domingo, 19 de janeiro de 2025


 


Nº 20 - Nietzsche 

Ética Elevada no Advento do Sobre Humano

Boletim de Ideias Filosóficas



Revista Opúsculos

“Opúsculos sobre o Fim de Um Mundo”, revista não oficial de poesia, filosofia e religião, lançada em 2007 com a divisa, “esta é a minha verdade conta-me a tua” (desde o número 11 referenciada como “Boletim de Ideias Filosóficas”).

Ilustrada com quadros dos mestres, quadros de novos artistas, promessas desconhecidas, serigrafias, poesias, breves e profundas orações (só nos primeiros números consegui colocar as ilustrações).

Nos primeiros números, pequenos contos, textos, explorando ideias da filosofia. Outros números, foram trabalhos para determinada cadeira e que acho que tem validade como tijolo na construção e sistematização de uma tese geral.

Revista feita por alunos e estudantes de filosofia, nas suas páginas, os textos preliminares dos pretendentes na descoberta e edificação de um pensar próprio, revista dos audazes aprendizes na disciplina de arquitetura da mente.

A revista não quer ser algo pomposo, nem se quer afirmar como detentora de qualquer verdade. Sustem-se na ideia aristotélica de arte na "Poética" aplicada à filosofia (acho que uma certa maneira foi o que Kant fez da filosofia, após o esclarecimento (na "Crítica da Razão Pura”), do que era ciência e de que a filosofia não o podia ser).


Nietzsche

Ética Elevada no Advento do Sobre Humano




“ Este abismo de a existência de tudo ser um abismo, […]”

 

“Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

Fernando Pessoa



Índice

1) Introdução

2) Das 3 Metamorfoses

3) O Leão

4) O Embate contra o Cristianismo

5) A Criança

6) O Sobre Humano

7) Fraternidade e Solidariedade

8) Uma Extrapolação a partir de Nietzsche

9) Inviabilidade de um Existencialismo Solipsista

10) Conclusões

11) Post Factum  - Anarquia dos Seres Divinos



1) Introdução

Aqueles que renunciam à vida, estão a rejeitar cada momento, não olham para ele, para o presente, para o que está aqui, em nome de outra coisa que não está, negam a vida, a sua super abundância, a sua prodigalidade, o seu espírito, e alienam-se de tudo isso. A crítica de Nietzsche vai no sentido do absurdo de ficarmos presos a valores obsoletos, caducos, ultrapassados e de não vivermos a vida porque nos alienamos dela em visões de esperanças supra terrenas, nos alienamos em passados que já não existem, ou em futuros que ainda não estão aqui. Todas essas são formas de alienação, formas de nos amputar a vida, que é única.

 

2) Das 3 metamorfoses

O camelo carrega toda a tradição e saber acumulado. Um ser humano que se queira educar e viver pelas vias tradicionais tem de carregar com uma certa visão do todo, vai carregado com todo o passado, válido e não válido.[1] Até mesmo certos valores do passado que já foram ultrapassados e já não têm validade, o camelo têm de viver segundo eles. Relativamente a esta questão, em Nietzsche, quando as coisas já não são válidas devem-se descartar.[2] Kant veio acumular sobre o conhecimento um marco fundamental na discussão sobre o que era filosofia e o que era ciência. Mais saber, mais carga nas costas do camelo. O camelo transporta toda a carga, todo o fardo do conhecimento, as tábuas morais, os valores obsoletos, as ações amputantes, os sistemas, racionalistas, idealistas, os valores cristãos.[3]

Como no espirito do camelo, Kant foi um homem que viveu a sua vida perante uma corrente de circunstâncias programadas ao detalhe no seu dia-a-dia. No havia lugar para o inesperado, para a mudança, pois tudo decorria conforme tinha sido programado e planeado. Kant negou-se a si próprio e foi o que um filósofo deveria ser. Nietzsche veio reclamar que não pode ser assim. Não nos podemos anular em troco de uma verdade maior, se essa verdade não for autêntica. Não adianta adiar a vida por um ideal para lá das nossas limitações físico temporais. Quando perseguimos algo que não conseguimos alcançar nesta vida o resultado é sempre amargo. Houve demasiadas vidas, como Kant, como Newton, e muitos outros que se anularam como humanos, como corpo, e viveram em prol de um ideal, de um caminho para, como no hinduísmo, um caminhar ao longo de gerações, o espírito que cresceu com os vários indivíduos, que se entregaram na construção da senda, do grande fantasma, segundo Nietzsche. O grande dragão das escamas milenares. Para Nietzsche temos de escapar ao passado, à tradição, que está caduca, obsoleta, essa moral de escravos, de resistência, de abnegação e de sofrimento.[4]

 

3) O Leão

O camelo vai-se encaminhando para o deserto, e dá de caras com um niilismo passivo, com um existencialismo solipsista que nos amputa a vivência e nos leva a um resignar e à desistência. O camelo simplesmente se deixa ir, e isso é o que acontece com a grande maioria, a maior parte do tempo. Mas não é na grande maioria que Nietzsche está interessado.[5] Pensamos que mandamos nas nossas vidas mas somos prisioneiros das circunstâncias. É isso que Nietzsche nos vem dizer. As vidas planeadas podem ser uma prisão. Um não viver, viver para o futuro e não para o presente, ignorando a grande festa (o eterno retorno, a eternidade em cada momento), desconsiderando o grande estar aqui. O camelo vai-se perdendo, no niilismo passivo, “nevermind”, deixa andar, e assim as vidas se perdem, e assim as vidas deixam de ter valor.

