Nº 14 - Leibniz
Ser com Dinamismo Interno
Boletim de Ideias Filosóficas
Leibniz - Ser com Dinamismo Interno
Monas é uma palavra grega, que significa unidade ou o que
é uno
Leibniz - Princípios da Natureza e da Graça
Tiveste aquele vislumbre na vida e nunca o vais esquecer. Aqueles primeiros contactos com uma realidade absoluta, quando percebeste o que isso era, é, está sendo. O Ser, o infinito, a Luz das luzes e tudo o resto. Aquela tua primeira consciencialização de que ele estava a ser, ali, perante os teus olhos, no profundo trespassar do tempo, na atualização da sua infinita possibilidade e maravilhoso mistério. Aquele primeiro vislumbre, perante o grande desconhecido, que da união entre identidade, potencialidade infinita, e a sua atualização constante (em cada momento na temporalidade), te levou a sentir que depois disso, perante essa profunda sacralidade do real, nunca mais verias o mundo da mesma maneira.
Índice
I) Introdução
II) Átomo formal - Espelhos do Universo
III) Atualização Infinita
IV) Identidade e Dinamismo
I - Introdução
Numa carta enviada a Nicolás Remond, em janeiro de 1714,
Leibniz refere que durante a sua formação estudou Aristóteles, os escolásticos,
Platão e Plotino. Posteriormente, segundo as suas palavras, emancipou-se das
"escolas triviais" e acabou por adotar o mecanicismo. Leibniz
aceitou o mecanicismo (os fenómenos explicados por causalidade mecânica) numa
certa altura da sua formação, mas como o mecanicismo era insuficiente para a
descrição do real, teve o complementar. Descartes reduzia o mundo à extensão e
ao movimento. Para Leibniz, a extensão não é suficiente, chegando ao ponto de
afirmar que a noção de extensão não é distinta, e que se pode aproximar das
qualidades que não passam de sensações subjetivas (Discurso de Metafísica
§12). Os fenómenos físicos devem ser explicados por realidades de uma mesma
ordem, mas se quisermos ir além da prática até ao ultimo sentido das coisas, as
experiências da física e as demonstrações da geometria tem um campo limitado e
muito fica por explicar. “ […] verificará
que toda a natureza do corpo não consiste somente na extensão, isto é, na grandeza,
figura e movimento, mas que importa necessariamente reconhecer nela algo que
tenha relação com as almas e que se designa habitualmente por forma substancial
[…]”[1] Rejeitando a
conceção cartesiana, que reduz o mundo à extensão, Leibniz vai demostrar que :
“[…] (vê-se bem que) o movimento perpétuo mecânico não existe […]”[2] e afirmar que a
força é a chave para interpretar o mundo, reduzindo o movimento e a extensão a
puros entes da razão.
Não aceitando a
conceção dos cartesianos (“ Acreditaram assim que o que se pode dizer da força
se poderia também dizer da quantidade de movimento.”[3]), Leibniz chega à conclusão que as questões da força e do
movimento são distintas. No §17 do Discurso de Metafísica Leibniz demonstra
que a uma determinada igualdade das forças não corresponde uma igualdade das
quantidades de movimento. Estas questões não são redutíveis à mecânica, mas
representam duas conceções do mundo que se opõem.
Devido à insuficiência do
mecanicismo para explicar o mundo,[4] Leibniz vai acabar
por reabilitar de certo modo as formas substanciais dos escolásticos, no
entanto, tendo em conta que, para S. Tomás a forma constituía uma essência geral comum,
e para Leibniz a forma substancial constitui toda a substância. “ […] e que há,
nas opiniões dos filósofos e teólogos escolásticos, muito mais solidez do que
se imagina, contanto que delas nos sirvamos a propósito e no seu lugar."[5] Para Leibniz, o movimento e o dinamismo da substância não lhe vem do exterior, mas sim de uma ação interna, de um princípio vital[6]. A metafísica de Leibniz vai afirmar-se a partir da
insuficiência do mecanicismo e da necessidade de se reconhecer e afirmar uma
potência ativa, um principio vital inerente nas formas substanciais.
