domingo, 19 de janeiro de 2025


Nº 21 - Nietzsche 

Tempo Vertical com Perspetiva Dialética

Boletim de Ideias Filosóficas



Revista Opúsculos

“Opúsculos sobre o Fim de Um Mundo”, revista não oficial de poesia, filosofia e religião, lançada em 2007 com a divisa, “esta é a minha verdade conta-me a tua” (desde o número 11 referenciada como “Boletim de Ideias Filosóficas”).

Ilustrada com quadros dos mestres, quadros de novos artistas, promessas desconhecidas, serigrafias, poesias, breves e profundas orações (só nos primeiros números consegui colocar as ilustrações).

Nos primeiros números, pequenos contos, textos, explorando ideias da filosofia. Outros números, foram trabalhos para determinada cadeira e que acho que tem validade como tijolo na construção e sistematização de uma tese geral.

Revista feita por alunos e estudantes de filosofia, nas suas páginas, os textos preliminares dos pretendentes na descoberta e edificação de um pensar próprio, revista dos audazes aprendizes na disciplina de arquitetura da mente.

A revista não quer ser algo pomposo, nem se quer afirmar como detentora de qualquer verdade. Sustem-se na ideia aristotélica de arte na "Poética" aplicada à filosofia (acho que uma certa maneira foi o que Kant fez da filosofia, após o esclarecimento (na "Crítica da Razão Pura”), do que era ciência e de que a filosofia não o podia ser).



Nietzsche

Tempo Vertical com Perspetiva Dialética

(Reflexões suplementares sobre o eterno retorno)



Por entre as colunas desta abóbada celestial, 

correm ventos inteligíveis, 

os rumores dos nossos pensamentos e das nossas ações, 

as sombras dos nossos atos.




GC. Gaia Ciência

AFZ. - Assim falava Zaratustra 

N. Nietzsche

Z. - Zaratustra

ER. - eterno retorno

SH. - sobre humano

AF. - amor fati

VP. - vontade de potência

 

logos estático (analítico) - estrutura binária, linear

logos dinâmico (sintético) - estrutura dialética, …

PVT.  - perspetiva vertical do tempo, tempo psicológico, meta imensurável

TH. - perspetiva cronológica, tempo horizontal



Índice

Primeira Parte

01) “Tu deves”

2) O convalescente

Segunda Parte

 01) O eterno retorno numa perspetiva dialética

2) A Visão dinâmica do Eterno Retorno

3) Tempo vertical 

Terceira Parte

 1)Binário e ternário

2) Do advento da tragédia

3) Lado B

Conclusões

Algo mais




Primeira parte


1) “Tu deves”

Em Nietzsche, nos aforismos 285 e 341 da Gaia Ciência no capítulo “O Convalescente" do texto Assim Falava Zaratustra podemos ler que o eterno retorno pode ser um circulo infinito onde os atos e as personagens se repetem, com obrigatoriedade de ser sempre igual a si próprio. Sempre o mesmo. Como o ser de Parménides, a ideia de Platão, o ser definido, conceito circunscrito, rotulado. Um circulo, uma realidade binária. Sim, está lá na explicação que advém de passagens desses textos. A filosofia de Nietzsche não teria a riqueza que tem se nos ficássemos por pensar o eterno retorno apenas como uma repetição eterna do que já foi. Há sentidos implícitos no pensamento nietzschiano que vão muito além dessa visão do ER.

“Compromise, that's nothing new to you

Let's see colors that have never been seen

Let's go to places no one else has been” U2

 

A parte que corresponde ao circulo, às realidades binárias, concerne apenas a primeira frase. O “tu deves” sempre esteve presente na tua vida. Foi por isso que assumiste a morte de Deus, foi como se tivesse criado a oportunidade, se tivesse estabelecido a abertura, para que tudo pudesse ser formado de novo. Deitar abaixo, descartar o que já não tem validade, e aí o golpe de génio, a moralidade não tem validade. Esse foi o nível um, para mim, o ponto de partida, a coluna de sustentação (sobre a qual, e possibilitado por esta, conseguiste desenvolver toda uma mistificação que aponta para o sobre humano, e desenvolve-se depois numa super estrutura que é o corpo da filosofia nietzschiana. O pensamento de N. pauta-se por muito mais que a ideia que a realidade se repete eternamente. Pauta-se também, e em certo sentido ele é mais pronunciado, mas acentuado, na visão de progressão, de dinamismo no real, e não apenas um circulo de eterna repetição. O que pretendo argumentar é que no pensamento de N. estava embutida a perspetiva aberta, uma visão dialética do eterno retorno (N. não a chegou a definir, mas que estava dentro de si, implícito, em potência, a querer parir no seu pensamento), onde o conceito não está encerrado, circunscrito, mas que, para mim já o pensava N., como estrutura com dinamismo que se vai transformando, e não apenas atualizando, que vai realmente sendo novo, porque o que se faz não é apenas o que já foi, cada existência vai-se acrescentando. Não é o apagamento da memória que faz o novo, o novo só será novo, só será realmente existência, se não for repetição. (se for mais que apenas repetição).