O grito do leão é um grito pela dignidade.[6] Um dizer não, a adjudicação do valor da dialética em todo o processo do espirito. Dizer não é pensar, refletir, criticar. Contestar os valores milenares quando estes não tem validade, afirmar a vitalidade do corpo, da vida, do aqui e agora. Se fosse só dizer sim, "eu carrego”, então seria como afirma Byung-Chul Han no seu texto a Sociedade do Cansaço, seria a positividade absurda, o organismo engatado numa única velocidade e perspetiva. Um tu deves, eu obedeço. Um mandamento a que se responde com um amem, a Deus, à sociedade, a nós próprios. Ao nosso compromisso com o dever Nietzsche vem dizer: questiona! O leão é o grito do contraditório, o não que faz o complemento, a oposição, o confronto, e dela, o nascimento de algo novo. Polemus é a mãe de todas as coisas,[7] o leão como a condição para a possibilidade da dialética.[8] A dialética é o dinamismo do real vivo, aqui e agora. O não do leão é dialético, é o dinamismo para a realidade. Polemus. O leão é a força da dialética. O não que vem possibilitar o desenvolvimento.

 

4) O embate contra o cristianismo

Podem haver esperanças que valem a pena, esperanças terrenas. Nietzsche nega tudo o que se projeta para esperanças supra terrenas, que veem dos adoradores do além que já não são deste mundo.[9] Apenas é esperar e vê-los cair. O último homem[10] é o espetáculo de uma sociedade em decadência.[11] Quando perde a pujança para se reinventar, quando perde a capacidade para escutar e entender a realidade, e se revê numa imagem tranquila que criou para sua segurança e proteção, quando vive acorrentada à tradição. No ideal do escravo, do sofredor, que não estando nas capacidades para suportar a dor da realidade, a força da realidade, inventa um mundo próprio, uma zona de conforto, onde a sua alma, o seu espirito e o seu corpo jazem. Não podemos ser prisioneiros do passado, de todo o passado sem distinção.

No texto Para a Genealogia da Moral Nietzsche investigou a validade das ideias morais. O que tem valor? De onde lhe vem o valor, se já não há um referencial absoluto, se já não há Deus? O embate de Nietzsche vai no sentido da querela que envolve toda a filosofia de Nietzsche, que advém do choque com o mundo cristão (meio onde nasceu, o seu pai e o seu avô eram pastores luteranos), das regras e dos costumes continuados. O pensamento de Nietzsche tem a ver com a possibilidade de alternativa, de rejeição de algo, (mesmo que esse algo seja algo tão importante como as ideias religiosas), que, se não têm validade, tem de ser descartado. E não apenas as ideias, Nietzsche vai rejeitar todo o sistema vigente, toda a organização das sociedades em torno de valores que foram ultrapassados, que estão obsoletos. Uma mudança de paradigma no sentido de Kuhn. Nietzsche vem reclamar contra o Deus estático, transcendente, que padeceu por não ter mais conteúdo.[12] Para afirmar uma plena força de vida, na vontade de poder, como a força dialética que dirige todas as coisas. Não nos podemos deixar ir na caravana passivamente aceitando sem questionar, olhando sem saber ver, a cumprir sem atestar a validade. A força do mundo é imensa e exige responsabilidade. Não podemos ser ingénuos, imaturos, acríticos. O poder exige idade adulta. Há valores que perderam a validade e cada um de nós individualmente tem capacidade para saber o que é certo e errado e instituir os seus próprios valores, dentro da criação de uma nova ética pessoal.[13] O humano de Nietzsche é o humano da ética pessoal. Um valor elevado que irrompe do íntimo de cada um.[14]

 

5) A criança

A criança é o resultado de todo este imbróglio. A criança é o espírito esclarecido que questionou os valores, que vai criar novos se tiver de o fazer. Vai escolher por si o que quer seguir. Nietzsche prega forte pela criação de novos valores.[15] Quando as respostas que existem não satisfazem tem de se ir à procura de alternativas. A criança é uma afirmação da infinita potência.[16] Há um momento em que a criança é infinita possibilidade, pura luz. É a essa criança que se refere Nietzsche, tudo em aberto, zero de condicionantes e de correntes que nos cingem ao que foi. Não mais cordões umbilicais de ligação ao passado se este não tem validade. Tudo pode ser novo e infinita possibilidade, esta é a super abundância, a suprema festa. Agora é e será. A criança tem a possibilidade de criar as alternativas. (Fernando Pessoa, não sendo nada posso ser tudo. O nada na criança como possibilidade infinita)

 

6) Sobre humano

A doutrina do sobre humano de Nietzsche é em nome de uma “verdade maior”, mas Nietzsche não a rejeita por isso, não acha que se vá anular (alienar) nela. Embora ela seja um objetivo, um almejar, um se, Nietzsche, ainda assim afirma a teoria do sobre humano. Direciona o ideal para a realidade porque acredita numa esperança terrena, para este momento, para o aqui e agora.[17] A mitologia de Nietzsche passa pela visão de um sobre humano. Um passo acima no patamar da nossa evolução.[18] Antes éramos mais animais que humanos, agora somos humanos e depois, para além de, mais que humanos. Nietzsche preconiza uma evolução, nova atualização da espécie, o humano vai passar a ser a versão anterior da nossa espécie. Dentro das possibilidades abertas e expressas pelos vários companheiros, (discípulos), os escolhidos vão possibilitar um salto na espécie.[19]

Projetando consequências do pensamento de Nietzsche uma outra espécie de humanos emergirá e desses, contrastando com o solitário de Para a Genealogia da Moral, estes são seres que se integram em coletivos, equipas que agem como seres coletivos vs existencialismo solipsista do humano pós moderno de Byung-Chul Han. Não deixam de ser indivíduos, mas agem em conjunto em unidades integradas, por objetivos e conquistas comuns. Um humano que ultrapasse as morais, se emancipe eticamente para além do: “tu deves dizer amem”.