II - Átomo Formal -
Espelhos do Universo
No início dos Princípios
da Natureza e da Graça, Leibniz define a substância como um ser capaz de ação,
que pode ser simples ou composta. Sendo simples se não tiver partes e composta
se for um agregado de substâncias simples. Numa carta de 1696 dirigida a Fardella, Leibniz começa a
introduzir o conceito de mónada: “a realidade parece-me consistir, em suma, na
verdadeira noção de mónada, quer dizer, de unidade real; esta unidade é um átomo
formal, pois não há átomo material e não há verdadeira unidade na matéria; esta
unidade é um ponto substancial, uma essência […]”
Estas substancias, as mónadas, são
frequentemente transformadas, sendo-o por elas mesmas (ens per se), são
unidades independentes que subsistem por si, tem um princípio de acção em si
mesmas, conatus, sendo desta forma agentes dos seus próprios estados,
transformações e evoluções;[7] são aquilo que tem e
dá unidade, têm determinadas qualidades, predicados[8], não sendo elas no
entanto predicados de outro, podem
adquirir ou perder essas qualidades. “[…] se se considerar que o que acontece a cada uma não é senão consequência
da sua mera ideia ou noção completa, uma vez que esta ideia encerra já todos os
predicados ou acontecimentos, e exprime todo o universo."[9]
Às substâncias simples vai Leibniz chamar mónadas,
existindo estas por toda a parte,[10] referindo Leibniz
a esse propósito que a natureza está plena de vida. As mónadas não têm partes,
não tem figuras, não podem ser formadas nem destruídas e duram enquanto o
universo existir. Distinguem-se uma das outras pelas suas qualidades e acções
internas, que são os seus princípios de mudança: as suas percepções (expressões,
representações do composto, ou estados interiores das mónadas representando as
coisas externas) e a suas apetências: as suas tendências, força interna das mónadas,
a sua potência activa, de onde decorrem todos os seus estados (as suas percepções),
que são actualizações dessa potência ou força, fomentando assim o seu
desenvolvimento, a passagem de uma percepção a outra. Uma vez que todas as mónadas
estão intimamente conectadas umas com as outras, o desenvolvimento de uma vai
afectar o desenvolvimento de todas as outras, e por sua vez o desenvolvimento
do universo. “[…] quando, pois, ocorre uma mudança que afecta várias substâncias (como
efectivamente toda a mudança as afecta a todas), creio poder afirmar-se que aquela
que, em virtude disso, passa imediatamente a um grau maior de perfeição ou a
uma expressão mais perfeita, exerce a sua potência e age, […]"[11]
As perceções nascem umas
das outras segundo as leis das causas finais, enquanto os fenómenos externos e
as mudanças nos corpos nascem uns dos outros pelas leis das causas eficientes,
havendo entre as perceções das mónadas e os movimentos dos corpos uma harmonia
perfeita pré-estabelecida entre o sistema das causas finais e o das causas
eficientes. As causas eficientes não satisfazem o requisito do princípio da razão
suficiente (uma razão para que algo exista), também designado como princípio da
razão determinante. Este vai esclarecer o porquê de uma coisa ser de
determinada maneira e não de outra; o porquê de nos atributos (predicados) de
cada substância[12] já estar contido
todo o desenrolar da sua trajectória ao longo do tempo, desenrolar esse que não
pode ser apreendido na sucessão das causas eficientes, mas remete para uma
causa final, para uma razão suficiente, fora da sequência das causas
contigentes, e essa ultima razão das coisas está numa substância necessária, “[…]
na qual o pormenor das mudanças esteja apenas eminentemente, como na sua fonte:
e é o que chamamos Deus."[13]
Uma substância simples, como mónada distinta, constitui o
centro (mónada central) de uma substância composta, e será o princípio da sua
unicidade. "Cada mónada, com um corpo particular, faz uma substância viva.”[14] Quando há relevo e
distinção nas impressões que os orgãos recebem, as percepções que as
representam podem ir até ao sentimento, se acompanhadas de memória, estas nómadas
chamam-se almas (e esse ser vivo chama-se animal). Quando estas almas são
dotadas de razão, são denominadas espíritos (presentes no ser humano), que tem,
para além das perceções, aperceções (consciência ou conhecimento reflexivo
dos estados interiores), e sendo capazes destes atos reflexivos são também
capazes de considerar o que se chama eu, e das ciências ou conhecimentos
demonstrativos.[15]
III - Atualização
infinita
“Assim a nossa felicidade nunca consistirá, e não deve
consistir num gozo pleno […] mas num progresso perpétuo em novos prazeres e
novas perfeições.”[16] Ao contrário dos átomos de Demócrito, as mónadas não são
realidades estáticas, (nem a identidade absoluta parménidiana), ou
uma peça de lego, estão em processo de desenvolvimento
constante ao longo da existência. Cada mónada espelha o universo, mas cada uma
percepciona-o na sua maneira singular através das percepções e apetências
(apetições), que as vão transformando para uma versão cada vez melhor de si próprias.[17] Assim, para melhor entendermos cite-se:
“[…] daí se segue que cada mónada é um
espelho vivo ou dotado de acção interna, representativo do universo, segundo o
seu ponto de vista, e tão regulado como o universo mesmo.”[18]
“[…] mas também que representando cada
espelho vivo o universo segundo o seu ponto de vista, isso quer dizer que cada
mónada, cada centro substancial, deve ter as suas perceções e os seus apetites
tão bem regulados quanto tal seja compatível com tudo o restante”[19] (também nota de rodapé 11).
