logos fogo, o cosmos que nos “fala” em direto. 

           

As leis, os seres, a interação, o perscrutar, qual a direção ?

 

O que me interessa investigar ? Qual o sentido da vida. Heraclito diz que estamos determinados, o fogo tem vontade própria.  Dirige-nos, dirige tudo, leva os homens quer eles queiram quer não.  Tem o seu caminho a percorrer, e leva-nos pela mão como crianças pequenas.  Por isso diz Heraclito que o fogo brinca como as crianças, mostra-nos a onda e todos os inocentes se entregam no jogo.  Isso ocupa a grande maioria dos homens, as suas mentes brincam com os ciclos, vai de mim e vêm para mim, vai de fogo e a fogo retorna.  Os inocentes brincam com os ciclos, veem as coisas pela perspetiva parcial, não se superam e abrem os olhos perante o que é.  O mundo é um horizonte de liberdade. 

O fogo, para além da realidade estática, é o logos em movimento.  Convida o humano a perceber, a agir com o fogo, a tornar-se um com ele.  O humano torna-se fogo, abandona a onda, o rio, abandona todos os campos de treino e lança-se no abismo do futuro sem fim.  O futuro é o que o fogo quiser.  O fogo leva-nos, somos determinados por ele, há um caminho que se está a percorrer.  O fogo tem imensas faces, tem todas as nossas faces, mas tem um certo rosto escondido, perdido num poço sem fundo, que é a imperscrutabilidade da nossa alma.  A face que não é face é a face de todas as faces, é a face que utiliza caras para se ir transformando.    

A estrutura estática não se transforma, mas a estrutura dinâmica está à procura de algo.  Tem se vindo a construir de determinada maneira no seu movimento incessante para a liberdade.  Caminhamos para a liberdade, não somos livres.  Se não nos emanciparmos para além das realidades circulares, se ficarmos presos a visões parciais, não somos livres, dormimos, andamos às voltas num sonho que vai para lado nenhum.  Somos prisioneiros, estamos acorrentados, com a cabeça sempre voltada para o mesmo sitio.  O fogo ainda se dirige a si próprio, ainda há um sentido que nos ultrapassa.  Por isso não submetemos o fogo, submete-nos ele a nós.  Nós vamos para onde o processo nos leva.  Ainda somos menores, ainda brincamos nos rios e nas ondas, ainda não olhamos realmente para o fogo.  A liberdade ainda nos assusta, por isso ainda nos sentimos mais à vontade nos círculos do que nas espirais.  Vai de um sitio e vai dar ao mesmo, é a prova da nossa profunda insegurança perante o cosmos.  O cosmos é um fogo sem fim.  No entanto, a nós humanos, marca-nos o passo, dá-nos um fim, por isso o ser humano é um ser que ainda vive na era do circulo, ainda brinca como uma criança num pátio junto a casa, o muro ainda é demasiado alto para que os dados exteriores nos cheguem. O ser humano ainda não pode pegar no seu destino e ir para onde quiser, libertando-se de qualquer impedimento.  Isso é a liberdade, e para isso ainda somos menores.  Ficamos com os nossos círculos, as nossas brincadeiras nos tornaram aptos para superarmos esta etapa.  Sabemos que há um fogo, que se leva.  Sabemos que o sentido nos ultrapassa, mas que se manifesta dentro de nós.  A etapa é o domínio do código binário.  Dominar as dualidades não é dominar só os elementos, é dominar os elementos e as relações que se estabelecem entre eles.  Conhecer realmente o elemento é perceber as relações entre os pares, é compreender como se complementam as tensões, como é possível existirem  em tensão sem aniquilação.  A vida não são os seres, a vida é interação entre os seres.    

