domingo, 19 de janeiro de 2025


 




Nº 19 - Byung-Chul Han

No Absurdo da Exclusiva Positividade 


Boletim de Ideias Filosóficas



Byung-Chul Han

No Absurdo da Exclusiva Positividade 


Índice

1) Introdução

2) Na época bacteriana o que não era o próprio constituía uma ameaça

3) A desconsideração da força dialética

4) Os antidepressivos

5) A máquina plena, ininterrupta, até à exaustão e ao esgotamento

6) O esquecimento da via contemplativa

7) O engano ontológico de uma certa visão do Existencialismo

8) Ubunto - “humanidade para com os outros”

9)  Doença da civilização

10) Episódio da formiga


1) Introdução

Tendo por base os pontos de vista apresentados na obra de Byung-Chul Han A Sociedade do Cansaço pretendo neste trabalho apresentar uma reflexão sobre as consequências dos seus pontos de vista. Num horizonte de diálogo com diversos autores (para, das suas ideias tirar consequências e apresentar a sua visão sobre a mudança de paradigma que se deu na viragem do século XX para o século XXI), partindo de uma leitura patológica, Byung-Chul Han começa por referir que o começo do século XXI pode ser definido como uma época neuronal (uma mudança de paradigma que se caracteriza pelo “…desaparecimento da alteridade e da estranheza.”[1]) apontando uma variedade de patologias associadas a essa mesma época. Essas patologias não são provocadas pela negatividade de “…algo imunologicamente diverso,…”[2] (marca da época patológica anterior) mas sim por uma positividade extrema.[3]

 

2) Na época bacteriana o que não era o próprio constituía uma ameaça

No texto A Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han afirma que, no advento da época neuronal, o arquétipo da época anterior, da época bacteriana, expresso na dicotomia o próprio / o estranho, amigo / inimigo, um dos extremos foi anulado /desconsiderado, desclassificado. Assim perdeu-se o dinamismo da força dialética, devido à desconsideração da alteridade e ao abuso da positividade extrema numa opção por uma produtividade radical.[4] No auge do ter de fazer, o humano ultrapassou as diretrizes exteriores, as ordens que lhe vinham de fora, características da sociedade disciplinar (época bacteriana),[5] para na sociedade de produção, do desempenho (época neuronal), impor de si para si próprio essas mesmas diretrizes levadas a um exagero extremo que faz com que o ser humano se escravize a si próprio,[6] deixando-se prender no seu próprio enleio, anula o outro lado se si e a dicotomia fundamental. O ser humano passa a funcionar apenas com um dos seus dinamismo, apenas com um dos cavalos da carruagem platónica, fica privado de parte de si, e no abuso que faz da positividade, acaba por se esgotar.[7] Perde o equilíbrio devido a ter apenas um referencial, um mandamento de fundo.

 

3)  A desconsideração da força dialética[8]

Há que ter dúvidas, há que hesitar, ter fúria[9] (em contraste com a irritação, ao enervamento, a fúria é um estado refletido) ter medo (em contraste com o receio, também é refletido), refletir e errar. Não apenas avançar desenfreado numa única direção, mas a necessidade de uma dialética na praxis humana. O excesso de exigência com a produtividade leva o ser humano a anular, a não considerar, tudo o que é contrário a isso. Há apenas uma perspetiva, há apenas um direcional, há um plano e um alvo e não há lugar para o pensamento. Há que agir, na distopia de Han “parar é morrer.

Heraclito foi o primeiro filosofo da dialética. O seu jogo de aforismos são eles próprios um jogo dialético, para nos confundir, para fazer pensar, para reconstruir. Os textos de Heraclito estão para os textos clássicos de filosofia como o impressionismo, (com as suas distorções e diluições dos objetos) está para a pintura que estava atrás de si.[10] Heraclito apresentou à Filosofia o confronto de perspetivas contrárias. Ele próprio teve uma atitude dialética referente ao pensamento que tinha existido antes de si. “ O caminho que desce é o mesmo que sobe.”[11] Heraclito apresentou um confronto de perspetivas em vez da visão de um caminho unívoco. Anaximandro, embora tenha aberto completamente a porta para podermos pensar a abstração, não nos introduz ainda no confronto efetivos entre opostos. Para Han, nesta sociedade de desempenho há um défice de dialética, há um estancamento de um grande objetivo comum devido ao equivoco de que estamos sós, e de que temos de lutar constantemente uns contra os outros.