A mónada é o próprio
mundo em desenvolvimento, consciencializa no ser humano, mas vai além dele, e
coexiste com todo o cosmos em ligação interior, espiritual e profunda.[20] A mónada em processo eterno de desenvolvimento é a solução (chave) para o desenlace do
real.[21]
Todas as mónadas são
individuais, mas todas estão interconectadas umas com as outras.[22] As percepções,
actualizações, de cada uma das mónadas afectam todas as outras, mas não
directamente (“Poderíamos, pois, dizer
de alguma maneira e num bom sentido, embora afastado do uso, que uma substância
particular nunca actua sobre outra substância particular e nem sequer sofre a
sua acção […]”[23]) mas
indirectamente através de Deus e das percepções de cada uma das outras mónadas,
isto é, das suas actualizações, que advêm de uma noção interna, onde está contido
tudo o que aconteceu, acontece e vai acontecer.[24] “Com efeito, nada nos pode acontecer senão
pensamentos e percepções, e todos os nossos pensamentos e percepções futuras são
apenas consequências, ainda que contingentes, dos nossos pensamentos e percepções
precedentes, de tal modo que se eu fosse capaz de considerar distintamente tudo
o que me acontece ou aparece neste momento, poderia ver nele tudo o que me
acontecerá ou aparecerá alguma vez […]”[25]
No idealismo de Leibniz, o
que existe para nós são os nossos pensamentos e percepções. As relações
internas entre as mónadas constituem toda a unidade do real, e talvez a
partir da mente criadora em Berkeley, da capacidade de pensamento criador em
Dhammapada (onde a vida é criação da nossa mente), são capazes de criar o espaço
circundante com o pensamento.[26] Tudo está cheio de
vida, vida que vêm projectada a partir do espírito. O espaço é formado pela
infinidade de mónadas, que em conexão com a sua fonte suprema, interagindo no
seu conatus, com a sua actividade interna, a sua potência activa,
impulsionam toda a mudança no real. As mónadas são emanações a partir do
pensamento de Deus, "fulgurações" da mente absoluta, micro cosmos com
circuitos e com sistema nervoso central, a sua acção no real é reflexo da sua
actividade interna. Através das causas finais o Criador determinou à partida quais seriam
as regras do jogo, e como as coisas tem de evoluir através das transformações
nas mónadas para que o seu plano se cumpra. É através de atualizações
individuais, das perceções de cada uma que se dão as transformações no
todo.
IV - Identidade e
Dinamismo
A visão moderna da natureza era demasiado mecânica. O
mundo não se pode deixar reduzir: a uma representação mecanicista do real, onde
os fenómenos (tudo o que possa alguma vez acontecer) são explicados por
causalidade mecânica; a uma máquina de identidade circunscrita, que não está a
altura para descrever a riqueza do real, a sua imensa diversidade e dinamismo.
O desenvolvimento do real esta para
lá dos padrões, que
vão além dos ciclos e dos entendimentos circulares, binários, limitados.