Devemos dizer sim, mas para nos afirmarmos como nós próprios, para esse novo passo antes dessa atualização, temos sempre de encontrar, colocar uma negação que faça o contraste, a oposição, para se dar o pensamento, que assim anule a afirmação anterior que nos aprisiona. Questionando, colocando de lado o que não tem valor, afirmando e separando como que numa escolha das maças boas, valores que queremos para a nossa conduta, a ética que construímos para nós próprios.

Nietzsche preconiza uma elevação ética dos indivíduos que se separam da colmeia e se afirmam como humanos. Libertai-vos das teias das coletividades caducas, ultrapassadas, obsoletas. Olhai e escolhei o vosso próprio caminho. Mas não vão à procura de algo que vos escravize. Não vão atrás de esperanças supra terrenas, ou viver para o futuro, anulando-vos. Não, vive, mas vive a vida, o presente. Queres construir um Olimpo, sim podes, mas constrói aqui e agora, na Terra, no hoje. Porquê esperar mais, se está ao nosso alcance, o grande festim da imensa força da vida.[20]

 

7) Fraternidade e solidariedade

O que é a fraternidade? O que é a fraternidade, a solidariedade? O que é o ideal humano? Para Nietzsche correntes que suportam os fracos. Para Nietzsche, embora eu não concorde com esta radicalização, só os fortes devem prevalecer. Devemos deixar o último humano cair por si.[21] Para Nietzsche devemos quebrar a corrente social, quebramos a conexão a todos os humanos e todas as coisas. Só a ética de alguns prevalecerá, tudo o resto irá abaixo pelo cano da história, é sem valor e não tem como se manter. Para Nietzsche há que “separar o trigo do joio”, separar o que tem validade e as vidas que têm validade. Quem se quiser transformar, quem se quiser reformular vive. A força da lei evolutiva das espécies, os que não se adaptam acabam ultrapassados pelas circunstâncias. Quem quiser continuar no niilismo passivo, negativo, quem quiser continuar a herança dos últimos humanos, da absurda positividade de Han, quem não quiser realmente viver, que fique entregue ao seu destino atroz. Um abandono para com aqueles que estão perdidos, para com aqueles que estão enganados.

No último humano simboliza-se isso mesmo. Hoje mesmo, rebanhos e rebanhos de russos levados pelas mãos do grande pastor Putin, sem direito a voz, a opinião. Rebanhos e rebanhos de chineses controlados numa distopia real no esquema do crédito social. Calados e obedientes, como carneiros, aprisionados por lobos. E o que Nietzsche sugere? Que os esqueçamos, que os abandonemos, que os deixemos entregues ao seu fado e à sua sorte. Para o humano não há salvação. O último humano representa o apogeu e a derrocada das sociedades como as conhecíamos. Dai para a frente só decadência e anúncio de algo novo. É uma nova alvorada. O surgimento de um novo patamar para a espécie, a atualização, o próximo passo evolutivo na espécie conhecida como humana, num mundo mais limpo de enganos, de cegueiras, de preconceitos e de dogmas que nos tolhem as ações e o pensamento. Uma libertação dos constrangimentos sociais, dos constrangimentos religiosos e políticos.

Um indivíduo vale por si, um anarquismo ético. Cada um é uma criança dos seus próprios valores ou os nossos valores são crianças que vamos desenvolver como quisermos. Os criadores representam quem subsistirá (prevail). Aqueles que conseguem para si uma ética de valor, serão os iniciados de uma nova possibilidade ôntica que vai subsistir e prosperar. Nietzsche deixa os enganados para trás. Zaratustra tentou junto das multidões, mas as multidões querem outras coisas.[22] Zaratustra vai então procurar humanos que queiram ser criadores dos seus próprios valores (os companheiros e não as multidões),[23] de uma nova ordem de valores e através dessa afirmação ético-moral, esses serão projetados para um degrau mais elevado no processo evolutivo. A evolução das espécies não acaba por aqui, ainda temos caminhos a percorrer, há que nos libertar desta pele de ser humano. Ser que para Nietzsche ainda é demasiado imperfeito, sem maturidade, que tem de ser levado pela mão por ordem de morais caducas, ultrapassadas e sem validade.

Para Nietzsche a alternativa é dançar, “joie de vivre”, e abraçar a vida, levar essa vontade de poder, a tal serpente de Jim Morrison, “ride the snake, to the lake.” Perante um mundo de correntes, de escravidão - “No chains around my feet but I'm not free” Bob Marley – Sendo a vida muito dura e implacável para a maioria dos humanos. Nietzsche desconsidera toda essa vontade de trazer conforto às maiorias, de nivelar as sociedades, dessa democratização amputativa e medíocre, ante uma afirmação de uma elevação do ser humano, uma afirmação de qualidade, de dignidade, desconsiderando a quantidade e o viver humilde, a existência comezinha, o ir vivendo aos poucos. Para Nietzsche ou se vive realmente, em festa, em dança, em super abundância, com qualidade e dignidade, ou não vale a pena.