Como é constituindo o mundo?  Para onde vai o cosmos ?  Duas perguntas distintas feitas por Heraclito.  À primeira respondeu com o logos estático, há em nós uma estrutura, há estruturas, há uma estrutura permanente que sustem todas as coisas.  Perante a segunda questão cala-se, usa a metáfora, é um fogo...arde...um rio que corre sem margens, e tempera todas as coisas à sua medida.  Estamos determinados, estamos dentro de uma casa e vemos a liberdade pela janela.  O fogo é implacável, a sua vontade avassaladora.  Pensemo-lo como quisermos, o que é certo é que ele segue o seu caminho.  Então não há liberdade para o humano ?  Qual a liberdade do humano num mundo dirigido pelo fogo ?  O que Heraclito nos diz é que o logos é inteligência, que tem razões mais profundas que nos ultrapassam.        

 

TERCEIRA PARTE

 

“vive fogo a morte de terra, ar vive a morte de fogo, água vive a morte de ar, terra a de água.”

            Neste mundo o fogo dirige o processo, leva-nos para o fim desta etapa, para o esgotar do determinismo.

 

A liberdade não será absoluta ?  O poder é total, mas a liberdade não é total.  Há coisas que se podem fazer mas que não se fazem.  Nem tudo é liberdade, há uma lei que se impõe, tem de haver um equilíbrio entre os pares.  A liberdade tem uma lei, aqui está um paradoxo interessante.  Para que possamos tudo, temos de aprender a gerir o potencial.  Poder tudo é poder destruir.  Se não temos mão em nós, o nosso poder de destruição anda à solta. O cavalo negro não é para ser domado pela força, pois subjugado ele perde o seu ímpeto.  O cavalo negro tem de ser direcionado para "bons encontros". A destruição pela destruição não é válido.  Não é destruir para deitar abaixo, é deitar abaixo para criar o novo.  O cavalo negro, a força bruta, o bravo, o incansável, levado por um caminho positivo, será o grande.  O cavalo branco é constante, tem um estado regulado, mantém um nível permanente, manter-se.  O cocheiro e o cavalo negro, o criador e o destruidor, atuam em dicotomia.  Há algo que garante o equilíbrio, há um balanço, em que ora domina um, ora outro, mas o intento fundamental é irem interagindo os dois. 

A liberdade não é total, mas seremos livres em termos espácio temporais, e isso já é muito mais livre do que somos agora.  É isso que o logos nos propõe hoje, um novo acordo.  Não nos dá toda a liberdade, mas aumenta-a perante um novo compromisso assumido por nós.  Tomamos o mundo nas mãos e dirigimos o cosmos.  Tornamo-nos maduros, a emancipação perante o espaço e o tempo.  Crianças brincando com o espaço e o tempo é incompatível para o logos, as crianças brincam com ciclos, com realidades binárias.  Brincar com o espaço e o tempo é para seres emancipados de tutelas exteriores, indivíduos eticamente evoluídos.  Podemo-nos libertar de barreiras temporais e espaciais, mas para isso temos de aprender a gerir o mundo. 

Depois de dominar-mos o dois, então passamos a brincar com o três.  O fogo, o tempo, o espaço, são rios que se estão a fazer, não sabem se vão encontrar o mar.  Este mundo é um rio que depois de descer uma montanha, procura agora em campo aberto o caminho.  A realidade é feita de níveis.  Dentro de um determinado nível, o rio humano dirige-se para o novo acordo.  Num outro nível o mundo é um fogo que arde.  Terá um sentido este mundo, será o sentido do humano o sentido do mundo ?  Navegamos neste rio, procurando o destino, somos marinheiros no mar das descobertas em quatrocentos.  O logos propõe-nos um novo acordo. Nós damos maturidade ele dá-nos liberdade.  Qual será a escolha da espécie ?  Estamos perante um momento de cisão onde se separam os aptos à sobrevivência ?  O sistema rejeitar-nos-á se não estivermos à altura do que nos é pedido. Estamos novamente perante a exigência da maturidade ética?  Será ela a porta da liberdade ? O logos dá-nos a autonomia espácio-temporal se defendermos a natureza, a vida natural da terra.  Se cuidarmos dela, se não abusarmos dela, se a respeitarmos e soubermos tratar-lhe as feridas. Se soubermos preservar os seus equilíbrios precários, se conseguirmos sobreviver como espécie mantendo a harmonia com o cosmos.  Essa é questão atual. Se temos realmente valores ou se não passamos de uma espécie que rapina mundos ?