Leibniz tenta fazer a conciliação entre estas as duas concepções do real, cada
uma com o seu campo de aplicação próprias. Propõe um ser em desenvolvimento,
que evolui, que não está feito e acabado, que não está concluído, em acto. Cada
segmento do real tem o seu papel, temos as realidades binárias, que são modos
estáticos, por exemplo, as leis particulares da natureza (máximas subalternas)
que não estão em desenvolvimento, são assim, e assim foram estabelecidas; temos
também as realidades dialéticas, ternárias de desenvolvimento, as mónadas, o logos
dinâmico, pensamento, espírito, inteligência em processo de desenvolvimento e
evolução ao infinito. É este o avanço que Leibniz, perante o grande quadro do
real, vai instituir no desenvolvimento no todo como organismo integrado.[27] Um caminhar para, uma senda, uma dança
celestial, do deus que sabe dançar de Nietzsche, antevendo já a dialéctica hegeliana do ser que está em crescendo, e em actualizações cada
vez mais optimizadas.
Depois do
mecanicismo cartesiano, Espinosa afirmou um Deus unido ao mundo, sendo vida,
sorrindo, Deus em tudo e tudo em Deus. O seu problema não foi o
mecanicismo (embora fosse necessitarista), o seu problema foi o da sua substância
não ter realidade singular, ser apenas um Deus em acto, e dai advir que a única
substância teria de ser uma realidade concluída, sem dinamismo, um Deus que
nada lhe falta é uma substância sem potencialidade, tudo está em acto, todo o
desenlace resolvido e nada para almejar, sem isso não há caminho, não há desenvolvimento,
a realidade é um ser estático. Em Espinosa tudo se diluía num caldo. Havia conatus,
mas a força interna de cada ente provinha de Deus, que era a única substância,
o único pensamento, espirito, inteligência, e tudo o resto eram emanações de
si. Deus não estava em processo (…) pois este era Deus, pleno, em acto, feito e acabado.
O ser de Espinosa não tinha movimento, era quase uma identidade parmenidiana,
em Espinosa tudo era um.
Mas foi a moral de Espinosa, a sua ética, que abriu a
porta para o passo seguinte. Aponta para que cada ser humano se possa superar
ao ponto de se esclarecer, para que dentro de si provenha uma noção de valor
que valha a pena. Quando o ser humano consegue isso, e vive em prol disso,
deixa a moral e passa a ser eticamente emancipado. A sua ética interior
determina a sua ação (o seu processo de desenvolvimento advém de uma directriz
interna), e se estiver realmente a ver as coisas, vê-las-há bem e estará a
caminho para a sua evolução até à emancipação, para a sua singularidade como
ser de princípios e de valor.
A Ética de Espinosa leva-nos ao desenlace
de Leibniz. Se podemos aceder à liberdade, perante uma moral de imposições,
através de uma Ética madura, então os eticamente evoluídos serão indivíduos únicos
e diferenciados da Luz suprema. Leibniz fez a tradução do campo da Ética para a
Ontologia. Os seres em geral, as mónadas, serão os tais seres em processo de
virtude infinitamente melhorada. Como no pensamento oriental um ser se torna
virtuoso e sábio ao longo de várias gerações, também as mónadas ultrapassam a
realidade finita humana e concorrem para um aperfeiçoamento perene.
Há uma união profunda entre todas as mónadas, entre todos
os seres. A mónada é uma substância individual que está conectada com todo o
cosmos, com todas as outras mónadas e com a fonte a um nível subliminar. No taoísmo,
o chi faz a ligação em termos de sopro vital, a energia que nos mantém
em conexão espiritual com o cosmos. Sem sopro vital, sem oxigénio, o cérebro
humano não pensaria, se não pensasse, segundo Berkeley a realidade então só existiria
na mente de Deus, tudo seria apenas o primeiro momento de Hegel, onde o
absoluto era abstrato, sem desenvolvimento e sem a efectivação no real.
As mónadas, verdadeiros anjos, e emanações
do espirito que é divino, almas que atravessam a existência e os seres, são os
imortais vivos do sistema. E com isto o pensamento introduziu a imanência da
eternidade no real sensível. O ser, a fonte de todos os avatares, de
todos os inspirados, de todas as vidas que se tentaram construir na promoção de
“bons encontros”, está vivo , deixou a transcendência de Espinosa, onde tudo
era Ser, e o Ser era Deus, mas Deus num além, e assim, apenas a Fonte principal do ser. Uma coisa é ser
isso, e outra é trazer a Transcendência para o real e ver o Espírito hegeliano
atravessar e conduzir a história. À Monadologia de Leibniz, das mónadas
individuais e singulares, podemos perceber o que Hegel adicionou. Os agregados
de mónadas humanas fazem as equipas, os colectivos, e o grande colectivo geral
que é o Espírito objectivo. Todas as propriedades das mónadas singulares de
Leibniz, mas também a introdução destas novas caracterizações que alteram e
enriquecem todo o quadro, o aproximam ainda mais da realidade.