 

 

2) O convalescente

No fim da reflexão o que nos é dado a pensar é que o pensamento que Z. mais tenta defender, (a ideia que o ER. é eterna repetição do mesmo), parece ultrapassada pelo frenesim, pela profundidade do abismo que Z. nos lança com a ideia do fardo mais pesado. Que acaba por nos sugerir um outro abismo que está para além de todos esses sentidos circunscritos, que dá a antever, que por mais que o tentem definir, é realmente inesgotável. Um caos, uma abertura.

A definição do ER de N. serviu os propósitos de ser sustentáculo para a ideia de AF.. Com esta N. podia finalmente libertar-se da religiosidade que o oprimia e aprisionava. Tinha encontrado o seu próprio querer, a sua própria espiritualidade. No capítulo “O Convalescente”, a primeira reação perante o emergir do seu pensamento de abismo. “Ó monstro adormecido!”[1] E Z. cai por terra. Quando vem a si, fica prostrado durante sete dias, na ideia insuportável da repetição do execrável até ao fim dos tempos. A  ideia que o homem pequeno voltará agora e sempre para toda a eternidade.

 

“O meu abismo falou, trouxe à luz do dia a minha última profundidade.”

“ Ah, ventura! […] aí! solta-me! aí, aí! Nojo, nojo nojo! Infeliz de mim!»”[2]

 

Zaratustra sente tudo o mundo, a sua entrega é tal, que Z. sente a veia do mundo a correr em si próprio, pode olhar e desvendar todos os segredos e mistérios, perante tal deslumbramento, (como o crente hindu a quem a deusa se revelou na sua plenitude, não tendo o crente conseguido aguentar a luz/revelação da deusa), também Z. cai por terra. Zaratustra levou sete dias para aguentar, digerir, o embate de tamanho colosso. Não conseguiu aguentar imediatamente o embate da eterna repetição de holocaustos, de genocídios, das perseguições e das guerras por isto e por aquilo, mas fundamentalmente por poder e riqueza; do prazer do nojo. Z. não aguentou o profundo lado negro e perverso do ser humano, do que ele é capaz, do tal monstro do Alien que afinal pode ser o negro lado da nossa alma revelado nos horrores do século XX.  No imediato Z. não aguentou a ideia que esse tipo de coisas se irão repetir uma e outra vez para todo o sempre. Mas no meio de toda aquela corrente de horror incomensurável, adveio um outro sentido do que poderia ser o ER. As estações do ano não nos dizem que o mesmo se repetirá exatamente igual, mas sim um ciclo que se repete, uma revolução. A vida renasce todas as primaveras, mas não renasce sempre com repetição dos mesmo acontecimentos.

“Tudo passa e tudo regressa, eternamente gira a roda do ser. Tudo morre, tudo volta a florir; eternamente se desenrola o ciclo do ser”[3]

Os dois sentidos aqui se manifestam, não se explicitam, mas, o ciclo do ser vai além da simples repetição. Há uma repetição na estrutura, mas há uma diversidade na maneira como acontece. Podemos ver, processo, progresso, e não apenas eterna repetição. Uma dicotomia ou a eterna dialética? Espelhos infinitos de cada momento, ou clones infinitos de cada momento? Clones onde a ordem dos acontecimentos possa ser realmente algo novo, uma existência de facto, e não apenas um espelho, cada vida ser imitação do que já foi. Em N. a vida não é apenas isso. A ideia de ER. tem validade em N. como afirmação das realidade binárias de sustentação (sustenta o amor fati); mas também tem validade como algo novo (pois se visto apenas nesta perspetiva limitada, nestas circunstâncias circulares, ou o SH. já aconteceu infinitamente, ou então é pura charlatanice, que se usa para entreter o pensamento, mas sem realizar o efeito que se procura).

“Tudo diverge, tudo se reencontra; o ciclo da existência mantêm-se eternamente fiel a si próprio.”[4]

O “fogo” de Heraclito que tudo gere na existência, que se acende e apaga por medida.[5] O logos dinâmico que gere o destino de todas as coisas. O logos estático, a estrutura do real mantêm-se na identidade. É binário. Edifica a morada do ser, mas não quer dizer que o ser se mantenha sempre e só isso. Por entre as colunas da abóbora celestial correm os ventos do nosso descontentamento. O seu pensamento assombroso não amadureceu plenamente dentro de Z, e enlouqueceu N. mas o equilíbrio estava lá, escondido, encoberto, e N. estava no centro de todo aquele vulcão. É difícil ter discernimento para abarcar todas as consequências e todas as possibilidades de desenvolvimento que um abismo pode ter. Um abismo no fundo da nossa alma.[6] A ideia ainda não tinha amadurecido o suficiente para se definirem as suas diversas vertentes. O esclarecimento da época ainda não estava maduro para a perspetiva dialética ser afirmada num rol de consequências perante a filosofia.

