sábado, 18 de janeiro de 2025


 



Nº 14 - Leibniz

 Ser com Dinamismo Interno


Boletim de Ideias Filosóficas






Leibniz - Ser com Dinamismo Interno



Monas é uma palavra grega, que significa unidade ou o que é uno

                                                Leibniz - Princípios da Natureza e da Graça



            Tiveste aquele vislumbre na vida e nunca o vais esquecer. Aqueles primeiros contactos com uma realidade absoluta, quando percebeste o que isso era, é, está sendo. O Ser, o infinito, a Luz das luzes e tudo o resto. Aquela tua primeira consciencialização de que ele estava a ser, ali, perante os teus olhos, no profundo trespassar do tempo, na atualização da sua infinita possibilidade e maravilhoso mistério. Aquele primeiro vislumbre, perante o grande desconhecido, que da união entre identidade, potencialidade infinita, e a sua atualização constante (em cada momento na temporalidade), te levou a sentir que depois disso, perante essa profunda sacralidade do real, nunca mais verias o mundo da mesma maneira.



Índice

I) Introdução

II) Átomo formal - Espelhos do Universo

III) Atualização Infinita

IV) Identidade e Dinamismo

 Post Factum - Dirigidos pela Tríade


I - Introdução

        Numa carta enviada a Nicolás Remond, em janeiro de 1714, Leibniz refere que durante a sua formação estudou Aristóteles, os escolásticos, Platão e Plotino. Posteriormente, segundo as suas palavras, emancipou-se das "escolas triviais" e acabou por adotar o mecanicismo. Leibniz aceitou o mecanicismo (os fenómenos explicados por causalidade mecânica) numa certa altura da sua formação, mas como o mecanicismo era insuficiente para a descrição do real, teve o complementar. Descartes reduzia o mundo à extensão e ao movimento. Para Leibniz, a extensão não é suficiente, chegando ao ponto de afirmar que a noção de extensão não é distinta, e que se pode aproximar das qualidades que não passam de sensações subjetivas (Discurso de Metafísica §12). Os fenómenos físicos devem ser explicados por realidades de uma mesma ordem, mas se quisermos ir além da prática até ao ultimo sentido das coisas, as experiências da física e as demonstrações da geometria tem um campo limitado e muito fica por explicar.  “ […] verificará que toda a natureza do corpo não consiste somente na extensão, isto é, na grandeza, figura e movimento, mas que importa necessariamente reconhecer nela algo que tenha relação com as almas e que se designa habitualmente por forma substancial […]”[1] Rejeitando a conceção cartesiana, que reduz o mundo à extensão, Leibniz vai demostrar que : “[…] (vê-se bem que) o movimento perpétuo mecânico não existe […]”[2] e afirmar que a força é a chave para interpretar o mundo, reduzindo o movimento e a extensão a puros entes da razão.

            Não aceitando a conceção dos cartesianos (“ Acreditaram assim que o que se pode dizer da força se poderia também dizer da quantidade de movimento.”[3]),  Leibniz chega à conclusão que as questões da força e do movimento são distintas. No §17 do Discurso de Metafísica Leibniz demonstra que a uma determinada igualdade das forças não corresponde uma igualdade das quantidades de movimento. Estas questões não são redutíveis à mecânica, mas representam duas conceções do mundo que se opõem.

            Devido à insuficiência do mecanicismo para explicar o mundo,[4] Leibniz vai acabar por reabilitar de certo modo as formas substanciais dos escolásticos, no entanto, tendo em conta que, para S. Tomás a forma constituía uma essência geral comum, e para Leibniz a forma substancial constitui toda a substância. “ […] e que há, nas opiniões dos filósofos e teólogos escolásticos, muito mais solidez do que se imagina, contanto que delas nos sirvamos a propósito e no seu lugar."[5]  Para Leibniz, o movimento e o dinamismo da substância não lhe vem do exterior, mas sim de uma ação interna, de um princípio vital[6]. A metafísica de Leibniz vai afirmar-se a partir da insuficiência do mecanicismo e da necessidade de se reconhecer e afirmar uma potência ativa, um principio vital inerente nas formas substanciais.