As mónadas evoluem, Leibniz preconizou a
grande visão, o patamar que se teria de se atingir se se quisessem fazer os
grandes quadros do real. Ou se preconizava dinamismo na realidade ou então não
passaria de identidade. O dinamismo do sistema de Leibniz é uma sinfonia de
vida como nunca até ali se tinha conseguido fazer. Aquela visão da dimensão espírito/sensível
em átomo imaterial é sublime, um átomo espiritual. Uma vertigem eterna de
processo e desenvolvimento que quase nos dá a certeza (a filosofia não é ciência),
mas que nos dá a convicção, que cada vez que nos aproximamos mais daquilo para
o qual tendemos, mais próximos estamos de Deus.
post factum
Dirigidos pela Tríade[28]
O dinamismo que se dirige a si próprio, espontaneamente,
um mundo eternamente vivo conduzindo-se na perspetiva da sua própria vontade.
O apeiron de Anaximandro, o vórtice que iniciou todo o processo cósmico,
a constituição do universo a partir da separação dos contrários. Além do mais,
as coisas deste mundo, pagam retribuição através da justiça do tempo. Heraclito
identificou-o como um Fogo vivo, um logos dinâmico,[29] uma inteligência
que se impunha no real, um indeterminado profundo que se manifesta em dois níveis:
das dualidades e do código binário, o estático, a identidade lógica de Parménides,
as leis regulares, o linear, os ciclos definidos; o logos dinâmico, as
realidades ternárias, dialéticas, processuais, em aberto..
O Fogo é o Regente
universal, provido de uma armada de espíritos,
que se manifestam no fundo da alma de cada um. Um logos dinâmico, singularidades
implícitas, que no fundo da alma de cada um se escondem[30] - No fundo da alma
o divino se esconde: S. Agostinho, Pseudo Dionísio, M. Eckart - O Fogo que
introduz mudança na realidade é o logos dinâmico, complementado pelo logos
estático que estrutura a realidade. As realidades binárias, e as realidades
dialécticas. O mundo não pode ser só identidade, para além dela há a transformação
e desenvolvimento.[31]
Leibniz e o logos
singular (explícito)
O fator singular, o destaque
singular desse Fogo - a mónada - a inteligência viva, o logos dinâmico
antevisto e sussurrado por Heraclito. O
organismo universal não é apenas Deus, como em Espinosa, mas também o seu espírito
(santo) que se infunde como divindade na existência. As mónadas participam[32] do divino. O ser
de Leibniz pressupõe essa ideia de dinamismo. A participação em Leibniz
transforma o próprio universo. A singularidade participa do divino na unidade
de todas as coisas, que em conjunto promovem a explicitação do real,[33] a actualização do
melhor dos mundos possíveis. Esse desenvolvimento, um processo, um vislumbre
para o que iria ser o idealismo alemão, o Ser com dinamismo interno.
Em Heraclito, no mundo antigo, a ligação/conexão ao infinito dá-se na mediação com o mundo natural, com a physis. Com os modernos há uma viragem para um contacto directo entre o humano e Deus. Cada um de nós tem uma mónada central, espiritual, que está directamente em contacto com a fonte divina. A génese da Reforma de Lutero, Humanismo, subjectividade, radicação de cada um à sua luz superior. Movimentos que desqualificam os intermediários e afirmam uma perspectiva de conexão directa (contacto) com a divindade. A mónada de Leibniz afirma uma singularidade que está conectada com todas as outras singularidades e com a singularidade superior. Todo o dinamismo do logos dinâmico de Heraclito expresso num sistema onde o organismo é um com todas as suas partes, unas em si, unas entre si, e unas com a totalidade do real.
Em Hegel, já não é o Deus transcendente, mas sim, o
Espirito Absoluto, imanente, como fundamento metafísico no real. O Idealismo
alemão vem clarificar e confirmar tudo isto. É realmente o Espírito que se vem
desenvolvendo, em processo, em progresso, através da História, para se cumprir.