 

4) Os antidepressivos

Por isso os seres humanos se sentem esgotados. Os antidepressivos, referidos em distopias do século XX como Brave New World de 1932 e Fahrenheit 451 de 1953, são hoje em dia uma realidade no mundo apresentado por Han. E assim, como na distopia de Huxley, e na de Bradbury, há hoje um comprimido para nos afastar a cabeça de duvidas, de hesitações, de crises existenciais, tudo em nome de uma produtividade plena. O ser humano já só funciona à conta de estímulos, de supressores da dor, de dúvidas, à conta de opressores sobre a capacidade de reflexão, na negação da existência de alternativas e possibilidades diversas na existência. A convicção, a espontaneidade e a alegria da existência foram desqualificadas em nome de uma corrida de todos contra todos. Os comprimidos ainda nos toldam mais o discernimento, e às tantas toda esta anormalidade nos parece normal.

 

5) A maquina plena, ininterrupta, até à exaustão e ao esgotamento

O humano tardomoderno perdeu a referência para poder pensar o contraditório, perdeu a imagem para poder refletir sobre os contrários e os acordos entre polos opostos. Para Han, se só vamos numa direção, perdeu-se a capacidade de reação, somos apenas ação, e tronamo-nos, tal qual máquinas, máquinas a quem se dá estímulos e complementos de alta rentabilidade.[12] Os Beatles, quando estavam em Hamburgo em inicio de carreira, perante o esforço imenso de terem de tocar quase ininterruptamente, começarem a usar fortes estimulantes que os “quitavam”[13], que os tornam “maquinas de produtividade.”

Assim, Han aponta a sociedade do doping como um desenvolvimento da sociedade da produção, e na sociedade do doping não há descanso, não há pausa, há um estimulo constante para uma produção ininterrupta. Há apenas um seguir em frente que leva a um esforço e uma entrega cada vez maior. Um intempestivo labor até ao limite. Sem equilíbrio o ser humano não resistirá.[14]

Graves problemas do foro mental transpõem-se depois em doenças psicossomáticas. Uma mente doente, indo um pouco além do que diz Han, podemos afirmar que, leva a um corpo enfermo. Fora da dialética, o excesso da positividade na desconsideração do negativo, no continuo maquinal pela produtividade, é contra producente a longo prazo, leva à falência da mente, e à falência do ente, ao esgotamento do ser humano (burnout). Um humano sem alternância, sem mudança de velocidade, sempre a fundo e sempre para lá do limite. O humano máquina de produção, peça nesta engrenagem de uma “vontade de poder” fora de controlo.

Assim, como maquinas formatadas cumprimos o nosso programa. Um dia, vi uma formiga (eram  seis da manhã, ainda noite, e ela perdida de todas as outras) a arrastar uma carga demasiado pesada para si. Estava exausta, desorientada, andava para trás e para a frente, sem conseguir parar, cada vez estava mais próxima do esgotamento, mas tinha de cumprir o seu programa, para ela não havia outra opção, como formiga não tinha alternativa, não tinha a capacidade do pensar nem da dialética. O que surpreende no ser humano, é ter a capacidade do pensar e da dialética, e no entanto, vistas as coisas numa macro perspetiva, agir como aquela formiga.

 

6) O esquecimento da via contemplativa[15]