“ O centro está em toda a parte. A roda da eternidade volta a percorrer o seu caminho”[7]

 

Zaratustra tem aqui um vislumbre, aqui se dá a abertura, a porta para a possibilidade de haver mais ser para além do ser “é” de Parménides, ou das ideias de Platão, ou do circulo inexorável de N. Podemos fazer mais e melhor se olhamos para o real sem circunscrevemos o seu significado e a sua manifestação.

“E vós,  - vós já fizésteis disto um estribilho!”[8] Para N. não é apenas o circulo!

“O homem é, para consigo próprio,  o animal mais cruel que existe; […]”[9]

Esta ideia, em conjunto com a do ER, vão atormentar N. até ao fim dos seus dias. No entanto, ele sabe que algo mais, e muito mais poderoso que isso está ali. O humano tem opção. N. partilha da opinião de Espinosa, o humano tem opção. Podemos nascer amarrados, mas pelo força do questionar e esclarecimento podemos nos libertar daquilo que nos prejudica. Para além do espartilho dos espelhos, para além desta vida poder ser um absurdo repetitivo.

“[…]; é que é necessário ao homem tornar-se, a um tempo, melhor e pior.”[10]

É necessário ao humano ultrapassar-se, reinventar-se. A abertura para a visão dialética do ER.  Há uma exigência no real, a VP., como o “fogo” de Heraclito, determina a condução do real. O pior, o melhor, no homem ainda é tão pequeno.

Zaratustra atormenta-se num momento de fraqueza e visão curta:

“«Aí! O homem regressará eternamente! O homem mesquinho regressará eternamente!»” [11]

Aqui N. deixa-se dominar pelo medo, pelo receio, não esclarece em profundidade. A questão poderia ser vista como eterna possibilidade e não apenas eterna repetição. A eterna repetição dos moldes, dos binários, a eterna diversidade dos ternários, da dialética. O pequeno, a visão circunscrita do circulo simboliza o menor, o não emancipado, o levado pela mão das morais.

“«Sempre regressará, esse de que estás cansado, o homem mesquinho»”[12]

Mas acaba por reconhecer que nessas palavras é o seu desespero a falar.  “[…] assim dizia a minha tristeza, […]”[13] – a sua fraqueza, o seu lado não esclarecido. Mas novamente em si, olhando as coisas numa visão mais ampla N. sugere que se pode interpretar o ER de outra maneira. Sai para a vida dizem-lhe os seus animais. A dança, o canto, a alegria de viver, o abraçar a existência, açambarca e supera tudo isso, numa perspetiva que não tem necessariamente de ser assim. Contra os dogmas e as visões circunscritas Zaratustra ainda afirma: “[…] será que ides já inventar outro estribilho a partir do que vos disse?”  “Ó gracejadores, fabricantes de estribilhos, calai-vos enfim.”[14]

Os animais representam as realidades binárias, os círculos. Os criadores, preconizam uma existência com valor, com significado, não apenas o desenrolar de um mesmo filme "over and over". 

“Porque, ó Zaratustra, aos teus novos cantos faltam liras novas.”[15] – um novo circulo mais além o grande destino de Zaratustra, “[…esse que não foi ainda o destino de homem algum.”[16] Zaratustra é livre e faz se de novo, não de reprodução de algo que já foi. Embora Z. se repita eternamente, ninguém ou outrem diferente vem repetir Zaratustra. O que Zaratustra escolher fazer será único, pois é livre. Z está liberto da moral, age pela sua ética interior. E que garantia há (para além de quando se refere ao ER como uma ideia útil para algo mais) que os atos de Z. por exemplo, serão ipsis verbis os mesmo para toda a eternidade? O destino de Zaratustra. O primeiro a ensinar a doutrina do ER. O primeiro. Aponta para uma ideia de algo que se veio acrescentar como algo que ainda não estava nem esteve presente, os novos valores. Z. não veio repetir o que outros Zaratustras tinham feito.

“Necessário é que sejas o primeiro a ensinar esta doutrina”[17]

Uma ideia que o ER pode não ser cronológico. Como tempo horizontal a roda vai e chega ao fim/inicio e repete tudo outra vez. Como tempo vertical, o eterno retorno, poderá ser um esquema da realidade como linhas infinitas que trespassam cada segundo, cada ponto da linha horizontal do tempo. Cada ponto pode ser trespassado por um linha infinita para ambos os lados, espelhos ínfimos, deste momento, espelhos infinitos que decorrem deste momento.  O eterno retorno, a eterna repetição também se dá se numa infinidade de clones que se movimentam por uma infinidade de espelhos, que são outras tantas infinidade de dimensões, que acontecem numa perspetiva de tempo vertical. Para que Z  seja o primeiro, então o eterno retorno é uma repetição como repetição infinita de espelhos e organismos, em sintonia com este momento, mas não tendo existido necessariamente antes ou depois. Para que o SH. vá acontecer e não seja apenas uma repetição do que já foi, o ER não pode ser apenas circulo, realidade binária, logos estático. Há uma estrutura dinâmica no real, há processo, há transformação, no fim de tudo não acaba por ser apenas um circulo, uma castração à maneira do ser de Parménides.