Do absoluto abstrato inicial para um vir à existência. O absoluto, para se
materializar e ganhar sensibilidade no mundo físico, para descobrir também ali
o Espírito, e o veiculo para desenvolver a sua plenitude, manifesta-se no espaço
e no tempo, passa desta forma a universalidade concreta abarcando toda a
realidade possível. Do devir instantâneo surge o tempo e o espaço, que permite
a emergência do ente determinado, iniciando assim o processo da realidade.
Através do humano (comunidade de espíritos racionais) o Ser regressa a si,
concretizando assim a realização e atualização do Absoluto na sua plenitude.
Ser à imagem e semelhança da Luz superior, ou os sete
dias da Criação, que podem ser reinterpretados como o sexto dia ainda a
decorrer. Ainda poderemos estar a viver o sexto dia, podem ainda não ter
passado os sete dias de Deus. Após o grande meio dia desse sexto dia,[34] o Criador já não
pode fazer nada pela obra nem impor a
Liberdade. O criador, que quer um ser livre à sua imagem e semelhança, lançou
os seus dados, mas terá de ser a criatura a fazer a escolha: quer ser livre, à imagem
e semelhança do criador, ou não. Se não o quiser, se não se quiser elevar a
uma ética superior, a uma virtude que nos levará a um encontro com a plenitude
de nós próprios, a natureza se encarregará de eleger outra espécie para
realizar os intentos do Criador. Para Leibniz, embora nós não consigamos
antever o que será, Deus já sabe o que quer e como vai ser. Para além de
Leibniz, para onde vamos? Para um fim em aberto? Para uma perspectiva
determinada? Cumpre-se um plano e no fim somos acto? Ou estamos a fazer o
universo espontaneamente, sem um fim já estabelecido? Há um plano, uma
finalidade, uma ideia acabada do que vamos ser? Ou ainda tudo está a ser
escolhido, decidido, determinado?
Chegamos assim a duas grandes vias,
duas perspetivas, de como será o desenlace do mundo: o desenlace como ato aristotélico,
onde o que se quer já está definido à partida, e todo o trilho do processo, são
atualizações na direção desse fim a atingir; ou como perspetiva em aberto de
Antero de Quental,[35] onde não há uma
meta definida e o mundo se vai desenvolvendo e encontrando finalidade na medida
desse desenvolvimento.
Bibliografia
Leibniz, Discurso de Metafísica (1686), in Coleção Grandes Filósofos, tradução João Amado, Edições 70, Madrid, Prisa Innova, 2008
Leibniz, Princípios da Natureza e da Graça (1714), in Coleção Grandes Filósofos, tradução Miguel Serras Pereira, Fim de Século, Madrid, Prisa Innova, 2008
Leibniz, Monadologia (1714), tradução Adelino Cardoso, Lisboa, Edições Colibri, 2016
[1] Leibniz, Discurso de Metafísica
(1686), in Colecção Grandes Filósofos, tradução João Amado, Edições 70, Madrid,
Prisa Innova, 2008, §12, p. 33
[2] Leibniz,
Ibidem, §17, p. 50-51
[3] Leibniz,
Ibidem, §17, p.51
[4] É exigida uma unidade que a matéria não consegue assegurar. A extensão não
pode constituir a essência de um corpo, porque este é divisível ao infinito. A
abordagem metafísica exige uma unidade interna que a matéria não assegura.
Somos assim levados às mónadas, nestas se encontra unidade.
[5] Leibniz, Ibidem, §11, p. 31
[6] Galileu tinha substituído a teleologia pelo princípio de inércia,
perdendo-se assim a orientação interna (sem dinamismo interno, agir-se-ia
apenas por impulso externo, o movimento adviria apenas do exterior, um universo
mecânico, reportando-se em última instância a uma causa primeira, Deus).
Leibniz quer preservar o finalismo, a
teleologia, instaurando assim uma finalidade, um télos, ficando assim os
meios organizados em função de fins, salvaguardando desta maneira, na contingência, a possibilidade e a liberdade.
[7] As mónadas estão para lá da
insuficiência do mecanicismo. Na sua noção está escrito
o seu passado, presente e futuro, no entanto só o Deus o sabe ler
[8]Leibniz
estabelece a forma na substância (pretende a individuação pela forma),
retirando-lhe a característica de generalidade, o predicado será único para
cada ser. A substância é um processo de individuação: cada mónada vai-se
singularizando ao manifestar as suas propriedades únicas.
