Nº 3 Corações de Fogo
Revista não oficial de Filosofia, Poesia e Religião
Revista Opúsculos
“Opúsculos
sobre o Fim de Um Mundo”, revista não oficial de poesia, filosofia e religião, lançada
em 2007 com a divisa, “esta é a minha verdade conta-me a tua” (desde o número
11 referenciada como “Boletim de Ideias Filosóficas”).
Ilustrada com quadros dos mestres, quadros de novos artistas, promessas
desconhecidas, serigrafias, poesias, breves e profundas orações (só nos
primeiros números consegui colocar as ilustrações).
Nos primeiros números, pequenos contos, textos, explorando ideias da
filosofia. Outros números, foram trabalhos para determinada cadeira e que acho
que tem validade como tijolo na construção e sistematização de uma tese geral.
Revista feita por alunos e estudantes de filosofia, nas suas páginas, os
textos preliminares dos pretendentes na descoberta e edificação de um pensar
próprio, revista dos audazes aprendizes na disciplina de arquitetura da mente.
A revista não quer ser algo pomposo, nem se quer afirmar como detentora de
qualquer verdade. Sustem-se na ideia aristotélica de arte na
"Poética" aplicada à filosofia (acho que uma certa maneira foi o que
Kant fez da filosofia, após o esclarecimento (na "Crítica da Razão Pura”),
do que era ciência e de que a filosofia não o podia ser).
11:59 (2000/2002)
Utopia parte (x)
(texto alegórico)
...num universo paralelo
...Júpiter EC54
...ano Cristão : 2015
...quinta feira, 17 de Setembro
...hora sideral: 11:59
PRELÚDIO
Um cosmonauta brasileiro começou
a captar uma estranha formação química naquela secção de exploração num dos
satélites de Júpiter. Levava nas mãos um “Indicador” (instrumento que servia
para fazer leituras cientificas) para medir o “composto” daqueles elementos.
Havia dois anos que as explorações espaciais levadas a cabo pelo “Bloco do Sul”
tinham estacionado ali, e se bem que já tivessem encontrado um numero imenso de
novos “compostos”, por muito que a diversidade pudesse vir a aumentar, não se
via um fim pratico à vista. Andava-se numa corrida louca na procura de algo,
que todos sentiam que estava mesmo ali, mas onde ninguém se sentia com a
destreza necessária para ver o que era.
De repente o Indicador começou a
registar algo muito estranho, a sequência L23 estava muito alta. A sequência
L23 fazia infalivelmente parte de todos os compostos, e estava normalmente
baixa. A sequência L23 era considerada como a sequência base de todo o sistema
de corpos físicos. E ali, naquele fim do mundo, na fronteira onde todos os dias
se encontrava algo diferente, mas sem resultados práticos à vista, ali estava
uma substancia que era por si própria fundamento energético de todos os
compostos.
Ao principio, entre os
cientistas, havia vários que compartilhavam da tese que os seres eram em ultima
instancia energia. Depois, dentro dos seres em geral, pôde medir-se uma
determinada unidade energética pura (L23), viu-se que ela era variável entre os
diferentes seres, mas que em termos de percentagem, essa unidade pura
constituía uma percentagem baixa em relação ao ser na sua totalidade. Os seres
eram energia, mas só uma pequena parte de si era energia pura. Ao
encontrarem-se compostos com energia a 100% os homens tinham dado mais um
passo. Não eram apenas especulações filosóficas, a energia pura existia de
facto. A energia pura constituía a chave para a “Terceira Vaga”. Era energia
não poluente, era energia não excedente.
Ruben Leonardo ouvia musicas do
Álbum Palavras ao Vento mas desligou imediatamente a musica, acionou o
comando de comunicação e dirigiu-se a Frank Cooper.
- Frank...
- Disseste cinco minutos, ainda
não estou lá,...
- Tenho aqui algo de muito
estranho, o Indicador aponta um composto com alta percentagem de L23.
- Qual é a percentagem ?
- 100%.
- Estás a brincar não é ?
- Estou a (n) metros à tua
esquerda, vem ter comigo.
Frank dirigiu-se para Leonardo,
pensou para si que coisa estranha, só podia ser uma brincadeira, o componente
L23 a 100%. Está bem que dentro de si muitas vezes tinha sonhado encontrar algo
assim, mas que o tivessem encontrado agora não o queria acreditar, estar
talhado para estar num momento destes era algo para que todos se preparavam ao
longo da vida.
Ao aproximar-se do local onde
Leonardo estava também no seu Indicador começou a registar a percentagem de L23
a subir.
- Caramba, é mesmo verdade?
Sempre tiveste faro para cheirar o novo, mas desta vez excedeste-te. Começa ali
atras, mas á medida que chegamos aqui o nível sobe.
- Já andei uns passos naquela direção,
depois andei ali para a esquerda e para a direita, o nível mantêm-se sempre,
fiz um registo a vinte metros de profundidade e continua a manter-se, é uma
coisa grande que começa aqui, o aumento progressivo de intensidade à medida que
nos aproximamos dele mostra que tem espectro á sua volta.
- Vamos contactar a central.
Somos uns heróis. Sabes o que isto significa?
- As coisas nunca mais serão as
mesmas. Mas não vamos contactar a central, tenho ordens para numa situação
destas contactar só com Heiselman. Vamos permanecer aqui mais duas horas até
acabar o turno, recolhemos as amostras e fazemos o inventario do material que
está à sua volta.
- Não sei como consegues estar
tão frio num momento destes, isto é Energia Pura, os compostos energéticos são
os que maior percentagem de L23 têm, mas quanto ao componente essencial L23 a
100%, há quem defenda que nunca se poderá encontrar porque não existe.
- Por eles dizerem que não existe
é que eu estou assim, já viste como o mundo vai mudar, é o começo de uma nova
era.
Leonardo e Frank mantiveram-se
ocupados até ao fim do seu turno. Quando a hora chegou, foram para o dirigível
fazendo-se regressar à base.
CAPITULO I
Dortmund, Alemanha (27-9-1989, 15:27h)
Era uma tarde suave de Outono, as
primeiras folhas amarelecidas começavam a cair. Havia poucas nuvens no céu, e o
vento soprava uma brisa suave que já começava a arrefecer os dias. Na cidade de
Dortmund, num dia de quarta-feira, duas mulheres na casa dos trinta discutiam
sobre a próxima ação, de um até à pouco tempo desconhecido “Movimento de Ação Social
e Ecológica”. Os seus nomes eram Patrícia Andersen e Cláudia Stewart. Contra a
política ecológica do Norte, iam haver varias concentrações em cidades
brasileiras. Nas praças e nos parques um grupo chamado as "vozes"
ia-se reunir, e como lhes era próprio, as questões iam ser discutidas
irmãmente.
Cláudia
- ... eles é que tem razão, temos
de acabar de vez com as sobras deste século. Com os avanços da ciência e a
tecnologia atual já se devia poder produzir sem poluir. Não se quer gastar o
dinheiro a reconverter a indústria e os veículos, mas gasta-se dinheiro a fazer
mausoléus à gloria dos governantes. Com que sentido se gastam milhões a
construir o que não serve senão para envaidecer o ego, de algum dirigente que
está mal centrado em relação aos problemas do seu povo ? Com que sentido gasta
o Ocidente tanto dinheiro na investigação espacial, na construção de uma
estação orbital agora, quando daqui a 50 anos sai por metade do preço. Gasta-se
o dinheiro em explorações a Marte para satisfazer a curiosidade arquivista, e
dizem eles que são cientistas. Limitam-se a recolher dados e elaborar
listagens. “já temos mais uns elementos novos”; para quê ? Com que sentido se
gastam milhões a descobrir o que não interessa para nada ?
- Um dia pode-se encontrar
qualquer coisa que seja importante.
- Sim, um dia... no dia que nunca
mais chega, ou que não vai chegar nunca. O espaço é vazio num largo sentido,
não há ali nada que nos interesse, temos é de reconverter os poluentes e deixar
de agredir a terra.
- Eu acho que a exploração
espacial é importante.
- Pois eu acho que é uma perca de
tempo e de dinheiro. Temos é de nos preocupar com o que está aqui, e deixar o
além para depois. Temos um mundo que caminha todos os dias para o cinzento, há
zonas que tivemos de abandonar, e mesmo assim eles continuam a envenenar a
atmosfera, não percebem, a atmosfera está saturada? Temos de parar o mundo
poluente, não é um sonho, é uma emergência.
- “Os países do Norte”, só fazem
o que os Estados Unidos querem. E o resto do mundo é arrastado no jogo dos
poderosos...
Toca o telefone. Cláudia atende
- Estou,... Sérgio ? Não devias
estar já em casa ?
- Mãe,...estamos a fazer uma
partida,...posso ficar mais um pouco ?
- Tu sabes que estás de
castigo,...que eu te disse que não podias ficar na rua,...
- Mãe,...
- Vou te ai buscar dentro de
vinte minutos, e não tem mãe. Tens de aprender a ser responsável pelos teus atos,
um homem define-se pelos seus atos, e eu quero que cresças, não podes passar a
vida em dualidades. Assim não sei lidar contigo, assim não sei o que posso
esperar de ti.
- Não esperes nada...eu sou
indefinido, visto as peles do que quiser ser.
- Vá,...não comeces com as
vacuidades, não tem recurso. Vou te ai buscar. Até já...
- Até já mãe.
Cláudia desligou o telefone e
ficou um momento pensativa, depois vindo a si disse
- Este meu filho, não sei o como
hei-de fazer com ele. Não se define, diz me que o que se vê são as capas que se
põem, mas que o ser em si não tem forma definida, é a pura possibilidade. Não
vê que há uma das capas que as pessoas acabam sempre por associar a ti.