  

Identidade 

                       Equilíbrio de condições necessárias    

Liberdade     

 

Logos estático – pensamento, entendimento, identidade, necessidade.

 

Logos dinâmico – alma, fogo, relação, liberdade

 

Logos instituinte – transcende-nos

 

 

Logos estático – Heraclito ® ciência

                           o circulo, dualidade na identidade, o que é, como não é.

Logos dinâmico – alma, inteligência,

                              Processo, dinamismo, em processo, em construção.

              

Logos dialético, o divino, o fogo que dirige o mundo, que está no fundo da nossa alma, que nos processa, ...o fogo...the horror...the joy...A alma do mundo leva-nos, trouxe-nos a este mundo e propõe-nos hoje um novo acordo.  O fogo vivo, o logos uno, o divino, o que é que ele quer de mim ?  O processo do mundo, um fogo a consumir um mundo, um ser que se leva e se mantém vivo, que vem marcando uma linha, um trilho.  Ele vem desenhando uma trajetória, vem seguindo um caminho.  A medida que tomamos da sua revolução é que muitas vezes é curta. Chegamos aqui hoje, olhamos para trás, e podemos dizer sim, os homens quiseram seguir muitos sentidos, mas a physis (logos dialético) acabou por nos trazer na linha.  Ele vem impondo a sua vontade, sabe por onde vai.  As leis da natureza foram feitas com inteligência, mas são apenas suporte.  O fogo supera tudo.  As leis da natureza são ciclos, os seus esquemas representam círculos fechados com funções próprias e determinadas. O animal não muda de vida, segue o seu instinto e o leque da sua ação está traçado.  A inteligência viva, que do fundo da nossa alma nos dirige, dirige todas as coisas dentro de si.  A alma é o comum.  É a alma que nos une à vida.  É a alma que nos une a todas as coisas.  Aos homens, é a inteligência que lhes dá a sua marca distintiva, mas é o logos dinâmico que finalmente os convence.  Homens abertos ao mundo, abertos a todas as coisas e não apenas à sua espécie, homens para lá do pensamento, fazem com a sua alma a união ao cosmos.  A alma é o veiculo para a mística. O fogo está no fundo da alma, e dai dirige o mundo.  Consome por medida, esse monstro, esse animal despótico, essa força imensa que só está do nosso lado quando nos colocamos no seu segmento.  Somos determinados, há um telos, há um sentido, há um processo, tem havido desenvolvimento, chegamos ao hoje. 

O que nos propõe o fogo do fundo da nossa alma ? Mais Liberdade. Não a liberdade total, mas a liberdade absoluta sobre o espaço e o tempo.  Isso é o que nos propõe o fogo hoje.  Quais são as suas condições ?  Para começar haver condições ( a liberdade não é total; para haver liberdade tem de haver um compromisso entre os contrários).  O mundo vem-se cumprindo como processo e não aconteceu todo de uma vez porque há regras ( o fogo não faz o leão adulto, nem a arvore desenvolvida, tudo tem de passar por certain stages).  Há regras bastante antigas que estão dispersas.  As velhas regras são a verdade, o amor, o equilíbrio e o medo.  A nova regra é o respeito pelo sistema natural (físico, biológico) do planeta.  É necessário ser verdadeiro, é necessário amar, é necessário saber controlar o medo, é necessário ser responsável perante o poder do fogo.  A humanidade é como um hominídeo que acabou de compreender que, havendo pedras, se der com uma na cabeça com determinada força morre.  O nuclear é a maioridade do ser humano.  E podemos ser crianças maiores.  Grande parte dos seres humanos são eticamente pouco desenvolvidos.  Não compreende -mos o que é a moralidade, brincamos com a moralidade, e nem fazemos a mínima ideia do que é a ética.  Crianças brincando ao jogo dos homens, como poderemos aspirar a ser algo mais que isto ?  Quando teremos vontade de ser realmente homens brincando como crianças ?  Quando teremos a coragem de nos assumirmos perante nós próprios, não necessitar mentir a nós próprios.  Quem consegue não mentir a si próprio ?  Quem se assume não necessita de mentiras, mas poucos tem coragem de se assumir, quase todos mentimos.  Os humanos não se assumem, por esta razão somos todos menores, somos todos crianças.  Por mentirmos, passo um atestado de infantilidade à humanidade.  A mentira é uma das condições do novo acordo, uma outra é o amor.  O musico diz “saber amar”, e trata-se disso mesmo.  Amamos uma mulher, mas esse amor está no raio de um amor maior, o amor da alma do mundo por todas as coisas.  É na certa compensação que fazemos entre o ente especifico e o cosmos que está a capacidade/possibilidade de sabermos ou não amar.  Amamo-nos a nós próprios.  Amamo-nos mal a nós próprios quando esquecemos que a terra é também a nossa pele.  O ser tem varias camadas e vários órgãos.  O ser é uno, o universo é um organismo, um útero.  Dentro dele está um ser em desenvolvimento, desde o fogo de Heraclito, vindo de mais atrás, passando pela ideia de Bem de Platão.  Hoje o novo acordo proposto por ele ao humano, o novo mandamento é este.  Protege a natureza; acaba a descodificação do processo binário; sê verdadeiro; ama com medida entre os graus do teu ser; controla o medo.  Protege o corpo, garante a vida aos seres humanos, à natureza. Vive em harmonia com o mundo.  Alcança o nirvana físico.  Deixa viver o corpo.  Necessidades básicas para toda a humanidade.  Valores fundamentais : verdade, amor, harmonia, equilíbrio.