 

“Mas este conjunto de causas a que estou preso regressará […] regressarei eternamente para este mesma e idêntica vida, com todas as suas grandezas e suas misérias, […]”[18]

 

Tudo regressará eternamente, em termos de moldes da realidade. Os seres regressaram, ou estão em dimensões a correr em paralelo, existem infinitas versões de nós mesmos, mas não quer dizer que vão agir exatamente todos do mesmo modo. Ou então, tendo de repetir o que já foi feito, o ER. vai fazendo de cada um apenas uma marioneta do destino. Anunciar o grande meio dia – o libertar do ciclo das existências repetidas. O advento dos criadores, daqueles que se libertam das existências circulares, de horizontes binários, onde se limitam a ser iguais ao que já se foi. Os criadores rejeitam as morais porque são repetição, generalizações sem adequação à realidade. Rejeitam também uma realidade que fosse repetição eterna do que foi, pois então não haveria criadores, nem novos nascimento, nem uma vida de possibilidades. Haveria um guião, um esquecimento enganoso, um apagamento da memória, para nos iludir que não estávamos realmente a viver, estávamos apenas a reviver. Um ser autómato não é criador, não é humano nem homem, é uma marioneta do destino. Não seria necessário pensar, apenas viver aquilo que já foi estabelecido. Quando um criador consegue inovar e desvenda, descobre, resolve um ponto além do circulo anterior. O sobre humano é anunciado mas não é referido que já tenha existido. Ou a doutrina é uma grande ilusão, ou o ER. não pode ser visto apenas como algo que só se repete. O ser de Parménides, se não for complementado com dinamismo, é algo amorfo, inerte, que não mostra toda a vida que está sustentada por isso. Para além das explicações binárias, N. vai muito além disso. Aventa um projeto que terá viabilidade se se cumprirem determinadas condições, éticas, que lançam as coisas para além do anteriormente, para o sobre humano como conjunto de escolhidos (que se escolhem a si próprios), onde nas revoluções anteriores, era um escolhido, um Krishna, um Buda, um Cristo. Agora, Z. procura companheiros, criadores. No Grande Inquisidor de Dostoyevsky fala-se nesse conjunto de escolhidos.

 

Segunda Parte


1) O eterno retorno numa perspetiva dialética

Considerando a ideia do eterno retorno na visão da sua vivência dialética.

“Compromise, that's nothing new to you - logos estático, as morais, o “tu deves”, a infraestrutura que N. tem de reformular, para depois servir de base de sustentação a todo o seu edifício.

Depois, o que há além disso em N. ?

Let's see colors that have never been seen

Let's go to places no one else has been”

logos dinâmico, estrutura dialética da realidade e do eterno retorno.

 

Queremos afirmar que esta perspetiva dialética está imbuída, implícita no pensamento de Nietzsche. Está mesmo mais de acordo com as linhas fundamentais do seu pensamento. A filosofia de N. pauta-se por uma enorme emoção e comoção. A emoção de podermos estar vivos e em sintonia e conexão com a vida, com o absoluto, com a vontade de potência. Vista apenas numa perspetiva binária do ER a filosofia de N. é mais pobre. A filosofia de N. pede mesmo para ser vista à luz de um ER de perspetiva dialética. “let see colours where never been seen” é o espelho das linhas fundamentais do pensamento de N. As espirais os circuitos alternados, guiado por um referencial, criam movimentos de progressão. Estar em movimento, em dinamismo, na dialética, em avanço processual.

Na Gaia Ciência aforismos 285 e 341 o ER é visto numa visão fechada, binária, do claro circulo, da clara realidade circular ( e não há mal nenhum nisso, mas não nos podemos é limitar por isso). Há isso, e há além disso. Muito mais que isso, o mundo e a realidade são muito mais que um relógio suíço.


Temos assim:

logos estático (analítico) – realidades binárias, leis da natureza, círculos, repetições exatas.                                               Identidade

logos dinâmico (sintético) – Processo da Liberdade – Ensaio sobre Heraclito, o fogo que se alimenta de todas as coisas.[19]


Identidade 

                       Equilíbrio de condições necessárias    

Liberdade  / Relação    

 

 

Logos estático (analítico) – pensamento, entendimento, identidade, necessidade.

 

Logos dinâmico (sintético) – alma, fogo, relação, liberdade

 

Logos instituinte – transcende-nos

 

 

Logos estático – Heraclito ® ciência

                       o circulo, binário, a dualidade na identidade, o que é, como não é.

Logos dinâmico – alma, inteligência,

                              Processo, dinamismo, dialético, em processo, em construção.