- Tens de ver que tem doze anos,
precisa de descobrir o seu ser. Não tem pai, tem algumas referências neste
mundo, mas são personagens que estão inacessíveis para a maioria dos mortais,
fica num vazio da alma. Ao nível da alma ele não comunica diretamente, colhe a
poesia dos álbuns que ouve, nos livros que lê, dá de si nos contactos do dia a
dia, mas tem outro lado de si que só lá chega sozinho. E essa é sua grande
tristeza, gostaria de partilhar esses momentos, mas não consegue a ponte para
chegar ao outro de ser para ser.
- Sim,...tu és igual a ele,
versão mais adulta, mais consciente, mas no fundo também andas á procura do
“nada”... Queres vir comigo busca-lo ?
- ...uhm...vamos. Vai-me saber
bem andar por ai um pouco,
Porto Alegre (30-09-1989)
No Sábado o dia acordou cedo,
embora não fosse um dia de semana havia uma agitação um pouco fora do normal.
Logo pela manhã sentiu-se uma tendência das pessoas se dirigirem para o parque
central da cidade. Ali, na imensa relva ou num dos anfiteatros, começaram-se a formar
pequenos grupos que iam iniciando as conversas. Com frases banais, começando
por assuntos marginais, “...que raio de moda, os dependentes da máquina...”,
passando a assuntos mais abrangentes como “...os dependentes em geral”. Assim
se iam acendendo as discussões, mas o ponto central, a ordem do dia estava ali
tão certa como cada um ter vontade de participar. O “Verde” que no coração
daqueles homens significava o valor Santo.
Havia realmente um pouco mais do
que política ali, havia uma Ontologia por detrás daquele modulo (J.Rawls) dos
assuntos humanos. “...o Ser Humano é o guardião da Natureza...”, esse era um
dos slogans. “O ser humano tem de se definir, saber que ele é o elo mais forte.
Tem de saber quem é, o que faz, para que serve, e qual o poder que está na sua
mão. Ser menor já não dá para uma humanidade que chegou ao Nuclear”. Aqueles cidadãos
acreditavam que os humanos não sofrem por acaso, se a vida for por acaso, os
que sofrem, sofrem por acaso. O sofrimento, o padecimento de que era fértil a história
não se coadunava com “...peitos abertos, corações que amam como loucos, homens
desperto, que de tanto perguntar sabiam tão pouco”. As vozes tinham-se reunido,
os cidadãos iam falar, pensar, empreender, tentar compreender em comum. Havia
um novo interesse pelos diálogos e pelas discussões, os focos essenciais das
discussões humanos tinham sido redescobertos pelos cidadãos daquele tempo.
Esse dia foi o primeiro grande
sucesso do CLM. De um partido semi clandestino e sem significado tinha
conseguido interessar as pessoas por uma política nova. A Terra estava doente,
a Terra como ser de facto, o composto espirito-físico que numa alma singular
representa o planeta no seu todo. Esse era um grande estandarte daqueles cidadãos.
“...os confederados do Norte perpetuam este tipo de existência. Nós não
queremos perpetuar com o Norte. Queremos encontrar novos caminhos para não
destruir o equilíbrio de vida na Terra. Criar uma boa equipa de cientistas,
dar-lhes os meios para que procurem saídas ecológicas”. O outro estandarte era
a o Problema do Ser Humano, envolvia a Sociologia, a Psicologia, a Ética e a
Moral. “...ou a moralidade está podre ou não há moralidade,... de que vale uma
moralidade se esta só serve para esconder que temos um bicho bravo dentro de
nós...”
Havia uma vontade nova perante a
resolução do problema do ser humano. As questões antropológicas e as questões
do Cosmos, envolvidas com as questões da Terra, com asfixia da natureza. As
pessoas acorreram aos milhares, com os seus portáteis reuniram-se em grupos.
Havia 5 tópicos centrais, cinco grandes janelas que discutiam simultaneamente
on line. Os estrategas da propaganda do partido, tinham tido a habilidade para
espalhar pelas praças vários painéis para que todos pudessem participar.
Queria-se um mundo de amor verdadeiro, queria-se proteger a única vida que se
conhece, a pérola azul. “...nossa casa, nossa mãe, nossa fonte, nosso refugio,
nossa amante...”. Por isso os estandartes daquele momento eram a Natureza e o Ser
Humano, no entanto, preservar a vida do planeta começou a ser mais essencial do
que expandir a espécie. Havia uma critica ao elevado numero de filhos, certos
governos queriam isso para haver sempre excedentes no emprego, e com isso
continuar a politica dos baixos salários, para educar as crianças de maneira
que elas ficassem dependentes do consumo, e a economia continuasse a dirigir o
mundo. Criticavam aquele preocupar-se tão à maneira do Norte, onde muitas vezes
se faziam convenções e ostentações, sem que, no entanto, se chegasse a lado algum.
A necessidade imperativa de mover
as coisas foi o que juntou aquelas forças. Nas maiores cidades do Brasil
repetiu-se o cenário de Porto alegre, e naquele ponto da pré campanha
eleitoral, ter os cidadãos com o partido foi o começar a abrir o caminho para
um grande resultado nas urnas. Foi uma energia que se uniu e se transmitiu, e
que levou o CLM ao poder nas eleições seguintes.
03-12-1989
O CLM ganhou as eleições muito
pelo seu programa revolucionário, mas também as ganhou porque os que se lhe
associaram eram personalidades com fibra e tenacidade, sabiam bem onde se
estavam a meter, sabiam bem até onde iriam. As lições da história foram lidas e
relidas para que não surgissem equívocos nesta nova tentativa integralista.
Havia a ordem, mas também a dialética, havia o reconhecimento que cada um por
si ficava aquém da tríade que surge da união dos contrários. “A estática e a
dinâmica criam um novo ser. Criam uma direção, um «Ante Ser, ...que é o
universo atual. Dentro dele não podemos fugir ao determinismo imposto pelo “fogo”
heraclitiano. O chamado «mundo de Deus» ainda se está a fazer...”.
Os dirigentes do CLM eram
profundamente metafísicos, mas também profundamente físicos, viam que se
tratava de dois níveis distintos em graus de existência. Contrariamente a
Aristóteles (para além das suas substancias primeiras), consideravam as
“substâncias zero”. Para Aristóteles, Homem , Cidade, Cavalo, não existiam de
facto, eram apenas abstrações que os humanos usavam no campo conceptual. Não
negando as abstrações que se usam no campo conceptual, certos intelectuais
daquele tempo, reconheciam o “grau de existência composto” (“ seres simples e
compostos”), grau este que afirmava uma singularidade unindo varias substancias
primeiras, ( “grau de ser com varias substancias primeiras interligadas”).
Chamaram a isso “substancia zero”. Para os homens da ideologia do CLM a
substância zero existia de facto, havia realmente Homens. Não era a soma dos
homens que faziam o Homem, mas a sua união. Havia a cidade X, existia de facto.
A floresta Y tinha vida própria. A soma das árvores e da vegetação não dão a
floresta. A sua composição, a maneira como está disposta, fazem dela, para além
do seu conceito, uma singularidade real, fazem dela algo (...) que ela não era
considerando os seus elementos fora da união ao todo.
Era necessário cuidar dos pares,
das famílias, das nações, das civilizações, mas era essencial cuidar da Terra.
A Ontologia e a Antropologia formaram ali uma parelha incrível que catapultou o
CLM para as estrelas. Mas havia algum ceticismo no ar. Para quem tinha
prometido tanto, o trabalho seria um culto. Os dirigentes da frente estavam
dispostos a abdicar das suas vidas próprias. Eles tentariam, “acabariam com as
dificuldades ou elas acabariam com eles”, lutariam até ao limite das suas
forças, e se não o conseguissem, pereceriam, e viriam outros com sonhos
revigorados.
A situação económica do Brasil no
fim do século XX foi piorando de ano para ano. Foi isso que possibilitou que
aquele tipo de radicalismo chegasse ao poder. As políticas de crescimento
económico iam criando um número cada vez maior de pessoas que sentiam que algo
faltava nas suas vidas. Ao longo da história estes momentos tinham surgido com
uma regularidade que se manifestou vezes de mais para ser negada. Quando
quantidades imensas de cidadãos estão dispostas a sacrificar tudo, começam as
sérias agitações sociais. Começam a acentuar-se as diferenças entre as coletividades,
cerram-se fileiras. Primeiro as nações, depois os blocos. Quando se enfrentam
na dualidade, é o momento em que o martelo caí e bate na bigorna, “cumpre-se a
história”, e depois disso nunca se sabe o que vai acontecer. A fé dos dirigentes
do CLM dizia-lhes que “as coisas vão para melhor”, que ao longo da história tem
crescido a humanidade, e que a humanidade não é a soma de todos os seres
humanos, mas sim um conceito, um ideal que se procura e se luta por ele. Outros
diziam que a desumanidade também cresceu, que tudo cresceu neste universo
indefinido, até ele cresceu para fora das nossas definições. Os dirigentes do
CLM diziam, “...o que podemos olhar é a realidade humana. O Espirito cresceu, a
Alma cresceu. Todos os dias a Vida tem de começar tudo de novo, todos os dias
morre um cidadão que cresceu e nasce uma criança que tem tudo para andar. Mas
para além de cada um de nós, dentro de cada um de nós, há um ser imortal, com o
qual temos de viver. O ser físico é feito de matéria perecível. O espirito é
algo que nos ultrapassa, por isso não sabemos se morre ou não. Mantendo a
espécie viva o Espirito vem vivendo desde o inicio dos tempos, se bem que não é
uma prova da sua eternidade é uma prova da sua longevidade...”.