 

II - Átomo Formal - Espelhos do Universo

            No início dos Princípios da Natureza e da Graça, Leibniz define a substância como um ser capaz de ação, que pode ser simples ou composta. Sendo simples se não tiver partes e composta se for um agregado de substâncias simples. Numa carta de 1696 dirigida a Fardella, Leibniz começa a introduzir o conceito de mónada: “a realidade parece-me consistir, em suma, na verdadeira noção de mónada, quer dizer, de unidade real; esta unidade é um átomo formal, pois não há átomo material e não há verdadeira unidade na matéria; esta unidade é um ponto substancial, uma essência […]”

            Estas substancias, as mónadas, são frequentemente transformadas, sendo-o por elas mesmas (ens per se), são unidades independentes que subsistem por si, tem um princípio de acção em si mesmas, conatus, sendo desta forma agentes dos seus próprios estados, transformações e evoluções;[7] são aquilo que tem e dá unidade, têm determinadas qualidades, predicados[8], não sendo elas no entanto  predicados de outro, podem adquirir ou perder essas qualidades.  “[…] se se considerar que o que acontece a cada uma não é senão consequência da sua mera ideia ou noção completa, uma vez que esta ideia encerra já todos os predicados ou acontecimentos, e exprime todo o universo."[9]

            Às substâncias simples vai Leibniz chamar mónadas, existindo estas por toda a parte,[10] referindo Leibniz a esse propósito que a natureza está plena de vida. As mónadas não têm partes, não tem figuras, não podem ser formadas nem destruídas e duram enquanto o universo existir. Distinguem-se uma das outras pelas suas qualidades e acções internas, que são os seus princípios de mudança: as suas percepções (expressões, representações do composto, ou estados interiores das mónadas representando as coisas externas) e a suas apetências: as suas tendências, força interna das mónadas, a sua potência activa, de onde decorrem todos os seus estados (as suas percepções), que são actualizações dessa potência ou força, fomentando assim o seu desenvolvimento, a passagem de uma percepção a outra. Uma vez que todas as mónadas estão intimamente conectadas umas com as outras, o desenvolvimento de uma vai afectar o desenvolvimento de todas as outras, e por sua vez o desenvolvimento do universo. “[…] quando, pois, ocorre uma mudança que afecta várias substâncias (como efectivamente toda a mudança as afecta a todas), creio poder afirmar-se que aquela que, em virtude disso, passa imediatamente a um grau maior de perfeição ou a uma expressão mais perfeita, exerce a sua potência e age, […]"[11]

            As perceções nascem umas das outras segundo as leis das causas finais, enquanto os fenómenos externos e as mudanças nos corpos nascem uns dos outros pelas leis das causas eficientes, havendo entre as perceções das mónadas e os movimentos dos corpos uma harmonia perfeita pré-estabelecida entre o sistema das causas finais e o das causas eficientes. As causas eficientes não satisfazem o requisito do princípio da razão suficiente (uma razão para que algo exista), também designado como princípio da razão determinante. Este vai esclarecer o porquê de uma coisa ser de determinada maneira e não de outra; o porquê de nos atributos (predicados) de cada substância[12] já estar contido todo o desenrolar da sua trajectória ao longo do tempo, desenrolar esse que não pode ser apreendido na sucessão das causas eficientes, mas remete para uma causa final, para uma razão suficiente, fora da sequência das causas contigentes, e essa ultima razão das coisas está numa substância necessária, “[…] na qual o pormenor das mudanças esteja apenas eminentemente, como na sua fonte: e é o que chamamos Deus."[13]

            Uma substância simples, como mónada distinta, constitui o centro (mónada central) de uma substância composta, e será o princípio da sua unicidade. "Cada mónada, com um corpo particular, faz uma substância viva.”[14] Quando há relevo e distinção nas impressões que os orgãos recebem, as percepções que as representam podem ir até ao sentimento, se acompanhadas de memória, estas nómadas chamam-se almas (e esse ser vivo chama-se animal). Quando estas almas são dotadas de razão, são denominadas espíritos (presentes no ser humano), que tem, para além das perceções, aperceções (consciência ou conhecimento reflexivo dos estados interiores), e sendo capazes destes atos reflexivos são também capazes de considerar o que se chama eu, e das ciências ou conhecimentos demonstrativos.[15]

 