Que fazer para rejeitar todo esse modo de vida sem validade? Nietzsche diz não às alternativas supra terrenas, ou às terrenas para depois. O que podemos fazer é questionar, compreender como queremos viver, e porque queremos viver, e o que temos de fazer para viver a vida que escolhemos. Se isto emboca num existencialismo, vemos que ele não pode ser solipsista. O humano superior de Para a Genealogia da Moral não faz sentido. Zaratustra sai da montanha e vai à procura de companheiros, realiza também uma dialética descendente, à imagem da dialética descendente de Platão, à imagem de Bodhisattva.[24] Não mais nos prender à força das circunstâncias. Há alternativas, há possibilidades infinitas. A criança é isso que representa. Há uma centelha, o divino como um estado, que vive no meio de nós, como uma “eternal flame”, que se manifesta no fundo do nosso corpo, no mais íntimo de nós, que se não soubermos lidar com isso perdemo-nos e a vida devora-nos. Por isso a exigência de maturidade, de elevação ética. Por isso não podemos continuar a ser menores que são levados pela mão por morais genéricas, caducas, ultrapassadas. Toda a força da vontade de poder, toda a pujança e determinação de um poder absoluto, temos de desenvolver uma maturidade ética para conseguir lidar com isso.

 

8) Uma extrapolação a partir de Nietzsche

Nietzsche veio apontar um caminho de superação ética.

Humanos menores, seres de moral, não subsistirão (prevail) ante um mundo sem referências de fundo. A luz de Deus apagou-se Nietzsche refere isso precisamente no texto célebre do louco com uma lanterna à procura de Deus na Gaia Ciência. O horizonte ficou sem sentido, e terá de ser o humano a dar valores a si próprio, através, pelas vias de uma elevação ética, que restituirá um sentido na linha do horizonte. Antes os seres humanos precisaram de morais, eram seres menores, tinham nascido tutelados. Na nossa ilusão, e nas Declarações Universais dos Direitos Humanos (1948) pensávamos que nascíamos livres. Não, a liberdade não é dada, a menores, a seguidores das morais. A emancipação, a liberdade não será dada. Tem de ser conquistada, pela maturidade, pela ética.[25] Terão de ser os humanos a conquistar a sua maioridade. Kant falou das “luzes”. Novamente um vislumbre da Aufklarung traduzida em termos da afirmação do corpo, da natureza e da vontade de poder. Da exigência de uma ética imaculada e de uma profunda afirmação de um valor pessoal que possa ser universalizado entre os criadores.

O humano que vê para lá dos seus limites e restrições, inspirado por um imenso clarão que brota do fundo do seu corpo, uma força selvagem maior que todas as coisas anima as nossas entranhas. Seres menores nunca souberam lidar com essa força, com essa vontade de poder. Só seres eticamente evoluídos, que se libertam das morais impostas e intentam criar os seus próprios valores, que sabem que a liberdade absoluta é possível mas que a liberdade, o licenciamento total não. Só esses é que compreendem até onde se pode ir. O que é a liberdade absoluta, como esta se distingue da liberdade total e como esta não é possível, uma vez que sem um patamar de ordem, o mundo seria um caos. No “red line” das suas capacidades, no limite, os menores ficam deslumbrados. Han denuncia a cegueira da desenfreada competição entre indivíduos menores e não esclarecidos. Não pensam, não há reflexão, não há distanciamento. A contemplação relegada para uma prática de outras eras. Há apenas um seguir em frente. Uma força absoluta e irresistível como a vontade de poder só pode ser levada com uma ética irrepreensível, com um amadurecimento e um esclarecimento que não está ao alcance do ser humano. Nietzsche aponta para uma superação, uma emancipação ética porque o ser humano ainda é uma criança. Brinca com as dualidades, com os códigos binários, vê a realidade a preto e branco, as imagens na bi dimensionalidade. Não sabe lidar com a dialética, com as tríades, com o dinamismo, com as transformações que muitas das vezes são apenas aparentes. Nas transformações de fenómenos há a perenidade dos constantes. Nietzsche aponta para uma dialética que introduz dinamismo verdadeiro no desenvolvimento do ser, e não o ilusório dinamismo do humano positivo, nem do dinamismo perante um além que pensa que está a avançar num caminho, mas só está a alimentar um vale de miragens e ilusões, a correr desenfreado para lado nenhum.

 

9) A inviabilidade de um existencialismo solipsista 

(Consequências do pensamento de Nietzsche)

Nietzsche também vai descartar um sobre humano condenado a um existencialismo solipsista. O solitário de Para a Genealogia da Moral também não é a resposta que Nietzsche procura. Zaratustra renuncia às multidões, esquece o humano em geral, para se concentrar num grupo de escolhidos, iniciados aos quais se quer associar.[26] A ética que cada um encontra em si, numa anarquia de sobre humanos, que se encontram numa dança comum. Os valores da criança que se encontram com outras crianças entre os escolhidos, e que por si puderam escolher, optar por caminhar a sós, mas que, ultrapassando a solidão do homem superior (Para a Genealogia da Moral), compreendem que a coletividade os levará mais longe, que um grupo de discípulos é melhor que uma multidão, e que também é melhor que um homem só numa montanha, Zaratustra teve de realizar também uma dialética descendente, um bodhisattva. No caminho dos criadores se desvendará o desenlace do futuro. A isso chamei “O Advento de Ruhr.”[27]