Muitos não escutam o logos.  Estão como que a dormir, mas esta é uma oportunidade para todos os homens, todos os que quiserem mudar, procurando cumprir estas quatro nobres verdades.  Muitos não quererão ouvir, os homens não quererão todos o novo acordo, e ai, a espécie separa-se, uns aceitaram e viverão de um outro modo.  Se tivermos que criar o nosso próprio mundo, nós o faremos, criaremos a nossa cultura underground, difundiremos a nossa palavra e o novo acordo.  Aqueles que se propuserem a aceitar o novo acordo serão os que retomam a caminhada após um longo aceitar.  É tempo de dar, o mundo testar-nos à.  É possível criar essa comunidade isolada, essa cultura underground num mundo podre e decadente ?  É possível chegar a todos os homens em todos os bairros ?  O novo acordo e para toda a humanidade.  O humano superar-se à, “ o humano é apenas uma corda, uma corda estendida sobre o abismo.”  Esse humano acabará por morrer, mas antes da sua morte, alguns haverá que se matarão antes, matarão em si o humano que foram e criaram em si o ser humano do novo acordo.  O desenvolvimento das potencialidades humanas é infinito, e percorre-lo é ultrapassar o que pensamos ser humano.  Para percorrer o nosso caminho temos de superar o humano, que ainda tem muitos defeitos, ainda é demasiado mesquinho.  O humano é ainda uma criança, é ainda um grande egoísta.  Quando aprender a olhar-se como realmente é, e compreender os diversos níveis do seu ser ( compreender o we ), quando perceber o que ele é como singular e o que ele é como comum, então se encontrará.  “Procurei-me a mim mesmo.”  É com o fragmento 101 que vou finalizar este trabalho.  A grande questão do fogo, a grande questão do abismo sem fundo, tudo isso é a questão de um único ser, o um que está em desenvolvimento. 


“Do que jamais mergulha como alguém escaparia” ?    

Da potencialidade infinita



[1] Os homens não sabem escutar  o logos.                                                                                                                                   Não é por não saberem escutar Heraclito que os homens estavam enganados, o próprio Heraclito não saberia dizer o que o fogo era.  Os homens estavam a dormir porque a voz falava dentro deles e eles não escutavam. Por isso Heraclito se afasta dos homens, eles não conseguem compreender, dormem. Se escutassem, do fundo da sua alma ouviriam, mas não, os homens preferem não mergulhar, por isso se escapam de ouvir. 