III - Atualização infinita

        “Assim a nossa felicidade nunca consistirá, e não deve consistir num gozo pleno […] mas num progresso perpétuo em novos prazeres e novas perfeições.”[16] Ao contrário dos átomos de Demócrito, as mónadas não são realidades estáticas, (nem a identidade absoluta parménidiana), ou uma peça de lego, estão em processo de desenvolvimento constante ao longo da existência. Cada mónada espelha o universo, mas cada uma percepciona-o na sua maneira singular através das percepções e apetências (apetições), que as vão transformando para uma versão cada vez melhor de si próprias.[17] Assim, para melhor entendermos cite-se:

“[…] daí se segue que cada mónada é um espelho vivo ou dotado de acção interna, representativo do universo, segundo o seu ponto de vista, e tão regulado como o universo mesmo.”[18]

“[…] mas também que representando cada espelho vivo o universo segundo o seu ponto de vista, isso quer dizer que cada mónada, cada centro substancial, deve ter as suas perceções e os seus apetites tão bem regulados quanto tal seja compatível com tudo o restante”[19] (também nota de rodapé 11).

            A mónada é o próprio mundo em desenvolvimento, consciencializa no ser humano, mas vai além dele, e coexiste com todo o cosmos em ligação interior, espiritual e profunda.[20] A mónada em processo eterno de desenvolvimento é a solução (chave) para o desenlace do real.[21]

            Todas as mónadas são individuais, mas todas estão interconectadas umas com as outras.[22] As percepções, actualizações, de cada uma das mónadas afectam todas as outras, mas não directamente  (“Poderíamos, pois, dizer de alguma maneira e num bom sentido, embora afastado do uso, que uma substância particular nunca actua sobre outra substância particular e nem sequer sofre a sua acção […]”[23]) mas indirectamente através de Deus e das percepções de cada uma das outras mónadas, isto é, das suas actualizações, que advêm de uma noção interna, onde está contido tudo o que aconteceu, acontece e vai acontecer.[24]  “Com efeito, nada nos pode acontecer senão pensamentos e percepções, e todos os nossos pensamentos e percepções futuras são apenas consequências, ainda que contingentes, dos nossos pensamentos e percepções precedentes, de tal modo que se eu fosse capaz de considerar distintamente tudo o que me acontece ou aparece neste momento, poderia ver nele tudo o que me acontecerá ou aparecerá alguma vez […]”[25]

            No idealismo de Leibniz, o que existe para nós são os nossos pensamentos e percepções. As relações internas entre as mónadas constituem toda a unidade do real, e talvez a partir da mente criadora em Berkeley, da capacidade de pensamento criador em Dhammapada (onde a vida é criação da nossa mente), são capazes de criar o espaço circundante com o pensamento.[26] Tudo está cheio de vida, vida que vêm projectada a partir do espírito. O espaço é formado pela infinidade de mónadas, que em conexão com a sua fonte suprema, interagindo no seu conatus, com a sua actividade interna, a sua potência activa, impulsionam toda a mudança no real. As mónadas são emanações a partir do pensamento de Deus, "fulgurações" da mente absoluta, micro cosmos com circuitos e com sistema nervoso central, a sua acção no real é reflexo da sua actividade interna. Através das causas finais o Criador determinou à partida quais seriam as regras do jogo, e como as coisas tem de evoluir através das transformações nas mónadas para que o seu plano se cumpra. É através de atualizações individuais, das perceções de cada uma que se dão as transformações no todo. 

 

IV - Identidade e Dinamismo

        A visão moderna da natureza era demasiado mecânica. O mundo não se pode deixar reduzir: a uma representação mecanicista do real, onde os fenómenos (tudo o que possa alguma vez acontecer) são explicados por causalidade mecânica; a uma máquina de identidade circunscrita, que não está a altura para descrever a riqueza do real, a sua imensa diversidade e dinamismo.