Os dirigentes do CLM tinham um
sonho, viver em equilíbrio consigo próprios e em harmonia com o meio. No inicio
quando chegaram ao poder, limitaram-se a tomar poucas medidas precisas e
estratégicas em certas áreas chave. Com isso travaram a eminente derrocada da
economia. Depois surpreenderam tudo e todos quando anunciaram as intenções de
criar um bloco de cooperação cientifica com a África do Sul e com a Argentina.
Os dirigentes da Austrália (que também tinham sido convidados para aquele
meeting particular entre “os quatro” na cimeira de chefes de Estado e de
governo das nações unidas) não se quiseram comprometer, tendo remetido o assunto
para o parlamento australiano. A África do Sul e Argentina iam também levar o
assunto aos seus parlamentos, mas o Brasil ia leva-lo às reuniões das vozes, as
suas agoras renascidas.
O novo interesse dos brasileiros
pela política levou-os a formar assembleias por todo o lado. Em todo o lado
tudo se discutia, por todo o lado as pessoas se ligavam para discutir, pensar
em conjunto, ler, ouvir, contribuir, para levar as coisas para melhor, para
evoluir. Os brasileiros misturaram a política com as suas próprias vidas, e
entre as discussões dançavam, pintavam, faziam desporto..., celebravam a Vida e
o Amor que os unia . Sabia-se que não se queriam mundos perfeitos[1]. Ao longo
da historia, tantas vezes os vencedores pensaram ter chegado ao mundo ideal.
Não, a resposta tem um contexto, há um enquadramento. Os dirigentes do CLM não
queriam trazer para a política valores absolutos, dogmas. Todos eles levavam a
ciência a serio. Sabiam que a verdade pode ser apenas uma miragem, mas que a
verdade do momento é algo que se procura e se encontra.
A noticia do Bloco de Cooperação Cientifica,
com objetivos específicos de libertar os cidadãos e a Terra do jugo que o mundo
que se perpetua lhe impõe, foi bem-recebida pelas opiniões publicas dos países
constituintes. O CLM tinha conseguido agendar um novo encontro entre os quatro
dai a dois meses. Nesse encontro, depois de ter sentido que as opiniões
publicas dos outros três países também lhe eram favoráveis, o partido deu um
passo em frente, propôs que a cooperação se alargasse ao campo económico. Que
fosse criado um mercado interno e uma união aduaneira entre os quatro. Era
condição a Austrália entrar, o projeto só assim teria viabilidade. As economias
do Brasil e da Argentina ainda estavam muito frágeis. Todos foram apanhados de
surpresa, as criticas e o sarcasmo não se fizeram esperar. Os comentários
imediatos foram que o CLM se tinha deixado levar pelo entusiasmo. No entanto
aqueles quatro povos ficaram a pensar.
Foram feitos referendos mas
quando se fizeram já toda a gente sabia para onde iam a seguir. A grande
maioria estava cansada de perpetuar o “American way of life”. Quase todos
sentiam que era necessário fazer alguma coisa. Poucos sabiam o que fazer.
Quando aquela oportunidade chegou foi como se aqueles cidadãos estivessem numa
plataforma de embarque. Aquele foi o comboio que a “grande maioria não
silenciosa” apanhou. O governo da Austrália sempre se mostrou hesitante, por um
lado queria aderir, por outro, por precaução, sabia que o risco era muito
elevado. No entanto, os cidadãos é que escolheram o seu destino. Quando os
políticos australianos compreenderam o que o seu povo queria, o Pacto dos
Quatro ficou consumado.
Foram formados grupos de trabalho
para discutir as questões de pormenor e elaborar atas de constituição e normas
de funcionamento dos diversos sectores. A cooperação iria ser cientifica,
económica e cultural. Iria ser criado um centro de investigação com três vetores
principais. A robótica, a investigação espacial, e a área de outros quaisquer projetos.
(Ano de 1993)
Seis meses antes da abertura
oficial do centro de investigação, Leonardo já o integrava como um dos
engenheiros responsáveis. Ruben Leonardo era professor no Superior Técnico de
Porto Alegre. Tinha-se notabilizado pelas suas soluções audazes, pelas suas
respostas inesperadas, que resolveram uns tantos problemas complicados. Em
termos de robótica industrial iria tornar-se um mestre. As suas maquinas
estavam um pouco acima de todas as outras.
Em 1990 o seu projeto principal
tinha-lhe sido comunicado por escrito (...). Os dirigentes do CLM queriam criar
o androide. Leonardo tinha sido destacado para integrar um projeto de
investigação avançada, que começaria três anos antes da abertura oficial do
Centro.
Avançou pouco Leonardo entre 1990
e 1994.
Em 1997 a área da robótica
industrial já quase conseguia sustentar os custos do Centro de Investigação,
mas o androide era apenas um frágil brinquedo. Leonardo levava sete anos de
trabalho, repartidos entre o normal (Sustentar o Centro com a robótica
industrial), e o nível avançado, onde, juntamente com uma equipa de técnicos
altamente especializados se dedicava ao projeto do androide. O governo do CLM
não tinha salvo o país milagrosamente, não tinha resolvido os problemas de uma
vez por todas, mas os números da economia eram agora bastante animadores. As
pessoas começavam a sentir no dia a dia que a cooperação entre os “Quatro”
estava a dar os seus primeiros frutos. Nas eleições de 2001, o que o CLM pode
mostrar foram dois satélites no espaço, uma sonda cósmica pronta a ser lançada
(com objetivos específicos no sistema solar), taxas de crescimento económico
bastante positivas e um Centro de Investigação (onde se desenvolviam
tecnologias de ponta aplicáveis a todo o género de maquinas desde eletrodomésticos,
automóveis, passando pela grande aposta que era a robótica industrial) que se
tinha tornado altamente lucrativo. As máquinas projetadas pelo Sul eram as mais
eficientes e as mais caras. Bom e durável tinha sido o lema, rejeitar a
política do descartável, do muda duas vírgulas e já é novo. Em termos sociais,
algumas pessoas pensavam que o que se fazia era muito pouco, que os novos
políticos não eram assim tão radicalmente diferentes dos antigos. No entanto, a
grande maioria continuava a acreditar no sonho. Depois de se verem à beira do
abismo, aquelas pessoas olharam e acreditaram numa nova esperança. Doze anos
passaram e ela continuou lá, ainda não se tinha ido embora. Por isso os homens
continuaram a acreditar e o CLM foi reeleito pela terceira vez.
A sonda cósmica foi lançada
(2001), gastaria algum tempo em orbitas a Marte, Júpiter e Saturno, e depois
avançaria pelo cosmos. Foi durante o trajeto da bela Ônibus ( 2002/03) que as
respostas começaram a surgir. Leonardo tinha passado doze anos à procura de uma
ferramenta sem sentimentos, uma maquina eficiente, um software fiável, mas sem
alma, sem intenções de ser uma replica do ser humano. As 11:57 do dia (x), ano
cristão 2003, Leonardo teve um vislumbre de como conseguiria faze-lo. Dois anos
depois (2005) ele estava quase lá, faltava limar umas arestas para que se
pudesse apresentar um produto acabado no mercado. No projeto seguinte começou
tudo de novo. Até ali já tinha conseguido realizar alguns projetos, mas nenhum
tinha chegado ao grau necessário que se esperava.
Ano cristão 2004
Porto Alegre
Sexta-feira, 24 de Setembro
Hora terrestre : 17:15
Ao entrarem em casa, Sérgio
dirigiu-se para o quarto para tomar um duche, enquanto Júlia foi para a cozinha
pois ouviu a televisão acesa. A D. Carolina já tinha chegado das compras.
Júlia, para a D. Carolina
- Boa tarde Ana, conseguiste comprar
tudo? Hoje quero fazer um jantar especial, sem saber porquê esta manhã fiquei
muito emocionada. Fiquei com a sensação que hoje era dia de festa. Não tenho
nada assinalado na agenda mas de qualquer maneira todos os dias podemos
celebrar a Vida, a Existência em si. Comemorar a Vida, não a tua, nem a minha,
mas a Vida como manifestação ao longo dos séculos. Como é bom haver um mundo
onde podemos levar existências tão ricas...
de repente Júlia calou-se,
virou-se para a televisão e balbuciou - Ah ?
a televisão estava no canal de
noticias, e o jornalista falava de um carro com motor a som… ?
- o que é isto ? pensou Júlia
jornalista
-...testes confirmam que o motor
com unidade Z, (motor de impulsão sonora), depois de desenvolvimentos
surpreendentes nos últimos dois anos, é uma realidade com uma aplicação
imediata. No inicio do próximo anos estão a sair de linha de fabrica os
primeiros veículos que nos livram do pesadelo da gasolina. Numa conferência de
imprensa, acompanhado pelo ministro da ciência e tecnologia, o recém-nomeado diretor
do departamento automóvel Charles Cohen afirmou:
-... esta tinha sido uma procura
que muitos consideraram vã. No entanto, o esforço e a perseverança desta
equipa, que quase sacrificou as suas vidas pessoais à causa, sente-se
recompensado perante o resultado final. Desde a fundação deste Centro de Investigação
que tínhamos este projeto, muitas vezes nos olharam de lado por levarmos isto a
sério. Tateámos nos nossos primeiros passos, tivemos momentos em que nos
sentimos pretensiosos, julgávamo-nos alquimistas? E se estivéssemos á procura
do impossível? Estas foram duvidas que nos assaltaram nos primeiros anos de
investigação, o tempo passava, gastávamos o dinheiro dos contribuintes, mas os
resultados eram nulos. Até então tínhamos teorias que não conseguíamos resolver
na prática por diversos problemas de engenharia. Este projeto ficou na gaveta
durante anos depois de algumas experiências muito desagradáveis, mas nós nunca
desistimos dele. Depois veio o elo perdido, que nos permitiu disser, “we are
back in business”. . Quando resolvemos o engenho, o produto ganhou realidade de
facto. O pistão (êmbolo) tinha-se realmente deslocado por impulsão sonora. A
partir desse dia, nós ficamos a saber que este motor era possível, que
estávamos a fazer um bem ao mundo. Nestes últimos meses de aplicação, de desenvolvimento
de potência, de aperfeiçoamento de componentes, temos vivido as nossas vidas em
pleno, parecia que cada dia novo que passava resolvíamos um problema. Ao
contrario do que muitos dos céticos afirmavam, o veiculo sonoro não é uma
“orquestra andante”, o som que move o motor atua em circuito fechado e não se
ouve nada. Essa é a única desvantagem em relação aos carros convencionais,...eu
e muitos gostamos de sentir o rugido do motor, mas para salvar a atmosfera
desta praga tóxica, eu não me importo de abdicar do rugido do motor...