 

2) A Visão dinâmica do ER

O eterno retorno pode ser outra coisa. Um jogo de espirais e círculos, em vez de apenas um círculo que tudo unifica. Em última instância não sabemos dizer  se esta grande progressão do real, o grande processo do mundo, se é um grande círculo ou uma grande espiral. Qual das visões preconizou N.? Em GC / AFZ, no papel, da sua voz, a binária. Implícito no seu pensamento e suas grandes ideias, a ternária. Embrionária, implícita nas grandes ideias da sua filosofia. Está imbuído na F. de N a visão que o ER tem um propósito dialético, teleológico, profético. O Sobre humano é o espelho disso. – o primeiro de todos os humanos – o significado mais profundo do grande meio dia.

O ER como hipótese, como suposição na GC é mais um sustentáculo para uma superestrutura que dará sentido a toda aquela coluna basilar. Uma superestrutura que fará a conexão do ser físico ao cosmos, do indivíduo à força profunda que gere o real. Não apenas os seres com leques definidos, também as espécies  se superam – “ todas fizeram algo para se superar”

A visão do ER numa perspectiva dialéctica pauta-se por um poderoso pensamento que para sempre podemos alterar o passado e o futuro. O tempo pauta-se também por uma profunda verticalidade.

“Tudo isto durou um longo ou curto tempo; pois na verdade, já não há tempo sobre a terra para medir tais coisas.”[20]

 

3) Tempo vertical 

Como o tempo psicológico de Agostinho, em cada momento, vivê-lo trespassando cada ponto do seu decorrer horizontal e cronológico, mensurável (do tempo). Para além dessa manifestação do tempo, temos outra, em que em cada ponto da sua linha horizontal se pode traçar uma linha vertical de infinita elevação e profundidade, onde cada segundo tem uma infinidade de clones, de repetições, que o agora estará sempre e para o fim dos tempos a acontecer. Em cada momento um infinito, uma eternidade. Estão, nesse jogo dos espelhos e dos clones infinitos de cada instante, a vida pode ser prodigalidade e super abundância. Tudo existe em permanência e eternamente, cada segundo entre, cada segundo é vivido e revivido eternamente para trás e para a frente.

Não havendo passado ou futuro, o tempo decorre em sintonia de cada momento consigo mesmo. Todo o ER está a acontecer aqui e agora em diferentes dimensões. O ser humano pode, em cada replica mudar a sua ação, pode melhorar-se, pode aperfeiçoar-se, progredir ao longo das existências e em cada replica desta vida, participar numa unidade processual, ir além de uma definição estática da realidade, do ser é, e aventurar-se e integrar-se, inter agir como o que está a ser.

 

 

TERCEIRA PARTE


1)Binário e ternário

O ER em N. - como antecâmara – introdutório – para a apresentação da sua ideia principal (essencial) o Amor fati – o amor pela vida na sua totalidade, no seu positivo e negativo, a vida integral. O eterno retorno como sustentáculo para a sua ideia de abismo, de profundidade da vontade de potência.

O ER em N. binário, suporte para outra ideia. Ternário, em embrião, implícito no seu pensamento. Fora isso, fora como ideia introdutória para apresentar outra coisa. Apenas como repetição infinita, o ER só tem esse sentido na filosofia de N. Faz sentido como sustentáculo binário, como parte de um todo, mas depois há em N. muito mais que o lado basilar (mensurável, definível). Dois ER, o ER circular;  o ER dialético.

O circular / o dialético. N. fica-se pelo circular, porque o utiliza apenas como instrumento, a plataforma para lançar a ideia do amor fati. AFZ – “O Convalescente”. Visto apenas na perspetiva da infinita repetição, limitado a uma das suas vertentes, o ER seria mais um nada, e toda a existência seria um absurdo.

2) Do advento da tragédia

Um mundo trágico, repetindo a dor e o sofrimento eternamente é uma perspetiva terrível, uma perspetiva de horror que o holocausto e todas as atrocidades e genocídios da história se possam para todo o sempre repetir, ( Z cai por terra no “Convalescente”) e para além do mais, vamos amar isso.

Será que não podemos amar com critério? Será que não podemos realmente escolher o que deve ser repetido, se com a consciência não podemos selecionar realidade que achamos que vale a pena ser revivida. Esta perspetiva também está de acordo com a visão de N. da sua analise da validade dos valores.(o que podemos passar por cima sem que tenha de novo de acontecer?)