O sobre humano também tem de aceitar o suporte basilar, a espécie está destinada a gerar comunidades, associações. Não comunidades gregárias e impostas pela força, pela moral, pela necessidade de velarem uns pelos outros devido à sua fraqueza, imposta por valores caducos e decadentes, mas pela vontade de comungarem da sua força, por valores novos, adequados ao momento contemporâneo. Os novos valores não são radicais, um contra, uma oposição radical entre o anterior e o novo, mas uma atualização de um estado, uma dialética, um outro estado de evolução coletivo, onde antes éramos seres mais animais que humanos, e que hoje somos seres de equilíbrio, onde a ética nos dá as fronteira, a sobre humanidade, os limites do possível, da imaginação traduzida na física quântica. O pensamento constrói a realidade na infinita possibilidade. (De Berkeley a “Tudo o que somos hoje é resultado do que temos pensado. O que hoje pensamos determina o que seremos amanhã. Nossa vida é criação de nossa mente.” Dharmapada)

O humano é apenas uma corda sobre o abismo. Do animal ao estado atual, e daqui para a lei da seleção natural. Ou nos superamos, ou seremos superados, superados pela máquina, ou por uma versão atualizada de nós próprios, que vem rebater o último humano, o tal desvairado positivo de Han, a ruína da civilização humana. A saída está na evolução, reinvenção, o humano tem de se reinventar, reformular, renascer, tal fénix,[28] no próximo patamar da existência deste ser que veio de uma pequena partícula molecular. Esta é a viagem, este é o único caminho que faz sentido. Não evoluir é morrer, é ficar neste marasmo de niilismo passivo, nesta positividade absurda, sem finalidade, sem sentido, sem horizonte, sem destino, sem propósito. Temos de nos reinventar, inventar o humano de novo. Numa perspetiva de evolução linear, ou numa perspetiva de revolução. Nietzsche aponta o caminho. Por um lado, o leão aponta para a revolução. O que se pretende é um romper com tudo o que está para trás. Mas seriamos ingénuos se pensássemos que iríamos criar tudo de novo a partir do zero (criança?) Tenho duvidas, será possível? Por isso não é uma nova espécie, é como Nietzsche fala, um sobre-humano. Uma atualização do que está para trás, o humano é uma corda sobre o abismo, e esse abismo é a profundidade terminal da nossa alma, que é infinita.[29] Haverá sempre uma herança do passado na transição. E neste sentido a perspetiva é de continuidade. Há continuidade. Mas há também revolução. À boa maneira de Nietzsche e de Heraclito, se consegue integrar duas perspetivas dicotómicas (contrárias) num horizonte de dialética, onde só ali é possível o dinamismo e o desenvolvimento. A realidade linear, circular, binária é assim e será assim para todo o sempre, como um logos analítico (como as leis da natureza). Mas para além dela, interage também na realidade um outro logos (logos sintético), que tem dinamismo e está vivo e em aperfeiçoamento constante. Em dialética, num espirito vivo, na diferença entre um círculo fechado e uma espiral infinita. Só o confronto com o oposto, só a dualidade no dinamismo de polemus pressupõe uma criação num passo suplementar. Do confronto dos extremos na perspetiva do acordo, num passo em frente, o compromisso de duas perspetivas diversas, opostas, leva-nos e tem-nos trazido nesta já longa senda da nossa existência.

 

10) Conclusões

1. A inviabilidade de valores morais. Estes são instrumentos da condução dos rebanhos, rebanhos sem pensar próprio, amarrados a valores obsoletos. A inviabilidade dos valores morais em geral, da moral. As diretrizes gerais são enganadoras. Só o valor ético – cada um por si sabe – prevalece na rejeição de uma ordem cega. Se o que encontras não tem validade, tens de encontrar em ti o criador. O que não é permitido ao criador ? Criar ilusões e esperanças supra terrenas, as prisões do passado e do futuro.  A afirmação do sobre humano, faz se perante uma esperança terrena. (Realidade?) A realidade é vontade de potencia, que age no todo e em cada um. Os companheiros opõem-se aos rebanhos, tem pensar próprio. O devir como um certo determinismo em Nietzsche. Espinosa, fundou nestas bases a ética moderna. Os humanos tem mau intimo, mas tem capacidade para encontrar opções. Para Nietzsche há possibilidade escolha – os humanos tem sempre possibilidade de escolha. São o ser mais esclarecido da criação, separam-se dos homens, os rebanhos que seguem o pastor. Grande dicotomia na Filosofia  de Nietzsche,  dois modos de ser humano: os que seguem o pastor; os que se seguem a si próprios.

2. Os rebanhos são menores. Como crianças levadas pelas mãos de outrem, não sabem lidar com a realidade, são engolidos pela vontade de potência. Juntam-se porque só unidos se conseguem manter. Essa era a anterior estrutura social. Dali para a frente há outra visão que Nietzsche vem afirmar. Há opções. A realidade exige maturidade, maioridade. Uma libertação do “tu deves”, das morais, e uma afirmação dos valores adequados à vivência contemporânea, uma elevação ética. A criação de novos valores que se adequam às exigências, que se adaptam às circunstâncias. No mundo de hoje ser do rebanho, é dizerem-nos o que é certo e errado, é ser menor. Os que seguem cegamente o(s) líder/es) , os que se deixam levar sem questionar, não são seres emancipados. Quem não tem pensar próprio não existe como indivíduo. Apenas existe só na ligação a um todo, como um dos homens de Feuerbach. A exigência destes tempos, desconsiderar o que já não se adequa. Toda a sequência imediata é o salto evolutivo. Ou nos superamos ou seremos superados. O sobre humano é o humano emancipado de morais, eticamente esclarecido, que não se prende a ilusões ou a esperanças supra terrenas. Dá um salto evolutivo. O homem é deixado para trás e uma atualização do que é ser humano emerge.