Repórter
- E este é o ponto da situação
nesta conferencia de imprensa, que apanhou o mundo de surpresa. Um carro
completamente não poluente, com um motor movido a som, e silencioso...
Júlia
- Tu estás a ouvir o mesmo que eu
?
D. Carolina
- Eu tenho estado a ouvir. Como é
que é possível fazerem o carro andar a som sem emitir ruído? Se calhar é mais
uma charada, depois vem dizer que ainda não está pronto, que é preciso mais
dinheiro...
- Não, então vão começar a sair
veículos da fabrica no principio do próximo ano. O que me surpreende é como
conseguiram manter isto em segredo,...tenho de dizer ao Sérgio, ele vai
delirar...
Sai da cozinha e dirige-se para o
quarto onde Sérgio se estava a vestir.
Patrícia tinha ficado em casa
porque lhe apetecia nesse dia ficar um pouco sozinha, ao contrario de Júlia,
tinha acordado melancólica, sentia-se vazia, queria entregar-se de corpo e
alma, mas não sabia a quem. Tinha casado três vezes, e nas três vezes o seu
casamento tinha falhado. Ao fim da tarde ligou o som, e depois de folhear umas
revistas e se aborrecer, foi tomar um duche. O telefone tocou enquanto ela
estava no duche, ela ouviu, mas deixou-o tocar. Quando saiu do duche foi ver se
tinham deixado mensagem. Ouviu-se a voz de Cláudia
- Patrícia, onde te
metes-te,...ouve as noticias, nem sabes o que aconteceu, nem te vou dizer para
ficares tão siderada quanto eu, depois liga-me.
Patrícia desligou o atendedor.
Que poderia ter acontecido de tão extraordinário. Resolveu ficar a tentar
adivinhar por si o que teria acontecido, deitou-se em cima da cama para ficar a
deambular com o pensamento, mas acabou por cair no sono.
Duas horas depois o telefone
tocou outra vez, Patrícia acordou, a luz do dia estava a findar, o vento
assoprava um pouco mais forte. Por momentos não soube onde estava, nem o que
significava aquele toque sincopado. Depois veio a si, acendeu a luz e atendeu o
telefone.
- Estou...
Cláudia
- Não tens estado em casa ?
- Estava no duche quando tocou o
telefone, e depois adormeci.
- Então ainda não sabes o que
aconteceu ?
- Não, ouvi a tua mensagem e
dormitei sobre ela mas não consegui adivinhar.
- Colhemos um grande fruto na
nossa cruzada pela ecologia. Liga a televisão ou o rádio. É tão importante que
o mundo não será mais o mesmo. Demos definitivamente o passo em frente em
relação ao Norte. A nossa fé no Sul, concretizou-se. Passamos definitivamente
para a frente deles em termos ecológicos.
- Estás a falar a sério ?...
Patrícia deixou precipitadamente
o telefone, dirigiu-se para a sala e ligou a televisão. Ali estava no canal de
noticias as imagens de um carro, um carro exteriormente igual a alguns que se
faziam naquele tempo, mas que estava rodeado de uma turba de fotógrafos fora do
normal. A agitação à volta do veiculo também era um pouco fora do normal.
Entretanto Patrícia prestou atenção ao que se estava a dizer.
Comentador de reportagem.
- Muitos não querem acreditar,
muitos preferem esperar e ver, mas muitos já o tomaram como um facto consumado.
Um jovem dizia-nos à pouco numa entrevista algo que todos sentimos “A
consciência de um amante da Terra está mais limpa com um carro que não emite
gás venenoso.”
Patrícia voltou ao telefone,
atendeu na sala e disse :
- Ainda estás ai ?
- Então. Não é uma maravilha,...?
- Surgiu como resposta aos nossos
anseios de uma atmosfera mais limpa
- Está pronto a ser
comercializado a partir do inicio do próximo ano...
- A industria automóvel do Norte
é que vai sofrer um rude golpe...
Naquele momento ninguém conseguiu
estar sozinho, as praças encheram-se de gente, as Vozes reconheceram o CLM em
que tinham acreditado no principio, o caminho era aquele, a procura de novas
soluções. O chão da vida daquelas pessoas era o seu sonho. Tinham dado um passo
de gigante na não agressão à Terra. Depois de todo aquele céu disfarçado, eles
começavam a conseguir o que realmente se tinham proposto a fazer. ...” Adeus
monstros a gasolina, adeus motores do bem e do mal, nós somos livres de nos
deslocar sem estar a envenenar a atmosfera...” ... Antes disto, os cidadãos do
Sul, na sua saúde e sua alegria não deixavam de ter dois tumores a roer-lhes a
consciência. A humanidade ali ao lado, a sofrer e eles sem podetrem fazer nada,
e a Terra, a ser ferozmente asfixiada. Um deles tinha levado um alivio tão
grande, tão grande que só cabia num sonho. Aquele era tempo de celebrar o
sonho, de se celebrarem a eles próprios. Não resolveram o problema do mundo,
mas resolveram um dos muito graves.
No ano de 2007 aconteceu o
extraordinário lançamento no mercado do XR2, o primeiro robô humano ao qual se
podia legitimamente chamar androide. Executava praticamente todas as tarefas
físicas e de atenção em grau um e dois de dificuldade. Continuava a existir o
lugar do especialista, do grande artífice, do operador especifico. O lugar do
criador, do artista, do sonhador tinham sido salvaguardados para os seres
humanos.
As intenções do CLM (que a partir
de 2004 tinha conquistado os quatro governos dentro do Bloco do Sul) foram mais
no sentido de comercializar o produto com o mercado externo do que pô-lo de
imediato no mercado interno. A elite do partido esteve sozinha nessa luta
contra a vontade da maioria. No entanto, inesperadamente, essa estratégia
passou. Depois de apresentações bem conseguidas terem feito passar que o androide
era bastante fiável, os privados apressaram-se a comprar androides e a
dispensar pessoas. O CLM foi muito criticado por aquele disparar do desemprego.
Em 2009 o Bloco esforçava-se ao máximo por não vender aos privados do Sul, mas
mesmo assim, se bem que não ao ritmo do que sucedeu no Norte a taxa de
desemprego também disparou. Certas pessoas tinham ódio de morte aos do Sul.
“fizeram uma maquina que dispensa o ser humano, para que servimos nós agora?”.
Os cidadãos do Sul começavam a estar incrédulos perante o uso que o CLM estava
a fazer do androide.
Foi nessa altura que o CLM revelou
as suas intenções. Começaram a dispensar pessoas dos seus postos de trabalho
sem no entanto deixarem de lhes garantir os salários. Ao nível dos trabalhos
mais duros e indignos os cidadãos começaram a ser libertados... “este é o
inicio da Grande Libertação”. Quem quisesse não trabalhava, assinava um
Contracto de Evolução e tornava-se estudante. O dever de todos os que optavam
por esta via era educarem-se para estar à altura das discussões. O trabalho era
feito com eficiência. O androide não tinha ferias, descanso semanal ou
feriados. Duas vezes por ano era totalmente revisto, e depois era recolocado.
Os cidadãos estudariam até
estarem graduados e depois exerciam o que amassem fazer. O mais importante eram
os diálogos e a comunicação. Cada um procurava expandir as suas capacidades em
expressão, interpretação e compreensão. Só minimamente esclarecidos podiam
perceber o que estava em causa, o valor da sua liberdade era a força do seu coletivo.
Mas o coletivo não é algo abstrato que só existe no conceptual. Eles sabiam que
coletivamente existiam de facto, havia uma Alma comum, havia varias almas
comuns. Tinham de cuidar do seu destino, tinham de tomar decisões e tinham de
as ponderar. Por isso não foi surpresa para ninguém quando anos depois foi
proposta a lei do voto restrito. “Quem não se interessa pelo comum não deve
votar. Quem quer estar fora da política está fora dos problemas, não pode
decidir sobre eles. Quem não percebe os problemas e não se interessa por
perceber é menor, os menores não votam. O ser humano só se emancipa na idade
adulta. Só ai nasce livre, pois como ser nasce tutelado. Tem de haver igualdade
nas oportunidades para os menores se dotarem de razão”.
Em 2014, as universidades, as
praças, os jardins os anfiteatros e os parques, eram o centro da vida social.
As ágoras das vozes eram a essência, eram a força. Do confronto de opiniões
sabiam os dirigentes do CLM tirar as mais razoáveis, mas muitas vezes também se
aventuravam a ir contra a maioria. Não havia aquela cegueira que diz que a
maioria tem sempre razão O CLM manteve a chama acesa, a esperança que os levou
a saltar ainda estava muito viva e presente. A força dos argumentos era de
peso, mas havia também um Sentimento profundo que ajudava a percecionar o
melhor caminho. Digamos que eles utilizavam a ciência para se esclarecerem
sobre as coisas, mas não faziam dela tirana perante as decisões que tinham de
tomar.