Temos de nos entregar nos cornos do animal selvagem? – do devir circunstancial, sem finalidade (de um logos dinâmico, no devir) e deixar que uma força incomensurável dirigir isto como tem dirigido até aqui toda a existência? Não há lugar nem papel para o homem? Ou se integra na grande perspetiva da veia cósmica ou deixa de ter lugar no teatro da existência. Quando se atinge este limiar da mente, do seu desenvolvimento, uma ação egoísta fora da conexão ao todo quebra a conexão ao todo. Não é compatível, e só persistirá que se souber adaptar à exigência sugerida pelo meio a seres criados na existência. Somos adultos e maduros, responsáveis e sérios na maneira como agimos perante o planeta, no nosso amor à terra, no nosso compromisso com a terra e com o corpo, ou não passamos de trastes, de roupagens de superficialidade e aparência, quando na sua essência não existe nada de válido a esse nível. O mundo, a vontade de potência exige à espécie que passou o subliminar da sensibilidade, exige-lhe seriedade. Que estais a fazer com este consumismo que suga o mundo e as vidas em prol do lucro desenfreado? Que estais a fazer com este capitalismo de rapina e exploração de humanos e da natureza? Tereis voltado à forma de animais dos que devastam tudo por onde passam, não estão por ventura equivocados a pensar-se pragas de gafanhotos, vírus do consumismo. Que se passa na cabeça dos humanos? Não estão por acaso a confundir a vida com um filme, e pensam se calhar que esta catástrofe não está a acontecer à terra, não está a acontecer também a nós? Seremos tontos ao ponto de sermos como a rã na panela? Talvez. Assim não subsistiremos. O mundo exige, ou nos superamos, ou sermos superados.

“O humano é apenas uma corda sobre o abismo”

“Todas as espécies fizeram algo para se superar, que fizestes vós para vos superardes?”


3) Lado B

O lado válido na ideia de ER apresentado na filosofia de N. é que essa ideia é abraçada como um ato de fé. Dançar com a vida ao som da música. A iniciação que pode abraçar o amor fati. E daqui para a prodigalidade, plenitude, o amor incondicional à vida. Aceitar tudo de bom e de mau numa prova de absoluta entrega ao estar aqui, à vida e ao amor que temos por tudo isto que está vivo aqui e agora, por este momento. Um profundo carpe diem. O tempo vertical que faz cada vivência absoluta e eterna. Os clones infinitos de cada momento, vividos em simultâneo no sem limite da sua possibilidade. Amar a vida, ser fiel à terra. Amando tudo amamos a terra e a vida, esta vida, o momento, o real, a circunstância, o estar aqui. Não ir atrás de aléns, de paraísos que fazem desta vida uma antecâmera para a outra. A vida, o viver é aqui e agora. Rejeição da espiritualidade cristã e hegeliana. Da Imortalidade repetitiva para o  amor fati – ama tudo o que tiveres de fazer – a conciliação universal do todo. Suporte para – o circulo, suporte para a grande dialética – a conciliação dos opostos Na perspetiva dialética podemos nos libertar do fatalismo, de uma última instância do determinismo. A rejeição do fado, de uma visão de amar tudo, bom, mau, para uma seleção do que vale a pena. N começa por uma critica e contestação dos valores e da moral. A liberdade de podermos optar, podermos escolher que há momentos que não queremos que eles tornem a acontecer. Nem mesmo quando esta vida e estes momentos se repetem eternamente. São as estruturas que se repetem  - as ações, os percursos podem divergir. Há opção. É o que N. veio dizer na sua critica à moral, é isso que se pode dizer perante a vontade de potência. Agindo com o absoluto tomamos parte na grande dança do cosmos. Não somos apenas marionetas que se limitam a desempenhar o mesmo papel até ao fim da existência (no pensamento de N. também o podemos encontrar). Para além do jogo dos espelhos circunstancial, somos atores no infinito dos clones de cada momento, e em cada um deles podemos melhorar, não é contrário ao espírito do pensamento de N. há opção.

 

 

Conclusões

1) Em vez de eterna repetição, preconizada por N na GC e nos capítulos do AFZ  a dialética ( implícita, em génese, em potencia,  no pensamento de N) apresenta eterna possibilidade. Podemos reviver cada momento e em cada momento podemos escolher, ( vs visão instrumental do ER.) e em vez de ser eterna repetição, será eterna diversidade, infinita potência. Qualquer perfeição será possível de alcançar até um patamar em que o humano que faz a elevação ética deixa de sofrer por carência de necessidades básicas para uma vida com dignidade. A potência revela toda a sua abertura. A grande força, a vontade soberana. O caos na cultura clássica era uma abertura, um infinito que permitia a difusão, o definir das coisas. As realidades ganham definição a partir de um caldo, de uma amálgama coletiva de todas as coisas.

2) O infinito caldeirão de todas as coisas, na sua repetição infinita, revela toda a sua prodigalidade. Existe de tudo em infinitas quantidades. Com o processo certo, adequado, processaremos toda a realidade e todas as coisas conforme a pretensão universal da vida. Através de nós, o espírito ganha realidade física (assumimos um estádio superior – o divino) e todas as coisas são possíveis. Sim existe a possibilidade lógica, mas nem todas as coisas são exequíveis. Há uma diferença entre a possibilidade e a exequibilidade. A liberdade pode ser absoluta, não total, (liberdade absoluta, com regras, ante a liberdade total, sem regras, onde tudo seria licenciado, mesmo a desordem que lançaria o mundo num caos). A liberdade absoluta pressupõe uma estrutura de base, uma ordem, um sustentáculo onde assenta depois todo o voo do espírito. A liberdade pode ser absoluta, liberdade quanto aos condicionalismos espácio temporais, mas só para os que conseguem responder à exigência do logos dinâmico, só para os que atingiram a maturidade ética. A abertura, a infinita fonte. A vida com infinita potência, será superabundante e pródiga. Visto o ER nesta perspetiva a potência, a possibilidade é como na física quântica, a imaginação marca os limites do possível. A ética marca os limites do exequível. A ética é a exigência do sobre humano. A total licenciosidade seria uma opção pelo caos. A vontade de potência pressupõe uma estrutura de ordem. Por isso a escolha, a rejeição da unicidade do círculo, do eterno retorno como repetição infinita. No círculo não haveria escolha – a ética é a possibilidade de escolha – estava determinado, e não podemos ser responsabilizados pelos nossos atos.