A serenidade perdida, de um tempo em que se agia, mas também se parava para serenar o espirito. Não é do cansaço do corpo que Han fala, mas sim dum cansaço do espirito. Causado por uma continuidade sem pausas, imposta pelo humano a si próprio. A perda de equilíbrio a troco de uma atividade extenuante. Antes houve em tempos um equilíbrio entre ação e reação (a fúria, o medo), entre dinamismo e repouso, entre movimento físico e reflexão. O livro de Han vem denunciar o desvanecer da dialética, que era o grande veiculo, o grande instrumento humano perante as mais agudas dificuldades. A reflexão, o aprofundamento, a visão vertical das coisas, no pensar profundo para além da horizontalidade superficial do tempo. Han vem lembrar que há um tempo vertical, psicológico, não mensurável, um tempo de contemplação. Na linha do tempo horizontal, cronológico, há, transversal a cada momento, um tempo psicológico feito por cada ponto daquela circunstância linear. Em cada ponto da linha cronológica há um tempo psicológico (como o tempo psicológico referido por Santo Agostinho nas Confissões, Livro XI), vertical em elevação e profundidade, onde cada momento pode conter uma “eternidade”. É isso que falta, segundo Han, ao humano tardomoderno, a capacidade para se fixar num ponto dessa linha inexorável e que não espera por ninguém. Se estamos fixados nessa interpretação / visão do tempo horizontal só nos resta correr, e mesmo assim o tempo sempre nos ultrapassará. A resposta de Henry Van Dyke “Time is too slow for those who wait, too swift for those who fear, too long for those who grieve, too short for those who rejoice, but for those who love, time is eternity” adequa-se ao que Han procura, o tempo da contemplação, o tempo de quem olha e vê o que está à sua volta, se relaciona com a vida e com os outros, esse tempo de quem ama dura para sempre.

O dormir é a grande pausa que o físico todos os dias requer para estar em equilíbrio. A contemplação é o descanso da mente. Se conseguirmos através da contemplação, ter uma experiência de consciência, de meditação, a via contemplativa refaz o equilíbrio. A contemplação é o repouso da mente, mas é também a cura do ser no seu todo[16]. A via contemplativa refaz o equilíbrio do ser humano. Devido a uma positividade extrema, devido a uma circunstancia de sempre se seguir em frente, em nome de uma produtividade fomentada por uma “Circe”, um canto de sereias pelo qual os humanos foram seduzidos, perderam-se os momentos de contemplação, os momentos de pausa, de hesitação, reflexão, os momentos em que não nos limitamos a seguir desalmadamente para a frente fazendo a ação humana lembrar uma parelha de cavalos a correr desenfreados, loucos e desgovernados sem destino válido fixado[17].

 

7) O engano ontológico de uma certa visão do Existencialismo

O humano perdeu o norte, nesta corrida de todos contra todos, perdeu Deus e as referências absolutas. Com refere Nietzsche na Gaia Ciência, no texto do louco que vem com a candeia à procura de Deus, o humano perdeu a linha do horizonte, as referências absolutas e transferiu para si a procura de significado. O caminho que encontrou desembocou num Existencialismo vazio de sentido, em que cada um se enjoa de si próprio, sem reconhecimento do que também pode ser num grupo, para além da individualidade de cada um, podemos ser um coletivo. “Estamos sós e sem desculpas” “Nous sommes seuls, sans excuses. C'est ce que j'exprime en disant que l'homme est condamné à être libre.”[18]  Não, não estamos sós, nem somos apenas eus. Integramo-nos em coletivos, onde somos uma equipa, uma coletividade, uma comunidade com interesses e objetivos comuns, onde nos complementamos uns nos outros, um tal ubuntu,[19] a tal essência humana comum de que falava Feuerbach. Os humanos no seu conjunto formam o Homem. É aqui que o Existencialismo mostra as suas limitações. Han fala de um cansaço do eu, de um eu que vive alienado na sua individualidade. Dando a si próprio o seu destino e a sua finalidade, numa luta de eus, de todos contra todos, numa corrida louca desenfreada que nos leva à exaustão. Esta versão do Existencialismo desembocou numa competição extrema e sem sentido de todos contra todos. Numa competição que ninguém vai ganhar e que vai acabar por nos esgotar enlouquecer a todos. O burnout coletivo da civilização. O derradeiro suspiro do último homem de Nietzsche. Ou nos superamos ou pareceremos. Antes o humano vivia em equilíbrio. Han critica Arendt por não reconhecer isso. A via contemplativa tinha uma importância capital na vida das pessoas, e o próprio cristianismo preconizava o complemento entre a ação e a contemplação. Hoje, nesta competição sem tréguas não há tempo para parar, para descansar, para refletir, nem mesmo até para recuperar o fôlego. Corremos loucos para o inferno de não sabermos quem somos, onde estamos e para onde vamos. Corremos loucos sem sentido, apenas para estar mais à frente do que os que estão ao nosso lado.