[9] Leibniz, Ibidem, §14, p. 44
[10] Leibniz rejeita os dois princípios
fundamentais do atomismo de Demócrito: os átomos materiais indivisíveis (para
Leibniz toda a matéria é divisível ao infinito), e o vazio.
[11]Leibniz, Ibidem,
§15, p. 46
[12] Únicos para cada mónada em particular: os predicados
não são conceitos, são acontecimentos, estados de alma.
[13]Leibniz, Monadologia
(1714), tradução Adelino Cardoso, Lisboa, Edições Colibri, 2016, §38, p. 49
[14] Leibniz,
Princípios da
Natureza e da Graça (1714), in Colecção Grandes Filósofos, tradução
Miguel Serras Pereira, Fim de Século, Madrid, Prisa Innova, 2008, §4, p. 176
[15] Para além de espelhos do universos, os espíritos são é veículos
privilegiados da conexão entre as criaturas e o Criador
[16] Leibniz, Ibidem, §18, p. 191
[17] A diferença entre a mortalidade e a imortalidade. A mónada persistirá em infinito desenvolvimento, os "humanos" são mortais, as
mónadas são eternas. Uma realidade de espiral que não chega a
fim de ciclo
[18] Leibniz, Ibidem, §3, p. 175
[19] Leibniz, Ibidem, §12, p. 185
[20] Indo um pouco além de Leibniz, em
consequências/desenvolvimentos das sua palavras, pode-se dizer que os espíritos
são consciência do mundo e de toda a realidade cósmica.
[21] Se em processo eterno, não atingir pelo menos uma certa aproximação à perfeição,
onde se possa promover a existência sem sofrimento, então na senda da História
tudo é ilusão e o mundo não teria sentido.
[22] E estão interconectadas com Deus, o fundamento metafísico do edifício filosófico de Leibniz. Na cadeia das causas contingentes ao infinito, tem de haver uma última, necessária,
que seja causa de si mesma e não causada por outra.
[23]Leibniz, Discurso
de Metafísica (1686), in Colecção Grandes Filósofos, tradução João Amado,
Edições 70, Madrid, Prisa Innova, 2008, §14, p. 43-44
[24] Uma noção estabelecida vai-lhe definir um leque de possibilidades, no
entanto, só o caminho que Deus pretende é viável. Seguindo o caminho de Deus,
vive-se; seguindo o caminho inverso, definha-se.
[25] Leibniz, Ibidem, §14, p. 44
[26] Como Deus as criou por emanação do seu pensamento, elas têm a
capacidade, ainda que de forma limitada, de imitar Deus.
[27] Uma tríade entre o logos estático (máximas subalternas) e o logos
dinâmico, as mónadas; da interação entre os dois se cumpre o desenvolvimento do
real.
[28] Trinitária, dialéctica,
o cavalo branco e negro, na carruagem de Platão, o DNA, trimurti, trindade, três
físicas, o
passado-presente-futuro, os três saberes fundamentais: filosofia,
ciência e religião. A dialéctica é o
motor do real e este só terá pleno significado tendo sido expresso em perspectivas dialécticas.
[29] Trabalho sobre Heraclito - Processo da Liberdade em Três Partes
[30] Heraclito Fragmento 45 (Diels-Kranz):
"Não é possível descobrir os limites da alma, mesmo percorrendo todos
os caminhos: tão profunda medida ela tem" (Kirk-Raven-Schofield, 232);
Fragmento 115 (Diels-Kranz): “A alma tem
um logos que se acrescenta a si mesmo” Traduzido da edição de M. Marcovich
[31] Em Heraclito, como para os gregos em geral, o tempo é cíclico, sem princípio nem fim. É Santo Agostinho, influenciado pela Bíblia,
que vem introduzir o tempo linear, com princípio e fim, e a sua orientação
escatológica.
[32] Uma participação diferente da participação
que as realidades sensíveis tinham sobre ideias de Platão,
que era uma participação passiva. Não havia
interacção pois as ideias eram eternas e imutáveis. (Em Platão o sensível participa nas ideias mas a rigidez ontológica das ideias, como a
do Ser de Parménides é imperturbável). A identidade das ideias é absoluta, são acto sem nada mais
a acrescentar.
[33] Feuerbach e o espírito humano. O seu conjunto
faz a humanidade.
[34] Momento pleno de significado
[35]
Trabalho sobre
Antero de Quental

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