O primeiro nível de necessidades
começou a ser superado (2015), já quase todos tinham casa, alimentação, e
educação garantidas. A grande maioria tinha uma ocupação. (Faltava ainda
pequenas grandes coisas, como ocupação para certas pessoas que não tinham animo
para procurar). Reconheciam-se na maneira como se apresentavam (look), tinham
as portas abertas no campo da educação. A saúde não era paga, assim como a
maior parte das coisas, mas os espaços (terrenos rurais e urbanos) continuavam
inflacionados.
O caminho da procura do Ser foi o
mais requisitado. Este na parelha com o problema do Ser Humano. Os cidadãos
tinham um interesse novo sobre o que eles eram, com o que poderiam fazer
consigo próprios, e quais eram realmente as peles do seu ser. Agora que estavam
livres podiam realmente olhar e perguntar, desvendar aqueles caminhos que
sempre ficaram para trás por falta de tempo no corre corre da vida que tinham
antes.
CAPITULO II
Depois de ter lançado o androide YP
em 2009, Leonardo (com 44 anos de idade) abandonou o departamento de robótica
para se dedicar exclusivamente ao ensino. Mas nesse mesmo ano conseguiu ser
integrado na recém-formada Equipa Exploração Espacial, e Leonardo partiu da Terra
pouco tempo depois do CLM ter anunciado ...”a Grande Libertação”....
No momento de partir, olhou para
trás, e quando sentiu a rampa de lançamento a ficar cada vez mais distante
pensou para si:
-...para onde vou eu, lançado
nesta corrida em direção ao céu estrelado? Sentia-se a ir para muito longe,
para tão longe como nunca tinha estado. Agora era a Terra que ele via a ficar
para trás ...”Vê-la lá longe, tão iluminada, tão suave. Tão cheia de mistério e
de contraste. Quem é que adivinharia os problemas com que nos deparamos estando
lá. Parece dormir, parece deixar-se levar num sono leve, tão plácido, tão
divinal. Como tinham razão os homens que a ponham no centro do mundo, realmente
ainda não vi nada igual...”.
Em 2014 Leonardo foi destacado
para a base Júpiter DL14, num dos satélites de Júpiter. Procuravam-se novas
fontes de energia. Um mineral, uma rocha, um liquido ou um solido, um gasoso ou
algo...
Júpiter EC54
Ano Cristão 2015
Quinta feira, 17 de Setembro
Hora sideral : 14:45
(Leonardo e Frank perante
Haiselman...)
Depois de se terem desembaraçado
do material de campo, Leonardo e Frank dirigiram-se à central e entraram no
gabinete de Haiselman.
Leonardo para Haiselman :
- Então Rogério, alguma novidade
?
- Não, as coisas continuam na
mesma. São as picardias habituais do confronto Norte Sul, quando os blocos
económicos e ideológicos não se entendem, o mundo dá nisto...
- Rogério... precisamos de falar
contigo, surgiu algo código Beta.
- Como ?
- Surgiu L23 a cem por cento.
- O quê ?
- Nem eu nem Frank queríamos
acreditar, mas estende-se numa área bastante vasta, quer em comprimento quer em
profundidade.
Rogério ficou um pouco em
silencio, depois dirigiu-se a Leonardo e disse .
- Deixa-me ver as leituras.
Leonardo entregou a Rogério o
Indicador com as leituras e analises efetuadas nas ultimas 2 horas.
Rogério
- Então é disto que andamos à
procura desde o inicio dos tempos...!?
Frank
- Eu não estou a gostar do tom
disto. Tu (dirigindo-se a Leonardo), dizes que vais fazer o relatório em
conjunto com o Rogério, mas o relatório que vocês vão fazer é que me está a
inquietar. Os dirigentes querem abafar uma coisa destas ? Eu não me quero
calar, o relatório que vais fazer não é o teu relatório, é nosso. Esclareçam-me
se querem que eu alinhe no que se está a pensar em fazer.
Rogério.
- Calma Frank, tu sabes como
estão as coisas na Terra. o Norte, liderado pelos Estados Unidos perpetua uma
maneira de estar na vida que já não nos interessa. No Sul tentamos viver de
outra maneira, tentamos libertarmo-nos da escravidão da Economia. No Norte a
Economia dirige a vida dos cidadãos, estão presos a um ciclo vicioso, que os
leva a esquecerem-se de que o que interessa é a vida e não a Economia. Fizeram
de um instrumento o fim. Nós, os quatro grandes do Sul, tentamos encontrar
outro caminho, podemos ainda não ser muito diferentes deles, mas ao menos não
alinhamos com o baixar de braços do seu Existencialismo quanto ao sentido da
vida em geral. Para nós há teleologia, a vida não é um absurdo, é um
caminho..., um processo, um percurso. O universo tem um comando, segue
determinado trilho, houve um plano inicial.
Frank
- Sim, isso é tudo política e
filosofia, a Nova Esperança, mas a diferença está apenas ao nível das
intenções. Agora que a humanidade encontrou a energia pura, nós somos iguais a
eles, já queremos o L23 só para nós.
Leonardo
- São interesses antagónicos, eles
perpetuam um caminho que a nós não nos serve. Ainda não descobrimos o nosso
caminho, mas estamos um passo á frente deles, pois sabemos que aquele caminho
não nos serve.
Frank
- Sim, tu tens uma maneira mais
prosaica de dizer as coisas, mas vai dar ao mesmo, vivemos num mundo de
interesses.
Rogério
- Tem de ser assim, nós temos
direito a uma posição própria, assim o fizemos, desvinculamo-nos das suas
políticas e por isso eles pensam que estamos contra eles.
Frank
- O que se está a pensar fazer em
relação ao L23 ?
- Em principio vamos manter isto
dentro do Centro de Investigação..
Leonardo
- Quanto ao relatório ?
Rogério
- Eu elaborarei e assinarei o
relatório. Quero que por agora tirem uma licença. Não pensem que os estou a
afastar do que se encontrou aqui hoje, quero apenas que passe algum tempo para as
estratégias serem definidas e vermos como vão ficar as coisas. Nada será como
antes, esta nossa vontade de fazer um mundo novo ganhou hoje a sua alma. Com o
L23 podemos realmente afirmar os nossos valores como melhores que os valores
caducos do Norte. Eles estão a pressionar-nos para que voltemos a alinhar com
as suas políticas, começam a ver o mundo a fugir-lhes debaixo dos pés. Se já
estávamos determinados a não seguir por ali, agora parece que Deus nos deu um
sinal que estamos certos.
Leonardo
- Ia-te mesmo pedir que me
deixasses voltar á Terra, já estou aqui à demasiado tempo. Gostaria que me
encontrasses funções em Curitiba.
Frank
- Eu quero ficar aqui, vais ter
de ter equipas a vistoriar o local da descoberta, e eu acho que já viste que
podes contar com a minha descrição quanto ao facto.
Rogério
-Tudo bem, eu confio em vocês, tu
(para Leonardo), vai lá para a Terra, tenho um pressentimento que não vais
voltar á exploração espacial por alguém tempo. Frank, passas a ser chefe de
equipa, quero saber a verdadeira extensão da fonte. Quero a área delimitada e
selada, depois começamos a recolher amostras para começarmos a testar as
aplicações.
Segunda-feira, 21 de Setembro.
Leonardo começou a sentir-se
diferente, percorreu-o uma emoção forte. Olhou e viu-a, a “Pérola Azul” estava
diante dos seus olhos. Um ponto infinito, perdido na imensidão do cosmos,
insignificante perante a grandeza do Ser, mas no entanto tão preciosa, tão
única, tão acolhedora. De volta a casa, Leonardo chegava ao fim do dia ao porto
espacial de Buenos Aires. Mesmo ao lado do porto espacial ficava o porto aéreo,
onde Leonardo ia tomar um avião para Curitiba. No trajeto entre o porto
espacial e o porto aéreo, Leonardo encontrou Rui Pedro, um ex. colega da
faculdade.
Leonardo
- Então Rui, desta vez vais para
onde ?
- Vou para Los Angeles. O John
Laques com outros pintores de vanguarda está a organizar uma exposição lá.
Vamos fazer uns belos saraus, está lá muita malta, não queres vir ?
- Não, entrei agora de férias,
mas tenho outras coisas a fazer.
- Tudo bem, mas olha que ficas a
perder, íamos estar em convívio, em dialogo, circular ideias, fazer correr a
cultura...tudo bem, já sei que não comungas com os círculos culturais do norte,
mas olha que, apesar de agora dizermos à boca cheia que temos um novo rumo,
ainda temos muito que aprender com eles.
- Eu sei onde acabam sempre esses
teus saraus da cultura velha, nunca se chega a lado nenhum porque prevalecem
sempre as posições antagónicas, não há acordo porque cada um dos interpretes
quer fazer prevalecer o seu ponto de vista. Não estão à procura da verdade,
estão à procura do confronto para vencer. O confronto filosófico, do meu ponto
de vista, não tem como objetivo fazer prevalecer qualquer opinião ou saber
particular.
- Pronto, este é o nosso ponto de
rutura, tu procuras a verdade, chamas verdade à melhor tese, e de tese em tese
nos vamos aproximando de um conhecimento mais exato. Para ti a verdade é essa
tese melhor que substituirá a vigente. Para mim, essa verdade não existe, só
existem teses, teses que se suplantam umas às outras, para quê complicar, para
que falar em verdade, o que é isso da verdade ?
- A verdade é o caminho. Um
caminho que temos de percorrer até ao momento da Grande Liberdade, o momento do
Ser. Antes de atingir-mos esse ponto não podemos fugir ao determinismo, tudo é
ante Ser. Há uma senda da humanidade que se tem vindo a cumprir, e não podemos
fugir ao nosso destino. Isto revolta muita gente, que se põem com círculos à volta
do segmento principal, tentando encontrar outros caminhos alternativos, mas no
fim das épocas, a linha acaba sempre por seguir o seu rumo.