 

11) Post Factum  - Anarquia dos Seres Divinos

“Imagino um mundo regido por seres eticamente evoluídos. Nesse mundo não há sofrimento ou dor, por frio, fome ou falta de acolhimento, sofrimento por carências relativas às necessidades básicas. Nesse mundo há escolas e centros de formação para todos os que querem evoluir. A evolução de cada um processa-se numa paralela em dois níveis: no trabalho do físico; no trabalho da mente. Imagino um mundo onde não serão necessárias morais impostas nem leis (ordinárias) para os maiores de idade, onde não serão necessários Estados. Imagino um mundo regido por seres eticamente evoluídos, a Anarquia dos Seres Divinos, o Mundo do Ser, que efetivamente se está a fazer. Tudo o que existe agora, (em relação ao que será), não passa de uma fase transitória, de um bloco de mármore meio transformado. Todo este mundo que conhecemos não passa de processo em desenvolvimento que nos vai levar ao que será de facto. Assim, para nós hoje, abre-se o caminho do Criador, dentro de cada um, o ser Divino é o que podemos ser, o ser Divino é o que está destinado a viver, pois o nosso mundo não subsistirá se continuarmos eticamente deficitários. Imagino um mundo onde cada criança tem boas condições para se desenvolver. Imagino um mundo onde todas as crianças são como irmãos em termos do apoio por parte do progenitor, onde todos tem as mesmas oportunidades de se desenvolverem. Um mundo onde despertar e crescer são a razão da nossa vida, porque cada vez que um ser se torna maduro e adulto, uma nova luz Divina brilha no meio de nós. Os seres humanos nascem tutelados. Desde a sua mais terna idade todos tem direito ao nível 1 de necessidades garantido. Cuidados de forma digna tornam-se crianças onde desperta sensibilidade e a inteligência. Desenvolvendo-se de forma salutar encontram mais tarde ou mais cedo o pensar próprio. Encontrados com sua razão e consciência, levando em conta a voz do seu coração, tornam-se adultos. Emancipam-se da tutela e tornam-se livres. O Universo é de todos os seres emancipados que são luz por si.” http://newdivine.blogspot.com/2012/


 Bibliografia

 Nietzsche, Frederico, Assim falava Zaratustra, (1883-1885), Lisboa, Editorial Presença, 1974

Nietzsche, Frederico, Para a Genealogia da Moral, Lisboa, Relógio D´ Água Editores, 2000

Nietzsche, Frederico, A Gaia Ciência (1882), Lisboa, Relógio D´Água Editores, 1998

 Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço (2010), Lisboa, Relógio D´Água Editores, 2014



[1] “Muitas são as coisas que parecem pesadas ao espírito, ao espírito robusto e paciente, e todo imbuído de respeito; a sua força reclama pesados fardos, os mais pesados que existam no mundo.”

“ «Que há de pesado para transportar?» diz o espírito transformado em besta de carga, e logo ajoelha, tal como o camelo e deseja ser carregado.”

“Será alimentar-se das glandes e da erva do conhecimento, e fazer jejuar a alma por amor da verdade?”

Nietzsche, Assim falava Zaratustra, (1883-1885), Lisboa, Editorial Presença, 1974, p. 27

[2] O que ele outrora amava como o seu bem mais sagrado, é o «Tu-deves». Deve agora descobrir a ilusão e a arbitrariedade na própria base do que mais sagrado existe no mundo. E conquistar assim, pela violência, o direito a libertar-se dessa prisão; para exercer uma tal violência é necessário ser leão.”  Nietzsche, Ibidem, p. 29

[3] Da recusa do espírito em chamar seu senhor e seu Deus ao grande dragão: “Valores milenários brilham sobre essas escamas e assim fala o mais poderoso de todos os dragões: «Todos os valores das coisas brilham sobre meu corpo. Todos os valores criados no passado, e a soma de todos os valores criados, sou eu. […]»”  Nietzsche, Ibidem, p. 28

[4] “Soube vencer-me, embora sofrendo: levei as minhas cinzas até aos montes, inventei uma chama mais clara. E eis que o fantasma se desvaneceu.” Nietzsche, Ibidem, p. 33

[5] “Deparou-se-me uma luz: não é à multidão que Zaratustra deve falar, mas a companheiros. Zaratustra não será nem pastor de um rebanho nem o cão do pastor.”  Nietzsche, Ibidem, p. 23

[6] “[…] o espírito torna-se leão. Decide conquistar a sua liberdade e ser rei do seu próprio deserto.” Nietzsche, Ibidem, p. 28

[7] Heraclito Fragmento 53 “A guerra é a origem de todas as coisas […]”

[8] Shiva é destruidor, mas também, como Nataraja, é criador do mundo ao som do beat.