[2] Os nomes que damos ás coisas são apenas símbolos. As representações que fazemos são sempre simulações.  O que não podemos negar é que há um processo de transformação, o uno vive como um fogo.  A metáfora do fogo é a Metáfora, consumimos o físico perante um caminho, como o fogo consome a madeira e o oxigénio.  Entregamo-nos ao sacrifício perante o sentido que damos ao que ouvimos do logos.  A verdade manifesta-se dentro de nós, mas está escondida, ou, a verdade está dentro de nós, e o seu esconderijo é a imperscrutabilidade da nossa alma. 

Quando despertamos olhamos as várias perspetivas e formamos assim uma representação imperfeita do que será a Perspetiva.  Podemos fazer significar o que quer que seja com o que quer que seja.  Queremos ver a plenitude, queremos sentir a plenitude, mas a plenitude perde-se quando olhamos só para o pensamento, ou quando apenas nos limitamos ao sensível.  A plenitude perde-se quando só nos vemos como poeira cósmica que gira a 900 Kms por segundo.  Somos também isso, mas somos muito mais que isso.  Naquela escala, em determinada sequência, o nosso rosto é aquele, mas visto numa diferente escala, a nossa face será outra.  Qual delas é a mais real ?  Os homens apegam-se a aspetos particulares da realidade.  Qualquer das faces não diz o que somos, pois somos seres em definição.  Não somos seres indefinidos, pois o fogo acende-se e apaga-se por medida.  Somos seres que se procuram definir, não de uma maneira que nos feche os horizontes, mas sim numa senda de seres de liberdade.  Procuramos o nosso caminho, somos seres ainda não definidos que se manifestam numa pluralidade de mascaras.  Se um dia tiras todas as mascaras, o que fica ?  As mascaras são apenas aproximações, mas o humano que se está a fazer, ainda não tem rosto.

Podemos ter raciocínios perscrutáveis, podemos tentar, e as tentativas são válidas, mas não podemos parar.  Heraclito afirma a urgente necessidade de seguir em frente.  Há em nós uma explicação para a ilusão do absurdo, pois o mundo não é absurdo, há um caminho, há um “fogo”, que regula os desequilíbrios e encaminha um processo.  Para onde não sabemos.  Há um sentido para as tensões, para todos os conflitos; para todo o sofrimento, os pensamentos, as ideias; as maravilhosas vistas, todas as emoções e relações...  O caminhar profundo na procura de algo.  Há um sentido para a morte de uns e para a vida de outros, para o processo físico de passar de fogo a terra, para o retrocesso de estar a dormir, e” tornar o fogo frio”, húmido.  Para que os círculos não seja apenas fechados, as coisas tem de passar pelo fogo, tem de passar pela mudança, a grande indefinição para nós, poderá estar profundamente definido para ele próprio, (ou não). ( a profundidade da alma é insondável, as coisas são e não são).   O fogo é o sentido da luta (pólemos), tem em si o sentido de si, pois acende-se e paga-se por medida, é o sentido da tensão permanente entre todas as coisas, dando mais a uma, tirando a outras, para que o equilíbrio se mantenha, para que o uno posso continuar a sê-lo.  Há e não há evolução no processo !!?  Seria um mundo pobre aquele que se acende e se apaga por medida se só existisse para se manter.  A tradição hindu, na trimúrti, fala de um instinto de conservação, mas fala também da criação e da destruição; Platão falará num cavalo branco, negro e no cocheiro, podemos apontar também os três elementos da dialética, e o DNA;  a tríade tem sido um elemento fundamental na cultura humana.  Um mundo que só existisse para se manter seria muito pobre. Tem de haver algo mais, o fogo procura passagem para algo que ainda não está ai, que se está a fazer.