- Essa é a tua prisão. Esse teu
determinismo circunscreve-te as vistas. Não te entregues a um destino feito,
tenta antes pensar o mundo como um infinito de possibilidades.
- Mas ai é que está, eu penso-o
assim, só que para o ser que somos, ainda não temos maturidade para lidar com
esse infinito, por isso temos antes de nos desenvolver. Crescer para ser, nessa
linha, eu acho que o determinismo tem todo o sentido. Deus deu-nos um mundo
infinito, no entanto, ainda não o sabemos gerir. Ser humano é isso, aprender a
desenvolver potencial e a gerir o poder, e acredita, que o poder humano é
imenso. Como ainda somos apenas crianças, os brinquedos mais perigosos estão
fora do nosso alcance. Ainda não jogamos na plenitude, ainda não nos efetivamos
realmente. Por isso temos tanta dificuldade em dizer quem somos, estamos em
processo, estamos em mudança, assim como o próprio mundo...
- Não quero continuar com esta
discussão. Diz-me antes, como é que são as coisas em Júpiter ?
- É um recanto tranquilo,
inventário, e investigação de materiais novos. Deu para por a leitura em dia,
deu para estudar a fundo certas temáticas que tinha de clarificar, enfim, foi
um bom retiro, mas agora já não volto para lá.
- Então, não aguentas-te mais
estar longe de casa ?
- Vou desenvolver um projeto em
Curitiba, pedi transferência para lá.
- Olha, eu depois desta exposição
penso em ir passar uma temporada na ilha, se quiseres aparecer, já sabes o
caminho.
- Se calhar dou lá um salto num
fim de semana.
- És sempre a mesma coisa, porque
não vais lá passar uns dias, olha, até te digo mais. Estás de férias, precisas
de descansar um pouco, vais já para lá, ficas lá à vontade, depois da exposição
eu vou lá ter contigo. Vou ficar uma semana nos Estados Unidos, tu vais para
lá, relaxas, fazes praia se te apetecer, se não te apetecer fazes uns passeios
pelos campos, preparas-te, que depois eu vou-te dar umas tareias filosóficas.
- Tudo bem, é isso que vou fazer,
depois do fim de semana vou para lá.
- Se quiseres levar companhia,
também já sabes que o limite é levares duas pessoas, não faças como o outro que
me encheu a casa de gente que nem ele conhecia.
- Eu devo ir sozinho, vou mesmo
desligar um pouco, e brincar lá com a rapaziada, fazemos umas surfadas, bebemos
umas canecas e tá se bem.
Bem protegida, a descoberta do
L23 ficou em segredo durante três anos. Em 2018, depois de verificada a sua
aplicabilidade a unidades industriais, e se concretizarem as intuições que iam
no sentido de se poder suster qualquer tipo de maquina com a nova energia, com
pompa e circunstancia o facto foi tornado publico.
Dois meses depois, os veículos de
transporte que faziam a comunicação entre Júpiter e a Terra quebraram as
comunicações. Algo se tinha passado, normalmente sabia-se quando as
comunicações estariam difíceis ou ia haver anomalias. As naves desapareceram
simplesmente dos sensores. Ninguém sabia o que lhes tinha acontecido.
Dois dias depois um dos
dirigentes do CLM acusou o 2º destacamento lunar, (militares de elite
britânicos) de ter feito um ato de pirataria espacial. O governo britânico
apressou-se a negar tudo, mas o facto é que os serviços secretos de sua majestade,
se tinham servido de um pequeno grupo de oficiais, para se apoderarem das duas
unidades de L23 que seguiam a bordo das naves. No Sul a decisão estava tomada,
as carreiras estavam suspensas até as naves se poderem fazer acompanhar por
escolta. Para já, teria de se fortificar o posto de origem. O projeto levaria à
construção de uma esquadra espacial e de duas bases militares, uma em Júpiter,
outra na Terra. O Norte endureceu as criticas e ameaçou com um bloqueio às
entradas da energia se o Sul não estivesse disposto a partilhar o filão de
Júpiter.
Em 2020 o mundo novo era já muito
diferente. O Sul era um oásis fechado, de costas voltadas para o passado
recente. Tão cheio de comunidade mas ainda longe de Humanidade. (Ponto sobre a
pré humanidade ;as humanidades menores/fragmentos humanos/culturas/cacos)
O que movia os cidadãos do Sul
era uma vontade de andar, de estar a caminho na procura de algo, de melhorar a
existência humana sem sugar o planeta. Movia-os uma vontade de dialogar, de
participar, de se integrarem na Alma que é mais que humana, que é mais que uma abstração,
que os fazia sentir bem, e os levava na superação do ante Ser.
Em 2020, o Norte agonizava
perante vários desequilíbrios que se traduziam afinal em termos económicos. O
fosso entre famílias abastadas (que se protegiam mutuamente e se relacionavam
em circuitos fechados) e famílias cada vez mais carenciadas resultava numa
instabilidade social crescente. O Norte não se tinha conseguido resignar em
relação à perda de hegemonia na economia mundial. Os governos geriam muitas
vezes à margem da vontade das pessoas. Muitas pessoas queriam mudar, muitas
estavam sem trabalho. Alguns queriam a ideologia do Sul, outros odiavam o Sul
por lhes ter desgraçado a vida.
Em 2019, um grupo de radicais
islâmicos deflagrou um engenho nuclear no deserto do Saara. Com isto quiseram
mostrar ao mundo que tinham a bomba atómica (aquele grupo islâmico fazia
...”terrorismo de exibição”...., destruíam infra estruturas, edifícios e
veículos, mas sempre com a preocupação de poupar vidas humanas). O Norte
continuava a perder a guerra contra os extremistas radicais. Não havia maneira
de os conseguir vencer enquanto continuassem a existir as Bombains, os Bangladeches,
as lixeiras em Teerão onde as moscas gravitam em superioridade numérica à volta
das pessoas. Enquanto houvessem condições sub humanas de existência o Norte não
conseguia vencer o terrorismo. (O Sul era “não alinhado” ).
No Norte imperava um
individualismo que chegava a chocar, as assimetrias materiais ao nível da
sociedade acentuavam-se cada vez mais. Era cada um por si, pela sua família,
pelo seu bem estar. Por isso é que o Sul tinha virado as costas aquele mundo.
No Sul os cidadãos só se sentiam bem integrados. A ideologia do CLM apontava
para a liberdade. Mas o que era a liberdade ? Para o Sul era esse grande sonho,
a grande imagem poética que transportava o mundo para melhor. O Sul cresceu, da
procura de um novo caminho, o CLM estava agora na posição onde os grandes
vacilam. No princípio tudo era um sonho. Os dirigentes do CLM tinham conseguido
gerir os seus sonhos mantendo os pés no chão. Depois ...“todos são
surpreendidos quando o chão é o sonho e tu já não sabes onde estão os teus
pés”... Haveria estratégia ? O CLM dirigia os Quatro, mas conseguiria dirigir o
mundo ? Queria o CLM dirigir o mundo ? Havia repressão perante os simpatizantes
do Sul no Norte. Havia uma perseguição, quase como a que os Estados Unidos
fizeram com a lista negra em relação aos comunistas durante a Guerra Fria .
Muitas vezes foi pior, famílias de simpatizantes eram brutalmente espancadas
por grupos de jovens protegidos por certas elites governamentais. Cláudia,
Patrícia e Sérgio tinham dado o salto para o Sul no ano de 1995,
estabelecendo-se então na cidade de Curitiba. Livraram-se assim dos sofrimentos
que muitas pessoas que eles conheciam viriam a passar. Em 2020, o capitalismo
cada vez mais selvagem tinha dado naquilo, as ...”cento e vinte famílias”...
continuavam a dirigir aquele mundo. Os ricos, e os pobres que não tinham
trabalho, que não conseguiam sustentar as famílias e que mal se conseguiam
aguentar. O Sul prosperava e contrastava com o clima cinzento no Norte. O
esclarecimento era o mandamento, a negligencia o maior pecado. Viviam para se
ajudar na escolha do melhor caminho. Continuava com eles aquele sonho antigo de
salvar o Ser Humano e a Terra. Tinham melhorado as suas existências, tinha-lhes
sido dada a possibilidade de viver. Perante isso alguns voltaram costas,
desinteressaram-se, passaram o seu tempo a fazer nada, a desconstruir. Era uma
pequena minoria. A maior parte dos cidadãos viu que poderia viver melhor se se
desenvolvesse, se de um construir tirassem as respostas para encontrar o
caminho.
Perante o seu intentar, perante a
sua perseverança, os cidadãos do Sul tinham conseguido o céu, mas este céu
tinha um amargo de boca, e este situava-se bem nas suas costas, no mundo que
sufocava atrás dos muros que os circundavam. O problema da criança que chora
continuava ali. O CLM melhorou a parte, mas a parte não chegava para aqueles
integralistas humanistas. ...”Como podemos revolver o problema dos cidadãos do
Norte sem nos impormos pela força ? As economias das famílias perpetuam o fosso
entre ricos e pobres. Enquanto não se libertarem das famílias, das
corporations, dos senhores feudais, a humanidade falha. Mesmo nós que vivemos
como os gregos, que escravizámos a maquina e libertámos o ser humano, mesmo nós
que sentimos que vivemos no «melhor dos mundos possíveis», não conseguimos ser
plenamente felizes enquanto eles sofrem”. Os cidadãos do Sul tentavam
libertar-se com os seus transes, com os seus rituais, as suas danças, os seus
jogos, as suas atividades que procuravam a evolução física e espiritual. As
pessoas continuavam à procura da vida. As pessoas continuavam à procura da compreensão,
do entendimento mutuo, das pontes para a comunicação. As pessoas queriam
compreender os seus sentimentos, mas não só os seus, queriam compreender os
sentimentos dos outros, queriam compreender os sentimentos do mundo, os anseios
da mãe Terra, as necessidades cósmicas, e o determinismo Divino, que os levava
a uma posição de teleologia. O mundo ainda se estava a fazer, aquele a que
muitos chamavam Ser não passava de um ante ser, de algo processual que se
desenvolve sem magoa ou piedade por nós, os humanos, que em tudo isto, não
somos mais que“ alcatrão na estrada da história”.