A licença não é para usar toda a potência do mundo de acordo com interesses individuais, de um querer egoísta, mas sim, uma perspetiva de um caminho (N.  - o mundo ainda não tem um alvo) que una os criadores, os destemidos, que avançam sem moral, sem corda por cima do abismo.

 

 

Algo Mais

1) O estar aqui, na existência.

A ideia do ER. a visão binária de N. na GC e no AFZ. A ideia do ER como circulo fechado, como perspetiva parcial. A ideia do ER pode ser vista e definida sob outra perspetiva. Mas em N. a validade da ideia não advém de ela ser só uma visão binária. Em N. ela serve de sustentáculo para N. lançar a suas ideias / principais: Sobre Humano, Amor fati, transmutação dos valores a ideia do ER para N. serve como prova iniciática, para se poder aspirar ao amor fati, como prova; ao sobre humano como exigência à rejeição da moral, como evolução e esclarecimento, à aliança com a vida (VP), com tem de se dar a aliança com a vida, o amor fati é esse relâmpago que estabelece a conexão.

O amor fati sustenta o pleno envolvimento com a vida, com a existência. Amar tudo o que está, dor e alegria, com a mesma intensidade, com a mesma intensidade de estar a amar e em conexão com a vida, no seu todo, e no seu coração vital. Para além dos círculos, das ideias restritas de ER, em N. podemos desenvolver o que deveria ter significado o ER para o pensamento de N. A verdadeira dança com Heraclito, só se dá na plenitude da dialética. E a ideia de ER em N. é binária. Por isso não é com o ER que N. dança, o ER é apenas base de sustentação, um trampolim para, para a plenitude do pensamento, para o Amor fati, com o sobre humano, com a transmutação de todos os valores, que advém da oportunidade que surgiu com a morte de deus e com o vazio da sua perda. O louco com a lanterna apontava à linha do horizonte. Ficou-se sem ponto referencial. O horizonte deixou de ser referência. Temos de encontrar dentro de nós os criadores. Numa perspetiva dialética (então) o ER seria o acontecer infinitamente da redenção. Em cada repetição se tem a oportunidade de corrigir, retificar, evoluir.

Essa é outra ideia de ER. para mim, em N. está em génese, latente e escondida, mas está lá. Esta visão é mais plena de sentido e adequa-se melhor ao pensamento de N. (pensamento de N. concretizado).

Mais plena de sentido e de oportunidade, esta visão dialética não nega o circulo, integra-o, num grande quadro geral, onde a chegado do realmente novo vem rebater a ideia de que o mundo se pauta por repetição infinita do mesmo.

À luz da dialética, a união que fazemos à vida, torna-nos avatares de uma divina circunstância. O amor que exprimimos por ela através do AF torna-nos iniciados, criadores. Por momentos, durante aquele tempo somos um com a vida , a VP, com o absoluto. Nós estamos sendo nele, e ele em nós. Temos também ideia em N., estamos sendo um com a vida, com o espírito, com o absoluto. Neste momento o divino, como estado, materializa-se no nosso avatar.

Através de uma ética elevada, libertos de morais e emancipados das ordens gerais, o ser que era o homem, passa a ser o humano, o super homem. O ser humano olha e rejeita a viver em prol de esperanças supra terrenas, não quer saber da vida por memórias do passado ou em alienação em nome de um futuro que ainda não está aqui. Os humanos sabem dentro de si o que está correto. Se vivem em pleno, escutam o logos, o estático e o dinâmico, a vida, a manifestação neste mundo de uma entidade que para sempre ficou relegada no seu plano transcendente. Mas está lá, aqui, A vida, o logos dinâmico gere o organismo do cosmos, e nós, ou estamos contra essa maré, ou estamos em sintonia, aceitando-a como ela é, e assim, sem medo, sem falsos saberes ou crenças, se afirmam os humanos com um estar mais pleno.

 

2) Terceira faixa

Se todos os segundos se repetem, infinitamente, há uma infinitude de espelhos e de realidades paralelas.

Se são apenas espelhos infinitos iguais?

Ou são clones infinitos deste momento.