 

8) Ubunto - “humanidade para com os outros”

Na versão do mundo apresentada por Han o individualismo leva à competição desenfreada de todos contra todos. Aquele mundo perde-se por isso, esse é o seu calcanhar de Aquiles. Perante a produtividade extrema, emerge a sobrecarga e o colapso do sistema. Um humano positivo, com foco em apenas uma direção, a produtividade. Uma corrida de loucura, onde todos competem com todos, esquecendo que podemos vencer em conjunto, que as vitórias não são apenas individuais, e a competição não é apenas entre os indivíduos, que pode até nem haver competição. No final do texto de Han é esta a alternativa apontada através de Handke,[20] um cansaço em comum, um laço de cooperação entre membros de uma comunidade. Crianças africanas, colocadas perante uma experiência de uma antropóloga, afirmaram “ubuntu.” Colocadas perante uma competição por um cesto de fruta, deram as mãos e chegaram juntas ao cesto, e depois dividiram as frutas entre eles. Quando a antropóloga questionou sobre o significado da palavra, as crianças responderam: “como pode uma criança estar feliz, quando as outras estão tristes?” O que falta na distopia filosófica apresentada por Han no texto A Sociedade do Cansaço é exatamente isso. A sociedade do cansaço, no fim do texto de Han revela-se afinal como uma sociedade do coletivo. O erro, o equivoco é uma particular versão unívoca do Existencialismo que vem afirmar os egos negando os coletivos. Não estamos sós e sem desculpas. Estamos juntos mas não sabemos tirar partido disso, e deixamo-nos ir cozendo como rãs dentro de uma panela ao lume. A solução de Han é ubuntu. Feuerbach, e os humanos em conjunto. Fora da competição a felicidade de um é a felicidade de todos, o esclarecimento de um é o esclarecimento de todos, quando há um iluminado, todos somos envolvidos pela graça do Divino. Como as mónadas de Leibniz, e a sua capacidade de seres individuais, e ao mesmo tempo estarem em conexão com todos as outras através da fonte. É isso o que está em falta na distopia filosófica de Han.

 

9) Doença da civilização

O cansaço dos coletivos, que foi esquecido ante esta sociedade de indivíduos insaciáveis, prepotentes que intentam para lá das suas forças individuais, que tem a arrogância de almejarem individualmente conquistas que deveriam ser feitas em conjunto. Han desenvolve neste texto uma grande crítica ao individualismo, à perda das identidades coletivas.[21] Ante o estranho, na época bacteriana fomos formatados para o combater e eliminar, a alteridades era o inimigo. Hoje não há outro, há apenas correr para a frente. A luta contra a alteridade que nos era estranha foi substituída pelo combate interior. Dentro de cada um e contra as dificuldades que nos aparecem à frente do nosso objetivo. Tudo o que vem barrar o caminho de conquista ao qual nos entregamos sem dó nem piedade tem de ser combatido e derrubado, para avançarmos e ser mais e mais e mais. Desconsiderámos a dialética, usamos os estimulantes, transformámo-nos em máquinas levadas ao limite, até à exaustão. Perdeu-se o horizonte infinito, em nome das singulares lutas comezinhas, provocando um extremo cansaço dos indivíduos. O esgotamento dos singulares levará ao esgotamento das coletividades. Como moscas os humanos vão caindo um por um, mas como coexistimos em coletividades, vão aparecendo as mossas e as mazelas, as sociedades vão se ressentindo. É uma destruição da civilização que se manifesta, se vai efetivando dos indivíduos para as coletividades.

 

10) Episódio da formiga

A formiga de que falei um pouco atrás no texto, se não parasse ia de certeza morrer de exaustão, eu olhava para ela, impotente, sem nada poder fazer, senão sentir empatia pelo seu esforço, pela sua perseverança, pelo seu desespero em cumprir a sua tarefa, e lembrei-me de Han e de toda a exposição sobre o colapso humano face a uma positividade extrema em nome de produtividade sem limites. Aquela formiga era apenas uma formiga. Nós somos os supostos homo sapiens sapiens, mas pelos vistos, muitos de nós parecem ter descido aos infernos humanos traduzidos em mais funestos patamares para além desses níveis de animalidade. Era o instinto unicamente a dirigir os caminhos daquela formiga, um mandamento interno de dever não a deixava desistir, e no entanto, ela parecia saber, ou eu sabia por ela, que ela estava no limite das suas forças e que ia perecer. Parecia não haver outra alternativa, “parar é morrer” (que dito mais enganoso, pois no caso dela, como na reflexão de Han, parar é viver).