[3] A separação entre sujeito objeto é um mal necessário.  O humano tem de se ver de fora para ver o todo, foi o que Heraclito fez com a sua vida, tornou-se sujeito e fez do mundo o seu objeto.  Quando ele fala dos homens que dormem está fora, olha a humanidade como Pessoa o faz no seu texto onde fala do homem que vai descendo a rua, com o guarda chuva num braço e a pasta debaixo do outro, ele dorme, caminha mas dorme, como os homens que Heraclito descreve, todos dormem, são como crianças levadas numa aparente brincadeira.  O fogo trata os homens como crianças, leva-os a brincar.  O aviso que Heraclito nos dá é que ouvir o logos é ouvir a diversidade, é não ficar preso a um olho, a uma maneira de ver as coisas.  Há perspetivas diversas, olhar o mundo por uma delas é não saber escutar, podemos pensar o mundo, isso ajuda-nos, mas não devemos confundir o pensamento com o mundo.  O mundo também é composto de pensamento, o logos estático está ai para o provar, mas para além dele, imerge uma outra alma, que o consome e utiliza por medida.  Ao problema do Ser, se ele é real, se ele é ideal, a resposta é que não há opção, em lógica não é  (ou), (o problema não é o ser é real ou ideal), em lógica seria (e), o Ser é real e ideal.    

[4] “tudo é um” – Podemos ver esta máxima como todas as coisas juntas formam o um.  Mas ela também nos diz que todas as coisas são um consigo próprias.  Existem os amores dos homens, existe o amor dos homens e existe o Amor, ele é um com todos os amores, ele é todos os amores; existem as verdades dos homens, a verdade dos homens, mas no fundo é tudo a mesma Verdade.  Todas as coisas são um.  O amor é um, a verdade é uma e os homens são um, o mundo é um, e o todo é um. 

Os homens, quando pensam que são indivíduos separados de todos os outros, quando maltratam e exploram os outros, não compreendem que se estão a explorar e a maltratar a si próprios.  Por isso o budismo nos fala no amor que damos e no Amor que cresce.  O tudo é um de Heraclito tem sido esquecido por aqueles que se pensam como células estanques.  Tudo está interligado, tudo está unido.  C. Jung falou num inconsciente coletivo, Heraclito falou de um fogo que sente tudo.  Pratica atos injustos e verás mais injustiça, ama e verás mais Amor no mundo.  Temo-nos esquecido de nós próprios, temo-nos esquecido dos outros homens e agora temos vindo a esquecermo-nos do mundo (da Terra).  Perante a nossa gula, devoramos homens, devoramos o mundo.  Hoje a natureza está doente, o humano perdeu a sintonia com o mundo, na procura do seu bem estar – visão parcial – descurou o equilíbrio.

Temo-nos pensado mal.  Pensamos que somos apenas peões, e os que dormem agem apenas como peões.  Mas Heraclito diz-nos que o logos também está dentro de nós.  Os que dormem ficam-se na parcialidade,  as suas relações, que são as do vai e volta a mim, entendem-se como um fim em si, perdem a relação com todas as coisas, perdem o sentido sem fim.  A parcialidade fecha-se à novidade, aqueles que só veem as coisas de uma maneira não sabem nada da alteridade, nem estão abertos a ela.  Quando vejo as coisas a partir de preconceitos limitados, elas tendem a ser limitadas, a ter um fim.  Fecha-se o circulo, fecha-se o horizonte, perde-se a liberdade.  Só vendo as coisas para além das nossas noções limitadas podemos compreender que o fundo da nossa alma é insondável, que o circulo, se há um circulo no fim de todas as coisas, esse, ainda nos ultrapassa, e como tal, é uma realidade em aberto, pode ter ou não ter fim.  Heraclito diz-nos que tem e não tem.  O Ser propõe etapas, há um fim para cada uma, mas para além da que se cumpre agora, a finalidade do mundo é uma experiência de liberdade.  Ao vermo-nos como parte esquecemos que pensamos o todo, que o tudo necessita de uma perspetiva de pensamento imparcial.  Certos homens saem fora da realidade humana, mas a resposta não é essa, temos de integrar o pensamento, ou inventar outro tipo de pensamento.  Quando ultrapassamos ( não negamos), superamos, integrando as perspetivas particulares.  Quando elas não são negadas e interagem umas com as outras, surge um outro ser.  O uno só o é quando se dá a integração de todas as partes do todo.  As perspetivas conjugam-se, formam a perspetiva, a mais elevada, a numero um.  A numero um e o seu contrário ficam nos extremos da corda, entre elas todas as outras.  Entre o ser físico e o ser espiritual há o comum, e nele estão os olhares, os toques, os sentimentos,  e as emoções de todos os homens e seres que vivem.  Quando um homem desperta, e se vê liberto das visões parciais, abre-se o cosmos perante os seus olhos.  Sabe o valor relativo das coisas em si, e sabe também o valor absoluto das coisas em relação. Transportamos algo dentro de nós, não sabemos o que é, escutando o logos estamos mais próximo, mas as palavras de hoje estão longe.  Escutamos para além das palavras de hoje, silenciamo-nos, deixamos o fluir do sentimento sagrado escorrer em nós.  Há uma realidade que nos ultrapassa, que se dirige, reconhecemos um processo.  Ao afirmar isto não tenho a certeza se estarei a ir um pouco além de Heraclito.  Ele afirma a conservação do Ser, mas não nos diz porque se conserva o Ser.  Parece-nos pobre, é justo dizer que o Ser se acende e apaga por medida, é justo supor uma circularidade entre todo o processo do fogo, mas também é justo afirmar que no fundo da nossa alma há desígnios que tudo superam, e estes prenunciam um ir além de uma realidade fechada, de uma circularidade.  O que estou a tentar dizer aqui é que se não houvesse um porquê, se não houvesse um objetivo, a própria conservação não fazia sentido.  Todas as tensões pela preservação do fogo, mas a preservação não faria sentido se não houvesse algo mais. 