            O desenvolvimento do real esta para lá dos padrões, que vão além dos ciclos e dos entendimentos circulares, binários, limitados. Leibniz tenta fazer a conciliação entre estas as duas concepções do real, cada uma com o seu campo de aplicação próprias. Propõe um ser em desenvolvimento, que evolui, que não está feito e acabado, que não está concluído, em acto. Cada segmento do real tem o seu papel, temos as realidades binárias, que são modos estáticos, por exemplo, as leis particulares da natureza (máximas subalternas) que não estão em desenvolvimento, são assim, e assim foram estabelecidas; temos também as realidades dialéticas, ternárias de desenvolvimento, as mónadas, o logos dinâmico, pensamento, espírito, inteligência em processo de desenvolvimento e evolução ao infinito. É este o avanço que Leibniz, perante o grande quadro do real, vai instituir no desenvolvimento no todo como organismo integrado.[27] Um caminhar para, uma senda, uma dança celestial, do deus que sabe dançar de Nietzsche, antevendo já a dialéctica hegeliana do ser que está em crescendo, e em actualizações cada vez mais optimizadas. 

            Depois do mecanicismo cartesiano, Espinosa afirmou um Deus unido ao mundo, sendo vida, sorrindo, Deus em tudo e tudo em Deus. O seu problema não foi o mecanicismo (embora fosse necessitarista), o seu problema foi o da sua substância não ter realidade singular, ser apenas um Deus em acto, e dai advir que a única substância teria de ser uma realidade concluída, sem dinamismo, um Deus que nada lhe falta é uma substância sem potencialidade, tudo está em acto, todo o desenlace resolvido e nada para almejar, sem isso não há caminho, não há desenvolvimento, a realidade é um ser estático. Em Espinosa tudo se diluía num caldo. Havia conatus, mas a força interna de cada ente provinha de Deus, que era a única substância, o único pensamento, espirito, inteligência, e tudo o resto eram emanações de si. Deus não estava em processo (…) pois este era Deus, pleno, em acto, feito e acabado. O ser de Espinosa não tinha movimento, era quase uma identidade parmenidiana, em Espinosa tudo era um.

            Mas foi a moral de Espinosa, a sua ética, que abriu a porta para o passo seguinte. Aponta para que cada ser humano se possa superar ao ponto de se esclarecer, para que dentro de si provenha uma noção de valor que valha a pena. Quando o ser humano consegue isso, e vive em prol disso, deixa a moral e passa a ser eticamente emancipado. A sua ética interior determina a sua ação (o seu processo de desenvolvimento advém de uma directriz interna), e se estiver realmente a ver as coisas, vê-las-há bem e estará a caminho para a sua evolução até à emancipação, para a sua singularidade como ser de princípios e de valor.

            A Ética de Espinosa leva-nos ao desenlace de Leibniz. Se podemos aceder à liberdade, perante uma moral de imposições, através de uma Ética madura, então os eticamente evoluídos serão indivíduos únicos e diferenciados da Luz suprema. Leibniz fez a tradução do campo da Ética para a Ontologia. Os seres em geral, as mónadas, serão os tais seres em processo de virtude infinitamente melhorada. Como no pensamento oriental um ser se torna virtuoso e sábio ao longo de várias gerações, também as mónadas ultrapassam a realidade finita humana e concorrem para um aperfeiçoamento perene.

            Há uma união profunda entre todas as mónadas, entre todos os seres. A mónada é uma substância individual que está conectada com todo o cosmos, com todas as outras mónadas e com a fonte a um nível subliminar. No taoísmo, o chi faz a ligação em termos de sopro vital, a energia que nos mantém em conexão espiritual com o cosmos. Sem sopro vital, sem oxigénio, o cérebro humano não pensaria, se não pensasse, segundo Berkeley a realidade então só existiria na mente de Deus, tudo seria apenas o primeiro momento de Hegel, onde o absoluto era abstrato, sem desenvolvimento e sem a efectivação no real.

            As mónadas, verdadeiros anjos, e emanações do espirito que é divino, almas que atravessam a existência e os seres, são os imortais vivos do sistema. E com isto o pensamento introduziu a imanência da eternidade no real sensível. O ser, a fonte de todos os avatares, de todos os inspirados, de todas as vidas que se tentaram construir na promoção de “bons encontros”, está vivo , deixou a transcendência de Espinosa, onde tudo era Ser, e o Ser era Deus, mas Deus num além, e assim,  apenas a Fonte principal do ser. Uma coisa é ser isso, e outra é trazer a Transcendência para o real e ver o Espírito hegeliano atravessar e conduzir a história. À Monadologia de Leibniz, das mónadas individuais e singulares, podemos perceber o que Hegel adicionou. Os agregados de mónadas humanas fazem as equipas, os colectivos, e o grande colectivo geral que é o Espírito objectivo. Todas as propriedades das mónadas singulares de Leibniz, mas também a introdução destas novas caracterizações que alteram e enriquecem todo o quadro, o aproximam ainda mais da realidade.