 

Conclusão

A realidade ultrapassou a teorização de Han, o paradigma e os tempos voltaram a mudar. Desde o início da pandemia do Covid-19 já se vinha manifestado essa mudança profunda, que foi confirmado com o cenário de terceira guerra mundial dissimulada que começou com a invasão russa na Ucrânia. Quanto à guerra, uma grande questão que não se tem discutido, e que faz toda a diferença, ou os cidadãos russos apoiam a brutalidade e a agressão que o regime está a cometer perante um país irmão; ou os cidadãos russos estão reféns desse mesmo regime. Isso era importante saber, isso deveria ser averiguado, e temos meios para o levar a cabo. O que devíamos averiguar junto dos cidadãos russos é se eles partilham como muitos de nós, desse sentimento de irmandade, de fraternidade coletiva para com a humanidade em geral. Se eles compactuam com aquele regime, e estão perdidos numa visão unilateral e particular da coisa, vendo o absoluto no que é circunstancial; ou s e estão reféns dentro do seu próprio país nas mãos de um autoritarismo atroz. Ou estão tão entorpecidos e mal formados que em termos de consciência nem conseguem avaliar a gravidade do que o regime está a fazer em nome de todos os russos. Quero acreditar que estão reféns, da ideologia, da propaganda e da censura informativa, reféns por um silenciamento das consciências pela força.

 

Bibliografia

Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço (2010), trad. Gilda Lopes Encarnação, Lisboa, Relógio D´Água Editores, 2014

Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço (2010), trad. Enio Paulo Giachini, Petrópolis, Editora Vozes, 2015

Nietzsche, A Gaia Ciência (1882), Trad. Leopoldina Almeida, Maria Encarnação Casquinho e Maria Helena Rodrigues de Carvalho, Lisboa, Relógio D´Água Editores, 1998

Nietzsche, Assim falava Zaratusta, (1883-1885), Lisboa, Editorial Presença, 1974

Feuerbach, A Essência do Cristianismo (1841), trad. Adriana Veríssimo Serrão, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2018

Santo Agostinho, Confissões, Lisboa, INCM, 2021

T.M.Robinson, Heraclitus Fragments, University of Toronto Press, (...).



[1] Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço, Petrópolis, Editora Vozes, 2015, Edição digital, p. 8

[2] Byung-Chul Han, Ibidem, p. 7

[3] “Não estamos já perante infecções, mas, sim, enfartes, originados não pela negatividade do outro imunológico, mas, sim, por um excesso de positividade.” Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço, Lisboa, Relógio D´Água Editores, p. 9

[4] “Se, desprovidos da potência negativa de não perceber, possuíssemos apenas a potência positiva de perceber algo, a percepção estaria irremediavelmente exposta a todos os estímulos e impulsos insistentes e intrusivos. Então não seria possível haver qualquer “ação do espírito”. Se possuíssemos apenas a potência de fazer algo e não tivéssemos a potência de não fazer, incorreríamos numa hiperatividade fatal. Se tivéssemos apenas a potência de pensar algo, o pensamento estaria disperso numa quantidade infinita de objetos. Seria impossível haver reflexão (Nachdenken), pois a potência positiva, o excesso de positividade, só admite o continuar pensando (Fortdenken).” Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço, Petrópolis, Editora Vozes, 2015, Edição digital, p. 30/31