Certos cidadãos no Sul ainda se
sentiam perdidos. No meio de todo aquilo faltava algo. O Sul vivia bem, mas
grande parte do mundo continuava mal. Parecia que a espécie ia com a sua
passagem libertando uma tripa de dejetos que envenenavam o mundo. Certos cidadãos,
mesmo com o nível 1 de necessidades satisfeito continuavam a ser mesquinhos,
continuavam a ser infantis, a dizer eu, eu, eu. O Novo Acordo não se coadunava
com crianças a fazer que são homens. A Physis falava, deixava fluir a sua
aspiração, levava os humanos. Mas queria que eles crescessem. O homem nuclear
tem de ser adulto.
Sérgio sentia-se por vezes
desconfortável, por vezes em agonia naquela luta Norte – Sul. Sentia sempre
algo, não o conseguia esquecer. Estava-se a limpar a Terra, mas os cidadãos do
Norte também eram humanidade. Não se podiam fazer assim dois mundos.
...”O integralismo humanista é
uma grande mentira. Defende o cidadão no Sul, mas pouco se importa com as
lagrimas do Norte. Vira as costas ao norte como o Norte as virou ao terceiro
mundo durante o Século XX. Nós alimentamo-nos e engordamos da vossa miséria, e
isto, quando realmente olhado traz muita dor à alma. As crianças que crescem em
ambientes infestados, qual é o professor que lhe vai dizer, acorda para a vida,
abre os olhos, desperta. Se ela o faz, não suporta. O coração das crianças
nasce puro, e ofende-lo daquela maneira é um dos crimes mais hediondos. Se
queremos plenitude, temos de saber amar, temos de saber medir, temos de saber
que a verdade do momento é apenas a verdade do momento. Ainda nos falta um
grande passo, ainda não somos totalmente self made minds, ainda não realizamos
plenamente o Novo Acordo. Ainda mentem um pouquinho os cidadãos do Sul. Ainda
falham muitas vezes a medida do seu amor perante os diversos graus do seu Ser.
Por vezes ainda lhes falha intenção e são por momentos dominados pelo medo. Os
do Norte não querem dar o braço a torcer, os do Sul tem uma política rígida e não
querem interferências externas. Uma herança que ficou do século XX foi a de que
um homem não pode impor a sua visão do mundo a outro. O outro tem de se
entregar de vontade. Só há união verdadeira quando a entrega é livre. A ainda
não estamos lá, estamos a caminhar, mas ainda nos falta muita coisa...”...
O mundo estava neste tom. O sul
fazia a luta da interioridade, tinha procurado mudar as mentalidades, mas as
mentalidades viraram as costas ao outro de si. No Norte perpetuava-se a agonia
dos que são ultrapassados pela história. O Norte tentava gesticular, tinha
ainda as armas nucleares, mas o florescimento , os novos já não o podiam
contar. Na mudança começaram a chegar ao poder governos pró CLM, e as tensões
multiplicaram-se. Os progressistas e os conservadores fizeram outra vez o mesmo
que as cidades gregas depois da queda do império do grande. As querelas ainda
minaram mais as débeis situações económicas, muitos culpavam o Sul de tudo,
defendiam abertamente o conflito armado. ...” aqueles comunistas, budistas,
vegetarianos, artistas, espiritualistas e afins, trouxeram a miséria às nossas
ruas”. Certos países provocavam deliberadamente os Quatro para a guerra, mas
nenhum tinha a coragem de abrir diretamente as hostilidades.
CAPITULO III
AFRICA DO SUL
Cidade do Cabo
Ano : 2022
Kurt[2] estava em casa, olhou o
relógio, marcava 11:59. Sentou-se no sofá e ficou um pouco out da realidade.
Parecia que tinha entrado num torpor onde a mente é tudo e nada. O
pensamento-sentimento, aquela mescla sincrética de graus de apreensão do real
levava-o, e ele deixava-se ir como quem sonha. Sem estar com muita atenção mas
no entanto com o seu intelecto acesso, a sua memória retinha emoção.
Estava longe, e olhava fixamente
para um chinelo sem se aperceber. Num momento o chinelo levantou do chão e
subiu cerca de trinta cm, caindo depois desamparado como se alguém o tivesse
atirado ao ar. Kurt acordou da letargia em que estava, ficou espantado com o
que tinha acontecido. De alguma maneira sabia que tivera algo a ver com aquilo.
Fixou-se num ponto a refletir. Não ia ficar por ali em relação aquilo. Se
tivera o poder para de alguma maneira mover aquele objeto tinha de saber como
isso funcionava. Tentou faze-lo outra vez, desta vez como “experimentação
cientifica”. Abandonou-se perante o espaço e tempo, e deixou o espirito à
deriva fixando-se mais uma vez no chinelo. O chinelo deu um ligeiro gesto,
quase como quem não se quer mexer, mas algo estava ali diante dos olhos de
Kurt. Durante três horas Kurt fixou-se naquela experiência, no fim delas, o
chinelo saltava regularmente na casa dos vinte e poucos cm.
Kurt, depois de comer qualquer
coisa e descansar um pouco, passou a outros objetos, e viu que, depois de uma
sincronização correta, também os conseguia mover.
Resolveu mudar de terreno. Alugou
uma casa isolada para ficar uns tempos, e por ali ficou, sozinho com a
natureza.
Instalou-se, e no dia seguinte
iniciou o treino. Resolveu tornar-se mestre e aluno no que estava a fazer.
Resolveu colocar a “frente de ataque” (Filosofia, Ciência, Religião) em pleno
perante aquele desconhecido. A partir dai, em tudo o que fizesse, servir-se-ia
das religiões, das filosofias e das ciências. “ O que tenho perante mim é tão
poderoso e desconhecido, que só o Organismo Integrado me pode responder”.
Nos seis meses seguintes Kurt
trabalhou que nem um louco. Estabeleceu um esquema rígido de trabalho, com
rigor e disciplina registou e documentou tudo o que se estava a passar. No fim
desse tempo, Kurt não só deslocava qualquer objeto inerte, como conseguia
deslocar o seu próprio corpo em levitação, e desmaterializar e observar as
coisas sendo apenas espirito. Mudava a liga a qualquer objeto, transformava
pedras em qualquer coisa, transformava qualquer coisa inanimada em qualquer
coisa inanimada. Controlava mentalmente qualquer engenho mecânico e
informático. Descobriu que podia acionar uma cápsula em sua volta, que lhe
servia de escudo e onde podia visualizar os controles principais. Depois desta
extraordinária descoberta, Kurt ainda se apurou um pouco. Dias mais tarde Kurt
abandonou a floresta pela manhã e dirigiu-se em voo invisível para Roma.
Estava um dia a querer chover,
mas o tempo mantinha-se teimosamente seco. Kurt chegou à praça de S. Pedro, e
invisível como estava ninguém deu por ele. Recolheu-se dentro da cápsula e acionou
o radar. Viu que havia demasiadas pessoas ali para surgir repentinamente.
Dirigiu-se para um recanto e depois de se assegurar que ninguém o veria num
primeiro momento, tornou-se visível. Avançou uns passos para o centro da praça
e ficou um tempo a olhar, pois nunca tinha estado ali. Repentinamente
centrou-se no assunto que o trouxera. Acionou a língua italiana para o exterior
e falou:
- Povo de Roma e povo do mundo.
Perante esta imponência que é a igreja de Cristo, venho reclamar o meu trono.
Olhai, olhai, vejam estes pães nestas cestas a aparecerem do nada, vejam estes
jarros de vinho...”
À sua volta as pessoas ficaram
completamente assustadas. Kurt aproveitou o balanço e caminhou sobre aguas
postas ali de improviso. Ali houve uma explosão de histeria. Umas pessoas
afastaram-se a correr, outras gritaram, outras sideraram simplesmente. Os
padres acorreram apressadamente...
- Quem é o senhor, o que faz aqui
?
- Conhecem-me por Kurt, mas o meu
nome é George, George o Cristo, ou o anti se me quiserem ver assim. Neste
momento cheguei onde ele chegou, cheguei onde os grandes chegaram, penso que
não foi por acaso. Venho aqui liberta-lo das ocupações que exerce na minha
igreja.
Jorge levitou a três metros de
altura e disse:
- Já estão aqui pessoas
suficientes para o testemunhar. Não é um truque, não é um sonho. Sou o líder
espiritual da humanidade.
Vários vídeos amadores captaram
as mesmas imagens que foram difundidas pelos canais de informação em três
segundos. No momento em que as imagens eram difundidas pelos canais de todo o
mundo, já Kurt estava em Washington a quinze metros da Casa Branca. Falou em
inglês:
- Senhor presidente, venho lhe
dizer que já não necessita de ser policia do mundo, já não precisa de ser
governante, porque a partir de agora haverá um só governo.
Kurt foi rapidamente interpelado
por vários seguranças. Libertou-se deles sem dificuldade e deu uns passos em
frente. Foi imediatamente brindado com uma chuva de balas. Elas desapareceram
antes de o atingir. Num segundo desarmou toda a gente. As armas desapareceram
simplesmente num raio de 5 km.