            As mónadas evoluem, Leibniz preconizou a grande visão, o patamar que se teria de se atingir se se quisessem fazer os grandes quadros do real. Ou se preconizava dinamismo na realidade ou então não passaria de identidade. O dinamismo do sistema de Leibniz é uma sinfonia de vida como nunca até ali se tinha conseguido fazer. Aquela visão da dimensão espírito/sensível em átomo imaterial é sublime, um átomo espiritual. Uma vertigem eterna de processo e desenvolvimento que quase nos dá a certeza (a filosofia não é ciência), mas que nos dá a convicção, que cada vez que nos aproximamos mais daquilo para o qual tendemos, mais próximos estamos de Deus.

 

  

post factum

 

Dirigidos pela Tríade[28]

            O dinamismo que se dirige a si próprio, espontaneamente, um mundo eternamente vivo conduzindo-se na perspetiva da sua própria vontade. O apeiron de Anaximandro, o vórtice que iniciou todo o processo cósmico, a constituição do universo a partir da separação dos contrários. Além do mais, as coisas deste mundo, pagam retribuição através da justiça do tempo. Heraclito identificou-o como um Fogo vivo, um logos dinâmico,[29] uma inteligência que se impunha no real, um indeterminado profundo que se manifesta em dois níveis: das dualidades e do código binário, o estático, a identidade lógica de Parménides, as leis regulares, o linear, os ciclos definidos; o logos dinâmico, as realidades ternárias, dialéticas, processuais, em aberto..

            O Fogo é o Regente universal,  provido de uma armada de espíritos, que se manifestam no fundo da alma de cada um. Um logos dinâmico, singularidades implícitas, que no fundo da alma de cada um se escondem[30] - No fundo da alma o divino se esconde: S. Agostinho, Pseudo Dionísio, M. Eckart - O Fogo que introduz mudança na realidade é o logos dinâmico, complementado pelo logos estático que estrutura a realidade. As realidades binárias, e as realidades dialécticas. O mundo não pode ser só identidade, para além dela há a transformação e desenvolvimento.[31]

 

Leibniz e o logos singular (explícito)

            O fator singular, o destaque singular desse Fogo - a mónada - a inteligência viva, o logos dinâmico antevisto e sussurrado por Heraclito.  O organismo universal não é apenas Deus, como em Espinosa, mas também o seu espírito (santo) que se infunde como divindade na existência. As mónadas participam[32] do divino. O ser de Leibniz pressupõe essa ideia de dinamismo. A participação em Leibniz transforma o próprio universo. A singularidade participa do divino na unidade de todas as coisas, que em conjunto promovem a explicitação do real,[33] a actualização do melhor dos mundos possíveis. Esse desenvolvimento, um processo, um vislumbre para o que iria ser o idealismo alemão, o Ser com dinamismo interno.

Em Heraclito, no mundo antigo, a ligação/conexão ao infinito dá-se na mediação com o mundo natural, com a physis. Com os modernos há uma viragem para um contacto directo entre o humano e Deus. Cada um de nós tem uma mónada central, espiritual, que está directamente em contacto com a fonte divina. A génese da Reforma de Lutero, Humanismo, subjectividade, radicação de cada um à sua luz superior. Movimentos que desqualificam os intermediários e afirmam uma perspectiva de conexão directa (contacto) com a divindade. A mónada de Leibniz afirma uma singularidade que está conectada com todas as outras singularidades e com a singularidade superior. Todo o dinamismo do logos dinâmico de Heraclito expresso num sistema onde o organismo é um com todas as suas partes, unas em si, unas entre si, e unas com a totalidade do real.