Assim o fogo abre-se à alteridade, expande-se na medida das suas necessidades, propaga-se, cresce, desenvolve-se.  ( Frag. 115 “ Soul possesses a logos (measure, proportion) which increases itself.”)  Neste fragmento surge-me a duvida, estarei a ir além de Heraclito quando vejo um logos em expansão?  Escutando o fundo da nossa alma sabemos que temos um papel fundamental, tanto descodificado o logos estático, a estrutura inteligível, o pano de fundo por trás do real, como somos parte activa no desenvolvimento do logos dinâmico. Olhamos para o fundo da nossa alma e encontramos o abismo, tudo isto poderá significar que desde sempre nos temos vindo a construir.  O fogo avança, consome o físico, cria novo físico, a realidade forma-se, os homens tem feito uma certa realidade, mas as nossas construções estão aquém.  É necessário seguir em frente, hoje partilhamos ainda dessa crença de Heraclito, o mundo não é absurdo, há uma inteligência que dirige o cosmos, que nos fala no fundo de nós. Frag.  41 “ [He says that] the wise {thing} is a single {thing} (or, differently punctuated : one thing, the wise thing, {is}) – knowing the plan twhich steerst all things through all things.”  Se o mundo tem um regulador, ele regula-se para alguma coisa.  Se se regula para alguma coisa é porque tem um determinado objectivo.  Parte da regulação é para manter o mundo, manter o fogo acesso.  Mas é pobre pensar que o fogo está acesso porque está acesso.  Se o mundo é inteligente, o fogo estará acesso para algo mais, sendo o fogo o instrumento da transformação.  (Frag.  90).  O mundo que temos perante os nossos olhos está em transformação.  A transformação cíclica só faz sentido para um instinto de conservação .  Os ciclos servem a conservação, no entanto o mundo também se vai criando, e o criar vai além do ciclo que apenas recria, surge o instinto de criação ( frag. 6 ).  Trás algo que nunca existiu antes, aumentando o balanço entre todas as coisas, ampliando as compensações.  O fogo avança para algo que nunca existiu antes, avança para um fim não determinado, mas que determina a realidade humana, juntando partes novas, repondo partes gastas, a espiral complementa o circulo, o logos (estático) sustem, o logos (dinâmico) acrescenta, o movimento dirige-se para algum lugar.  Heraclito não nos diz para onde vai o mundo.  


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BIBLIOGRAFIA  :

T.M.Robinson, Heraclitus Fragments, University of Toronto Press, (...).

“Os Pensadores”, Os pré-Socráticos, Nova cultural, 1991, Fragmentos.




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