- Agora escutai! Isto é o que eu
posso fazer com os vossos mísseis e as vossas bombas de hidrogénio. Venho aqui
transmitir-lhes que assumo o governo mundial. Haverá uma só nação, gerida à
maneira do Sul. Todos se poderão educar e crescer, mas onde eu terei a palavra
final, e a posse sobre toda as maquinas (os meios de produção). As maquinas
libertarão também os cidadãos do Norte, e os bens deixarão de ser cobrados. Os cidadãos
poderão fazer o que amam.
Depois de se mostrar ao mundo
fazendo explodir em escala reduzidíssima uma das bombas de hidrogénio na palma
da sua mão, Kurt impôs um governo mundial e uma nova ordem. Escolheu pessoas
competentes para liderar certas cidades, deixou que outras cidades escolhessem
os seus próprios lideres. Cada uma das “grandes cidades” responderia diretamente
perante Kurt. Tratou de todos os lixos e resíduos tóxicos, ligou todo o
processo industrial ao L23 e redesenhou toda a rede de escoamento dos detritos.
Nos meses seguintes trabalhou incansavelmente até todos terem casa,
alimentação, apresentação (look), e estabelecimentos de ensino. Todos os cidadãos
tinham de evoluir, esse era o contrato de liberdade em relação ao trabalho. Só
depois de formados podiam optar se queriam ter uma vida política, opinar ou
não. Só depois de formados se podiam entregar ao que lhes desse prazer. Depois
de as coisas estarem encaminhadas Kurt instalou fantoches nas administrações
internas e retirou-se para o seu Olimpo. Deixou estar os cidadãos a viver,
convidou amigos e amigas e retirou-se para a sua ilha e para as suas orgias.
Kurt vivia o erotismo de uma maneira exacerbada, não conseguia parar de amar.
Nas ágoras os cidadãos começaram
a discutir os avanços na espécie. O que representava “aquele novo deus, o que
restava ao ser humano”. Muitos pensavam que a espécie tinha chegado à morte por
falta de objetivos materiais. Mas muitos continuavam a acreditar que no campo
do espirito ainda há tudo para andar. Muitos trocaram anti Cristo por ante
Cristo, e fizeram simbolizar em Kurt o momento de passagem para a realidade do
Ser. “se aquele senhor que vive na sua ilha não nos diz isto, temos nós de o
dizer a nós próprios.”
Os cidadãos sentiram que este céu
também “não era ainda o mundo de Deus”. Era quase, mas faltava algo. Entre os cidadãos
tinha-se conseguido superar o nível 1, mas apenas em termos materiais. A
mentira continuava, o ciúme, o egoísmo, a inveja, a vingança, a traição, e tudo
isto, dizia-se, por amor. Era essa a grande conquista que restava aos cidadãos.
“Encontrar a companheira certa ou ficar pelo que se encontra”. Muitos viviam
fora das discussões, viajavam pelos campos, pelas praias, pelas cidades, iam
conhecendo o mundo. A grande maioria estava fascinada com o surgimento daquele
Kurt. Todos sabiam que Deus não era ele, mas Kurt estava lá muito perto. Algo
tinha acontecido. Nunca o poder conhecido por sobre natural se tinha revelado
assim no mundo natural de uma maneira tão explicita.
Kurt também sentia que o Ser
ainda não se tinha revelado em absoluto. Sentia-se num momento intermédio, onde
já não se é o que se foi, mas ainda não se é o que começa a ser. Kurt sabia que
esse ultimo passo não seria dado por si. Sentia-se bem naquele estado de semi
deus. Enquanto durasse viveria, depois, conforme as coisas corressem, logo se
mudaria.
Os cidadãos estiveram um pouco
atordoados e confusos ao principio, mas dentro de si já sabiam, Kurt só era
assim porque estava mais perto de algo que todos os outros. E se era assim, os
outros, dentro de certas condições também se conseguiriam aproximar desse algo.
A consciência começou mais uma vez a despertar gradualmente, nas ágoras
passou-se a discutir quais seriam as condições. O Amor é necessário sem duvida,
mas, amor sem verdade é apenas disfarce. Os cidadãos pensavam nestas coisas, e
tinham medo. No entanto aquele medo também os fazia estar mais despertos, mais
atentos, mais centrados quando tentavam respostas serias. Saber controlar o
medo (equilíbrio de energias), era também condição. Ao principio eram muitos os
receios em falar, em abordar assim algo que se fosse verdade tornaria o mundo
no Ser, no verdadeiro Mundo de Deus. Era algo que se tinha vindo a apurar ao
longo dos milénios, mas que, perante o qual, se podia dizer,
-“este Criador omnipotente, que
nos criou à sua imagem, faz-nos desta matéria perecível porquê ? Este Criador
permite tanto sofrimento, tanta dor porquê? A vida não é um engano, não é
ilusão, não é um estoicismo amputante. A vida é bem real, a existência neste
nível tem um objetivo. Não é libertarmo-nos dele, mas sim crescer nele e com
ele. Este Criador permite tanta anormalidade porquê? Tanta fealdade porquê?
Tanta desconjuntura, tanta desopurtunidade de felicidade, tantos inadaptados,
tantos infelizes porquê? Tantas pessoas afastadas da possibilidade de agradar aos
outros porquê? Tanta incompreensão, tanto mal-entendido... (...) ...tudo isto
porque o mundo ainda se está a fazer, tudo isto porquê esta vida não é apenas
uma câmara para expurgar o Karma. São passos que caminham para algo que está em
aberto. Há ideias fechadas, há coisas que são resultado final, o logos
estático, as leis da física de Newton. Mas temos de saber que as leis da
natureza são apenas a física provisória enquanto o ser humano não dá o grande
salto. Quando o que se cose ao lume estiver pronto, quando o que está no feto
sair e vir a luz do mundo do Ser, tudo será novo e este mundo ficará para trás.
O mundo do Ser abrir-se-á, a seta atingirá o alvo, o navio encontrará um novo
porto, e depois, todos saberão que é verdade...”.
Kurt tinha sido um novo porto
para aqueles cidadãos, a partir dali tinham a certeza. Sempre o tinham sabido,
sempre tinha havido seres que tinham ido além, mas antes, a consciência
cósmica, estava ainda numa fase muito inicial. Tinha tomado aqueles
acontecimentos como extraordinários, só tornados possíveis com a intervenção de
forças superiores. Os cidadãos das novas ágoras já sabiam que as energias, as
forças superiores sempre estiveram presentes. O que as grandes mentes
conseguiram foi conectarem-se com essas energias e forças sempre presentes. No
dia em que Sérgio chegou perante uma das ágoras e anunciou que também tinha
chegado ao pleno, os cidadãos souberam que as suas intuições e conjeturas
estavam certas. Kurt também soube, abdicou do governo mundial e uniu-se a
Sérgio na divulgação dos princípios do novo Ser. O que era necessário cumprir
para que se pudesse ter acesso à plenitude. O Novo Acordo permitia ao cidadão
ultrapassar as barreiras do espaço e do tempo, da materialidade e do acesso às
Energias e às Forças. Teria de saber controlar o Poder. Por isso era uma grande
responsabilidade, por isso os seres humanos tinham de ter uma Ética muito
evoluída. Para se chegar lá tinham de ser puros na Verdade, puros no Amor. O
poder da mente era superior a tudo o que se conhecia, não poderiam ser
irresponsáveis perante a gerência da Vida.
-“ Como podemos gerir o mundo se
continuamos mesquinhos, se continuamos a mentir, se amamos a parte, se
esquecemos o todo? Só do outro lado, só sendo conscientes e responsáveis, despertos
e compreensivos, libertos, vivos, podemos aceder a uma outra maneira de viver”.
Kurt e Sérgio andaram por todo o
lado e por todo o lado começou a nascer dentro do coração e da alma dos cidadãos
esta nova velha esperança, a esperança que consiste no caminhar para o
desenvolvimento daquilo que somos. Eticamente evoluídos conseguimos interagir
nesse nível, só juntos conseguimos levar o mundo. Sérgio e Kurt foram os
primeiros, mas depois o mundo cresceu, e os seres humanos tornaram-se realmente
seres á imagem de Deus, o mundo do Criador efetivou-se. Tinham sido criadas as
condições para que o mundo do Ser tivesse nascido. Sérgio e Kurt gritaram ao
mundo que todos podiam aceder ao Ser, com um elevado grau de evolução, os seres
humanos poderiam aspirar a Ser. A plenitude perante o espaço e o tempo, a
plenitude perante uma vida com a mortalidade como opção...
Na galáxia JLP3, o projector de
hologramas foi desligado por um pai zeloso em relação ao seu filho. Eram horas
de ir dormir, o rapaz e o pai tinham revisto mais uma vez : “a história do
caminho para o Ser”,... isto foi há duas horas atrás.
Parte dos cidadãos estão neste
momento a brincar, parte deles descansam à sombra num clima aprazível. Outros
entram em competições desportivas, ou fazem arte, cinema, teatro; outros andam
pelo universo a torna-lo habitável. Com a força da mente implantam atmosferas
nos planetas mais distantes, continuam a expandir a Vida e a realizar grandes
paisagens (“Homem o pintor da tela Universal”). Encontramo-nos por aqui e por
ali, mas vivemos quase cada um no seu planeta. Ali, com companheira ou sem
companheira, com filhos ou sem filhos, com familiares ou sem familiares,
construímos um mundo à nossa medida. Qual é o objetivo? Qual é o significado?
Para nós, é a Grande Liberdade. A Vida expande-se na medida das suas
necessidades. A Verdade é luz, o Amor é fé, o equilíbrio ...ajusta as
diferenças..., a harmonia com todas as coisas é exigida. Uma célula no corpo
humano não deixa de ser ela própria quando se vê a mesma célula integrada na realidade
do corpo. Os seres humanos são como células individuais, mas são também parte
de algo maior. A Ética evoluída é condição para o Novo Acordo. Somos seres a
brincar como crianças e não crianças a cometer erros escusados.
FIM