[9] Inebriante alegria para aquele que sofre, é desviar os olhos do seu próprio sofrimento e esquecer-se de si. O mundo outrora, parecia-me alegria inebriante e esquecimento de si.” Nietzsche, Ibidem, p. 32

[10] “[…] Falar-lhes-ei do que mais desprezível existe no mundo, isto é, do Último Homem».” Nietzsche, Ibidem, p. 16

[11] “[…] o Último Homem que torna pequenas todas as coisas.” Nietzsche, Ibidem, p. 17

[12] O pensamento alemão aniquilou a ideia que tínhamos de Deus e deus como o conhecíamos desvaneceu-se. No entanto um outro Deus se veio afirmar no firmamento do cosmos. Desde Hegel o espírito vive entre nós, a grande fornalha do absoluto está em ação presente neste mundo e manifesta-se fisicamente com regularidade. Em relação ao absoluto, a inflexão da perspetiva transcendente para uma realidade imanente deu-se com Hegel e com o idealismo alemão (mas já vinha sendo apontada desde Heraclito, desde os místicos como Pseudo Dioniso e Mestre Eckart, desde Leibniz com as mónadas e mesmo em Kant com a coisa em si). Kant ainda olhou para um Deus transcendente. Com o idealismo alemão, o Deus transcendente estava morto, mas a força vital estava presente, viva e em dinamismo no lado físico da existência, na natureza. O espirito andava entre nós. Nietzsche vai falar de “vontade de poder”, naquela pujança interior que finalmente nos move. A coisa viva está à nossa volta, na natureza e no nosso corpo, chama-se vontade de poder, que se pode identificar como a força fundamental, de que tem falado todos os filósofos que se dedicaram à ontologia. A sua presença neste mundo, como no Fogo de Heraclito, o belo em Platão, as mónadas de Leibniz, a coisa em si kantiana, e o espírito absoluto em Hegel, a vontade de poder de Nietzsche. Aquela vontade leva-nos a rejeitar o que nos é dado para aceitar e calar. Kant aniquilou a validade da ideia de Deus, mas não conseguiu liquidar a coisa em si, não conseguiu liquidar a presença do absoluto na realidade física. Negou a possibilidade de um Deus transcendente, em nome de uma imanência inalcançável. Um divórcio com uma determinada visão de Deus, de um Deus estático, transcendente. No pós Kant o idealismo alemão vem afirmar o absoluto, um deus dinâmico no aqui e agora.

Nietzsche chamou-lhe vontade de poder. A vontade de viver, que transborda em nós, circula nas nossas veias, no sangue que corre. Quando nos ligamos à totalidade, quando nos ligamos ao absoluto, quando nos ligamos à Terra, então já não é uma ligação a Deus como Moisés teve quando viu um arbusto ardente, quando presenciou um Deus transcendente. Quando nos ligamos a essa força somos um com ela, ela deixa de ser uma entidade e passa a ser um estado (o divino) que podemos assumir. Essa é a distinção entre os Deus estático e o divino dinâmico instituído pelo idealismo alemão, mas já prenunciado na modernidade por Leibniz com as mónadas e por Kant na coisa em si (para Kant a coisa em si continuava transcendente). Para Nietzsche é a vontade de poder, que do fundo do nosso corpo e das nossas entranhas nos dá vigor e vitalidade, é o elã que nos vêm da nossa ligação a nós próprios, ao que somos realmente, o nosso corpo e à natureza. Esse “cavalo negro”, essa fornalha, esse nosso corpo, motor puro na dualidade fundamental. Somos nós e o nosso Fogo (Heraclito, e a entidade fundamental). O Fogo na Physis. Para Nietzsche essa vontade de poder é o absoluto manifestando-se na sua plenitude, na sua pujança, desde o mais íntimo do nosso ser.

[13] Se soubermos encontrar uma ética que satisfaça a força da vida, a esse espírito, damos um passo enorme na escada evolutiva e passamos a ser outra coisa acima do humano. Ética elevada como condição necessária para o advento do sobre humano.

[14] “Não é possível descobrir os limites da alma, mesmo percorrendo todos os caminhos: tão profunda medida ela tem.” Heraclito, Fragmento 45

[15] “O criador busca companheiros e não cadáveres; não quer nem rebanhos nem fiéis. Procura criadores que com ele se associem, desses que gravam sobre quadros novos valores.” Nietzsche, Ibidem, p. 23

“É aos solitários que direi o meu canto; àqueles que se retiram, sozinhos ou aos pares, para a solidão; e a todo aquele que tem ainda ouvidos para ouvir o inaudito, carregar-lhe-ei o coração com todo o peso da minha felicidade.”  Nietzsche, Ibidem, p. 24

[16] “É que a criança é inocência e olvido, novo começar, jogo, roda que se move por si própria, primeiro móvel, afirmação santa. […] o espírito quer agora o seu próprio querer; tendo perdido o mundo, ele conquista o seu próprio mundo.” Nietzsche, Ibidem, p. 29

[17] “«O Super-homem é o sentido da terra. Que a vossa vontade diga: Possa o Super-homem tornar-se o sentido da terra! […]»” P.12

“«Venho anunciar-vos o Super-homem. O homem só existe para ser ultrapassado».” P. 12 (superado) “«Na verdade o homem é uma torrente lamacenta. E o menos que se pode ser é mar, para absorver em si uma torrente lamacenta sem ser por ela turvado.

Eis que venho anunciar-vos o super-homem. Ele é esse mar, e nele irá perder-se o vosso grande desprezo. […]

Eis que venho anunciar-vos o super-homem. É ele esse raio, é ele essa loucura» ” Nietzsche, Ibidem, p. 13 e 14

[18] “«O homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-homem - uma corda por cima de um abismo. […]»” Nietzsche, Ibidem, p.14

“Não é possível descobrir os limites da alma, mesmo percorrendo todos os caminhos: tão profunda medida ela tem.” Heraclito, Fragmento 45

[19]“ «Venho anunciar-vos o Super-homem. O homem só existe para ser ultrapassado. Que tendes feito para o ultrapassar?