[5] “A mudança de paradigma da sociedade disciplinar para a sociedade de desempenho aponta para a continuidade de um nível. Já habita, naturalmente, o inconsciente social, o desejo de maximizar a produção. A partir de determinado ponto da produtividade, a técnica disciplinar ou o esquema negativo da proibição se choca rapidamente com seus limites. Para elevar a produtividade, o paradigma da disciplina é substituído pelo paradigma do desempenho ou pelo esquema positivo do poder, pois a partir de um determinado nível de produtividade, a negatividade da proibição tem um efeito de bloqueio, impedindo um maior crescimento. A positividade do poder é bem mais eficiente que a negatividade do dever. Assim o inconsciente social do dever troca de registro para o registro do poder. O sujeito de desempenho é mais rápido e mais produtivo que o sujeito da obediência. O poder, porém, não cancela o dever. O sujeito de desempenho continua disciplinado. Ele tem atrás de si o estágio disciplinar. O poder eleva o nível de produtividade que é intencionado através da técnica disciplinar, o imperativo do dever. Mas em relação à elevação da produtividade não há qualquer ruptura; há apenas continuidade.” Byung-Chul Han, Ibidem, p. 15

[6] “Essa soberania está precisamente ausente daquele novo tipo humano, exposto e entregue indefeso ao excesso de positividade. O homem depressivo é aquele animal laborans que explora a si mesmo e, quiçá deliberadamente, sem qualquer coação estranha. É agressor e vítima ao mesmo tempo.” Byung-Chul Han, Ibidem, p.16

[7] “A hiperatividade é paradoxalmente uma forma extremamente passiva de fazer, que não admite mais nenhuma ação livre. Radica-se numa absolutização unilateral da potência positiva.” Byung-Chul Han, Ibidem, p.31

[8] “Segundo Hegel, é precisamente a negatividade que mantém viva a existência.” Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço, Petrópolis, Editora Vozes, 2015, Edição digital, p. 30

[9] “A fúria, em contrapartida, questiona todo o presente, pois pressupõe uma paragem ou interrupção no tempo presente.” Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço, Lisboa, Relógio D´Água Editores, p. 41

[10] A pintura pré impressionismo tentava espelhar a realidade. O impressionismo quebra essa tentativa de espelhar a realidade e depois o pós-impressionismo apresenta uma versão dinâmica da realidade, como se quisesse captar o próprio movimento.

[11] Fragmento 60, Heraclito

[12] “…aquele desenvolvimento pelo qual não só o corpo, mas também o homem como um todo se transforma numa máquina de desempenho, que pode funcionar livre de perturbações e maximizar seu desempenho. O doping não passa de uma consequência dessa evolução…”Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço, Petrópolis, Editora Vozes, 2015, Edição digital, p. 37

[13] Na linguagem dos motards, é o que se faz às motas para lhes elevar a potência para níveis acima dos limites de fábrica

[14] “O excesso da elevação do desempenho leva a um infarto da alma.” Byung-Chul Han, Ibidem, p. 38

[15] “Não a vida ativa, mas só a vida contemplativa é que torna o homem naquilo que ele deve ser.” Byung-Chul Han, Ibidem, p. 26

[16] Os desempenhos culturais da humanidade, dos quais faz parte também a filosofia, devem-se a uma atenção profunda, contemplativa.  Byung-Chul Han, Ibidem, p. 19

[17] “Essa vida não é um abrir-se passivo que diz sim a tudo que advém e acontece. Ao contrário, ela oferece resistência aos estímulos opressivos, intrusivos. Em vez de expor o olhar aos impulsos exteriores, ela os dirige soberanamente. Enquanto um fazer soberano, que sabe dizer não, é mais ativa que qualquer hiperatividade, que é precisamente um sintoma de esgotamento espiritual.” Byung-Chul Han, Ibidem, p. 28

[18] Jean-Paul Sartre, L'Existentialisme est un humanisme, Éditions Gallimard (Paris) 1996.

[19] Ubuntu: desprendimento, respeito, entreajuda, partilha, comunidade, cuidado, confiança, generosidade. “Ubuntu não significa que uma pessoa não se preocupe com o seu progresso pessoal. A questão é: o meu progresso pessoal está ao serviço do progresso da minha comunidade?” Nelson Mandela

[20] “Handke concebe uma religião imanente do cansaço. O “cansaço fundamental” suprime o isolamento egológico e funda uma comunidade que dispersa laços de parentesco.” Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço, Lisboa, Relógio D´Água Editores, p. 56

[21] “O cansaço profundo afrouxa as presilhas da identidade.” Byung-Chul Han, Ibidem, p. 39


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