            Em Hegel, já não é o Deus transcendente, mas sim, o Espirito Absoluto, imanente, como fundamento metafísico no real. O Idealismo alemão vem clarificar e confirmar tudo isto. É realmente o Espírito que se vem desenvolvendo, em processo, em progresso, através da História, para se cumprir. Do absoluto abstrato inicial para um vir à existência. O absoluto, para se materializar e ganhar sensibilidade no mundo físico, para descobrir também ali o Espírito, e o veiculo para desenvolver a sua plenitude, manifesta-se no espaço e no tempo, passa desta forma a universalidade concreta abarcando toda a realidade possível. Do devir instantâneo surge o tempo e o espaço, que permite a emergência do ente determinado, iniciando assim o processo da realidade. Através do humano (comunidade de espíritos racionais) o Ser regressa a si, concretizando assim a realização e atualização do Absoluto na sua plenitude.

            Ser à imagem e semelhança da Luz superior, ou os sete dias da Criação, que podem ser reinterpretados como o sexto dia ainda a decorrer. Ainda poderemos estar a viver o sexto dia, podem ainda não ter passado os sete dias de Deus. Após o grande meio dia desse sexto dia,[34] o Criador já não pode  fazer nada pela obra nem impor a Liberdade. O criador, que quer um ser livre à sua imagem e semelhança, lançou os seus dados, mas terá de ser a criatura a fazer a escolha: quer ser livre, à imagem e semelhança do criador, ou não. Se não o quiser, se não se quiser elevar a uma ética superior, a uma virtude que nos levará a um encontro com a plenitude de nós próprios, a natureza se encarregará de eleger outra espécie para realizar os intentos do Criador. Para Leibniz, embora nós não consigamos antever o que será, Deus já sabe o que quer e como vai ser. Para além de Leibniz, para onde vamos? Para um fim em aberto? Para uma perspectiva determinada? Cumpre-se um plano e no fim somos acto? Ou estamos a fazer o universo espontaneamente, sem um fim já estabelecido? Há um plano, uma finalidade, uma ideia acabada do que vamos ser? Ou ainda tudo está a ser escolhido, decidido, determinado?

            Chegamos assim a duas grandes vias, duas perspetivas, de como será o desenlace do mundo: o desenlace como ato aristotélico, onde o que se quer já está definido à partida, e todo o trilho do processo, são atualizações na direção desse fim a atingir; ou como perspetiva em aberto de Antero de Quental,[35] onde não há uma meta definida e o mundo se vai desenvolvendo e encontrando finalidade na medida desse desenvolvimento.

 

 

Bibliografia

Leibniz, Discurso de Metafísica (1686), in Coleção Grandes Filósofos, tradução João Amado, Edições 70, Madrid, Prisa Innova, 2008

Leibniz, Princípios da Natureza e da Graça (1714), in Coleção Grandes Filósofos, tradução Miguel Serras Pereira, Fim de Século, Madrid, Prisa Innova, 2008

Leibniz, Monadologia (1714), tradução Adelino Cardoso, Lisboa, Edições Colibri, 2016



[1] Leibniz, Discurso de Metafísica (1686), in Colecção Grandes Filósofos, tradução João Amado, Edições 70, Madrid, Prisa Innova, 2008, §12, p. 33

[2] Leibniz, Ibidem, §17, p. 50-51

[3] Leibniz, Ibidem, §17, p.51

[4] É exigida uma unidade que a matéria não consegue assegurar. A extensão não pode constituir a essência de um corpo, porque este é divisível ao infinito. A abordagem metafísica exige uma unidade interna que a matéria não assegura. Somos assim levados às mónadas, nestas se encontra unidade.

[5] Leibniz, Ibidem, §11, p. 31

[6] Galileu tinha substituído a teleologia pelo princípio de inércia, perdendo-se assim a orientação interna (sem dinamismo interno, agir-se-ia apenas por impulso externo, o movimento adviria apenas do exterior, um universo mecânico, reportando-se em última instância a uma causa primeira, Deus). Leibniz quer  preservar o finalismo, a teleologia, instaurando assim uma finalidade, um télos, ficando assim os meios organizados em função de fins, salvaguardando desta maneira, na contingência,  a possibilidade e a liberdade.

[7] As mónadas estão para lá da insuficiência do mecanicismo. Na sua noção está escrito o seu passado, presente e futuro, no entanto só o Deus o sabe ler

[8]Leibniz estabelece a forma na substância (pretende a individuação pela forma), retirando-lhe a característica de generalidade, o predicado será único para cada ser. A substância é um processo de individuação: cada mónada vai-se singularizando ao manifestar as suas propriedades únicas.