Sendo fiel à essência da filosofia de N. parece não fazer sentido que em todos se passe exatamente numa eterna repetição do que já foi. Cada repetição deste momento tem de ser apenas igual a si própria, como se não pudesse haver transformação, mutações, desenvolvimentos. N. usou o ER como trampolim (meio indiferenciado, certa visão esclarecida) para as suas ideias maiores

Amor fati – ER como prova

Sobre humano – ER como perspetiva dialética – um traçado a ser alcançado, ou então o Sobre humano sempre existiu.

Transmutação dos valores – morte de deus

Dialética, na rejeição da não validade. Uma ética intima transborda do melhor de cada um. Rejeição à sujeição do pensamento, rejeição à sujeição ao devir (passado ou futuro). Devir circunstancial e devir a longo prazo – esquecendo o que está, olhando para outro além, ignora a vontade de potência. A abertura que tem a imaginação como o limite do possível, e a ética como o limite do exequível.

 

3) Parte IV

Devir – 2 manifestações do  devir- Como o Tao e o tao.

imediato – o que se faz

Transmutação circunstancial – para onde se vai

Exigência ética – sobre humano

Visão dialética – exigência de criadores – novas tábuas

Transmutação de valores- deitar abaixo – Xiva o destruidor.

Negativo, o oposto. Rejeição da moral do não presente – exigência de criadores. Afirmação plena no aqui e agora, no espirito imortal divino que gere o presente. A vontade de potência, um espirito que tudo leva no seu intento. Um grande conflito em N dá-se entre o determinismo repetitivo ao infinito, e uma liberdade da criação plena e da potencia infinita.

Duas faces de um ser menor

Logos estático (analítico) – o circulo

Logos dinâmico (sintético) – a espiral

Ambos presentes na filosofia de N., um declarado, o outro imbuído no espirito e na sua necessidade para o organismo de N. abra em pleno as suas azas no cumprimento de mais uma etapa das suas potencialidades. A Vontade de Potência exige atualização.

 

Bibliografia

Nietzsche, Frederico, Assim falava Zaratustra, (1883-1885), Lisboa, Editorial Presença, 1974

Nietzsche, Frederico, A Gaia Ciência (1882), Lisboa, Relógio D´Água Editores, 1998



[1] Nietzsche, Assim falava Zaratustra, (1883-1885), Lisboa, Editorial Presença, 1974, § “O Convalescente”, p. 231

[2] Nietzsche, Ibidem, p. 231

[3] Nietzsche, Ibidem, p. 233

[4] Nietzsche, Ibidem, p. 233

[5] Trabalho sobre Heraclito - Processo da  Liberdade em Três Partes

[6] “Não é possível descobrir os limites da alma, mesmo percorrendo todos os caminhos: tão profunda medida ela tem.” Heraclito, Fragmento 45

[7] Nietzsche, Ibidem, p. 233

[8] Nietzsche, Ibidem, p. 233

[9] Nietzsche, Ibidem, p. 234

[10] Nietzsche, Ibidem, p. 234

[11] Nietzsche, Ibidem, p. 235

[12] Nietzsche, Ibidem, p. 234

[13] Nietzsche, Ibidem, p. 234

[14] Nietzsche, Ibidem, p. 235

[15] Nietzsche, Ibidem, p. 236

[16] Nietzsche, Ibidem, p. 236

[17] Nietzsche, Ibidem, p. 236

[18] Nietzsche, Ibidem, p. 237

[19] “Quando nos libertamos da perspetiva parcial, e nos integramos na experiência da vida, sentimos que nós somos apenas uma gota de agua numa imensa onda.  Podermo-nos sentir nela é a experiência de uma vida.  O fogo faz todas as compensações, necessita dos homens que dormem, quer-nos vivos, necessita do mundo natural, necessita de estrelas e galáxias.  O fogo ultrapassa-nos, mas faz-nos pensar, não é uma onda, a onda é o engano dos que dormem.  A realidade não se repete incessantemente, os que pensam assim não escutaram o logos.  É impossível tomar duas vezes banho nas mesmas aguas, as margens mantém-se, (o logos estático), as leis da natureza são algo que é estrutura da realidade, mas o rio, (a vida, o fogo), passa.  O fogo é como um rio que corre sem fim, mas a metáfora do fogo ultrapassa o rio, por isso o rio foi apenas uma imagem, pois o rio ainda está circunscrito a um fim.  O mundo também é um rio definido, mas é mais que isso, uma das partes do mundo é essa realidade cíclica, uma outra a realidade dinâmica que só se pode representada pelo fogo.

O fogo é um rio que se está sempre a fazer.  É um rio sem margens, (ou as margens deste rio transcendem-me) que corre com a liberdade suprema, sem fim, que se acende e extingue na medida das suas necessidades.  O logos é ordem de segurar a base estática, estrutural, mas é também ordem para o dinamismo.  Não bastam as leis, tem de existir os seres.  Não basta o dever, tem de existir o prazer, compensam-se, mas um sem o outro não faria sentido. Não basta as coisas estarem encerradas, tem de existir a abertura. “ Ensaio Processo da Liberdade - Heraclito

[20] Nietzsche, Ibidem, § O Sinal, p. 347



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