Até ao presente, todos os seres têm criado algo que os ultrapassa. […]»” Nietzsche, Ibidem, p. 12

“A grandeza do Homem está em ele ser uma ponte e não um final; o que podemos amar no Homem, é ser ele transição e naufrágio.” Nietzsche, Ibidem, p. 14

[20] O eterno retorno

O eterno retorno torna a vida e cada momento de uma riqueza e prodigalidade extremas. Cada momento é eterno, numa imagem de tempo vertical (tempo psicológico, ante o tempo circunstancial, cronológico). Até ao fim dos tempos, temos oportunidade de reviver todos os momentos que passamos, até uma infinidade de reproduções, fazendo com que exista a eternidade em cada momento. Cada momento que temos de vida é traduzido numa super abundância de termos toda a eternidade para o reviver e fazer diferente. Extrapolando Nietzsche, cada momento da nossa vida se repetirá eternamente, podendo nós ainda escolher que momentos queremos reviver. os momentos não são todos eternos obrigatoriamente, temos opção de reviver e nos aperfeiçoar apenas nos válidos.

[21] “« […] Tendo para o meu fim, sigo o meu caminho; saltarei por cima dos que hesitam, dos que se atrasam. Assim o meu avanço apressará a sua perda».” Nietzsche, Ibidem, p. 24

[22] “«Ei-los, disse no seu coração, ei-los que riem; não me compreenderam, não sou a boca que convém a estes ouvidos. […]» Nietzsche, Ibidem, p. 16

[23]“Deparou-se-me uma luz: não é à multidão que Zaratustra deve falar, mas a companheiros.” Nietzsche, Ibidem, p.23

“É aos criadores, aos ceifeiros, àqueles que repousam acabada a tarefa, que quero associar-me; mostrar-lhes-ei o arco-íris e todos os degraus que levam ao Super-homem.

É aos solitários que direi o meu canto; àqueles que se retiram, sozinhos ou aos pares, para a solidão; e a todo aquele que tem ainda ouvidos para ouvir o inaudito, carregar-lhe-ei o coração com todo o peso da minha felicidade.” Nietzsche, Ibidem, p. 24

“O criador busca companheiros e não cadáveres; não quer nem rebanhos nem fiéis. Procura criadores que com ele se associem, desses que gravam sobre quadros novos valores.” Nietzsche, Ibidem, p. 23

[24] “Para tal deverei descer aos abismos, como todas as noites o fazes, ó astro transbordante de riqueza, para ires levar a tua luz ao mundo subterrâneo.” Nietzsche, Ibidem, p. 10

[25] Declaração universal

“ Os ruhrs nascem tutelados. Desde a sua mais terna idade todos tem direito ao nível 1 de necessidades garantido. Cuidados de forma digna tornam-se crianças onde desperta sensibilidade e inteligência. Desenvolvendo-se de forma salutar encontram mais tarde ou mais cedo o pensar próprio. Encontrados com sua razão e consciência, levando em conta a voz do seu coração, tornam-se ruhrs adultos. Emancipam-se da tutela e tornam-se livres.“ http://azuion.blogspot.com/2010/03/quarta-parte-winds-of-change-azuion-o.html

[26] “O criador busca companheiros e não cadáveres; não quer nem rebanhos nem fiéis. Procura criadores que com ele se associem, desses que gravam sobre quadros novos valores.” Nietzsche, Ibidem, p. 23

[27]

“Ser catalisador da energia mística capaz de materializar o Divino. […] Há dois tipos de iluminados. Houve todos os iluminados da história, os avatares, e haverá um último iluminado que marcará o início do fim, e o novo princípio. O fim daquilo que é ainda apenas um projeto, o universo como o conhecemos, e o inicio do que é real de facto. Do processo que está a decorrer, do universo que se está a fazer, surgirá a realidade do Ser. Isso acontecerá com o advento de Ruhr. Hoje o universo ainda não é o mundo do Criador, não podemos culpar o Criador por um mundo com imperfeições, como não podemos julgar a obra de um artista antes de esta estar concluída. Quando se der o advento de Ruhr a obra do Criador ficará terminada, surgirá o mundo do Ser, o verdadeiro mundo do Criador. O processo Universo estará concluído, a obra do Criador será real de facto, pois hoje, tudo o que vemos neste mundo é pré Obra, é algo que ainda não é real de facto. Tirando os seres dotados de alma, tirando o amor e os bons sentimentos, que são uma ponte sobre o nada, tudo o que vemos neste mundo é ilusão, é obra de Maya. Tudo o que vemos neste mundo é uma grande engenharia de aparências. Para além das almas, tirando o amor, tudo o que vemos neste mundo se moldou com as ilusões de Maya. Maya é a suprema engenheira das aparências, que faz o nada parecer algo. […]

Quando se resolver o mundo, a graça dos criadores será a luz que nos iluminará eternamente. E para que isso aconteça tem de surgir os avatares, tiveram de surgir iluminados, que em alturas decisivas encaminharam as coisas e esclareceram certas situações. Um avatar para provocar o Advento de Ruhr terá de conseguir a emancipação de outros iluminados. Terão de surgir vários avatares em simultâneo. Numa cooperação recíproca e livre entre os vários seres em estado Buda se dará o advento. Ruhr será o avatar que vai ver perante os seus olhos o despertar de vários espíritos em simultâneo.” http://newdivine.blogspot.com/2007/

[28] “Soube vencer-me, embora sofrendo: levei as minhas cinzas até aos montes, inventei uma chama mais clara. E eis que o fantasma se desvaneceu.” Nietzsche, Ibidem, p. 33

[29] “Não é possível descobrir os limites da alma, mesmo percorrendo todos os caminhos: tão profunda medida ela tem.” Heraclito, Fragmento 45


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