[9] Leibniz, Ibidem, §14, p.  44

[10] Leibniz rejeita os dois princípios fundamentais do atomismo de Demócrito: os átomos materiais indivisíveis (para Leibniz toda a matéria é divisível ao infinito), e o vazio.

[11]Leibniz, Ibidem, §15, p. 46

[12] Únicos para cada mónada em particular: os predicados não são conceitos, são acontecimentos, estados de alma.

[13]Leibniz, Monadologia (1714), tradução Adelino Cardoso, Lisboa, Edições Colibri, 2016, §38, p. 49

[14] Leibniz, Princípios da Natureza e da Graça (1714), in Colecção Grandes Filósofos, tradução Miguel Serras Pereira, Fim de Século, Madrid, Prisa Innova, 2008, §4, p. 176

[15] Para além de espelhos do universos, os espíritos são é veículos privilegiados da conexão entre as criaturas e o Criador

[16] Leibniz, Ibidem,  §18, p. 191

[17] A diferença entre a mortalidade e a imortalidade. A mónada persistirá em infinito desenvolvimento, os "humanos" são mortais, as mónadas são eternas. Uma realidade de espiral que não chega a fim de ciclo

[18] Leibniz, Ibidem, §3, p. 175

[19] Leibniz, Ibidem, §12, p. 185

[20] Indo um pouco além de Leibniz, em consequências/desenvolvimentos das sua palavras, pode-se dizer que os espíritos são consciência do mundo e de toda a realidade cósmica.

[21] Se em processo eterno, não atingir pelo menos uma certa aproximação à perfeição, onde se possa promover a existência sem sofrimento, então na senda da História tudo é ilusão e o mundo não teria sentido.

[22] E estão interconectadas com Deus, o fundamento metafísico do edifício filosófico de Leibniz. Na cadeia das causas contingentes ao infinito, tem de haver uma última, necessária, que seja causa de si mesma e não causada por outra.

[23]Leibniz, Discurso de Metafísica (1686), in Colecção Grandes Filósofos, tradução João Amado, Edições 70, Madrid, Prisa Innova, 2008, §14, p. 43-44

[24] Uma noção estabelecida vai-lhe definir um leque de possibilidades, no entanto, só o caminho que Deus pretende é viável. Seguindo o caminho de Deus, vive-se; seguindo o caminho inverso, definha-se.

[25] Leibniz, Ibidem, §14, p. 44

[26] Como Deus as criou por emanação do seu pensamento, elas têm a capacidade, ainda que de forma limitada, de imitar Deus.

[27] Uma tríade entre o logos estático (máximas subalternas) e o logos dinâmico, as mónadas; da interação entre os dois se cumpre o desenvolvimento do real.

[28] Trinitária, dialéctica, o cavalo branco e negro, na carruagem de Platão, o DNA, trimurti, trindade, três físicas, o passado-presente-futuro, os três saberes fundamentais: filosofia, ciência e religião. A dialéctica é o motor do real e este só terá pleno significado tendo sido expresso em perspectivas dialécticas.

[29] Trabalho sobre Heraclito - Processo da  Liberdade em Três Partes

[30] Heraclito Fragmento 45 (Diels-Kranz): "Não é possível descobrir os limites da alma, mesmo percorrendo todos os caminhos: tão profunda medida ela tem" (Kirk-Raven-Schofield, 232); Fragmento 115 (Diels-Kranz): “A alma tem um logos que se acrescenta a si mesmo” Traduzido da edição de M. Marcovich

[31] Em Heraclito, como para os gregos em geral, o tempo é cíclico, sem princípio nem fim. É Santo Agostinho, influenciado pela Bíblia, que vem introduzir o tempo linear, com princípio e fim, e a sua orientação escatológica.

[32] Uma participação diferente da participação que as realidades sensíveis tinham sobre ideias de Platão, que era uma participação passiva. Não havia interacção pois as ideias eram eternas e imutáveis. (Em Platão o sensível participa nas ideias mas a rigidez ontológica das ideias, como a do Ser de Parménides é imperturbável). A identidade das ideias é absoluta, são acto sem nada mais a acrescentar.

[33] Feuerbach e o espírito humano. O seu conjunto faz a humanidade.

[34] Momento pleno de significado

[35] Trabalho sobre Antero de Quental

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