Nº 19 - Byung-Chul Han
No Absurdo da Exclusiva Positividade
Boletim de Ideias Filosóficas
Byung-Chul Han
No Absurdo da Exclusiva Positividade
Índice
1) Introdução
2) Na época bacteriana o que não era o próprio constituía uma ameaça
3) A desconsideração da força dialética
4) Os antidepressivos
5) A máquina plena, ininterrupta, até à exaustão e ao esgotamento
6) O esquecimento da via contemplativa
7) O engano ontológico de uma certa visão do Existencialismo
8) Ubunto - “humanidade para com os outros”
9) Doença da civilização
10) Episódio da formiga
1) Introdução
Tendo por base os pontos de vista
apresentados na obra de Byung-Chul Han A Sociedade do Cansaço pretendo
neste trabalho apresentar uma reflexão sobre as consequências dos seus pontos
de vista. Num horizonte de diálogo com diversos autores (para, das suas ideias tirar consequências
e apresentar a sua visão sobre a mudança de paradigma que se deu na viragem do
século XX para o século XXI), partindo de uma leitura patológica, Byung-Chul
Han começa por referir que o começo do século XXI pode ser definido como uma época
neuronal (uma mudança de paradigma que se caracteriza pelo “…desaparecimento da
alteridade e da estranheza.”[1]) apontando uma variedade de patologias
associadas a essa mesma época. Essas patologias não são provocadas pela
negatividade de “…algo imunologicamente diverso,…”[2] (marca da época patológica anterior) mas
sim por uma positividade extrema.[3]
2) Na época bacteriana o que não era o próprio constituía uma ameaça
No texto A Sociedade do Cansaço,
Byung-Chul Han afirma
que, no advento da época neuronal,
o arquétipo da época anterior, da época bacteriana,
expresso na dicotomia o próprio / o estranho, amigo / inimigo, um dos extremos
foi anulado /desconsiderado, desclassificado. Assim perdeu-se o dinamismo da
força dialética, devido à desconsideração da alteridade e ao abuso da
positividade extrema numa opção por uma produtividade radical.[4] No auge do ter de fazer, o humano
ultrapassou as diretrizes exteriores, as ordens que lhe vinham de fora,
características da sociedade disciplinar (época bacteriana),[5] para na sociedade de produção, do
desempenho (época neuronal), impor de si para si próprio essas mesmas
diretrizes levadas a um exagero extremo que faz com que o ser humano se
escravize a si próprio,[6] deixando-se prender no seu próprio enleio, anula o outro lado se si e a
dicotomia fundamental. O ser humano passa a funcionar apenas com um dos seus
dinamismo, apenas com um dos
cavalos da carruagem platónica,
fica privado de parte de si, e no abuso que faz da positividade, acaba por se
esgotar.[7] Perde o equilíbrio devido a ter apenas
um referencial, um mandamento de fundo.
3)
A desconsideração da força dialética[8]
Há que ter dúvidas, há que hesitar, ter fúria[9] (em contraste com a irritação, ao
enervamento, a fúria é um estado refletido) ter medo (em contraste com o
receio, também é refletido), refletir e errar. Não apenas avançar desenfreado
numa única direção, mas a necessidade de uma dialética na praxis
humana. O excesso de exigência com a produtividade leva o ser
humano a anular, a não considerar, tudo o que é contrário a isso. Há apenas uma
perspetiva, há apenas um direcional, há um plano e um alvo e não há lugar
para o pensamento. Há que agir, na distopia de Han “parar é morrer.
Heraclito foi o
primeiro filosofo da dialética. O seu jogo de aforismos são eles próprios um
jogo dialético, para nos confundir, para fazer pensar, para reconstruir. Os
textos de Heraclito estão para os textos clássicos de filosofia como o
impressionismo, (com as suas distorções e diluições dos objetos) está para a
pintura que estava atrás de si.[10] Heraclito
apresentou à Filosofia o confronto de perspetivas contrárias. Ele próprio teve
uma atitude dialética referente ao pensamento que tinha existido antes de si. “
O caminho que desce é o mesmo que sobe.”[11] Heraclito apresentou um confronto de
perspetivas em vez da visão de um caminho unívoco. Anaximandro, embora tenha
aberto completamente a porta para podermos pensar a abstração, não nos introduz
ainda no confronto efetivos entre opostos. Para Han, nesta sociedade de
desempenho há um défice de dialética, há um estancamento de um grande
objetivo comum devido ao equivoco de que estamos sós, e de que temos de lutar
constantemente uns contra os outros.
4) Os antidepressivos
Por isso os seres humanos se sentem
esgotados. Os antidepressivos, referidos em distopias do século XX como Brave
New World de 1932 e Fahrenheit 451 de 1953, são hoje em dia uma
realidade no mundo apresentado por Han. E assim, como na distopia de Huxley, e
na de Bradbury, há hoje um comprimido para nos afastar a cabeça de duvidas, de
hesitações, de crises existenciais, tudo em nome de uma produtividade plena. O
ser humano já só funciona à conta de estímulos, de supressores da dor, de dúvidas,
à conta de opressores sobre a capacidade de reflexão, na negação da existência
de alternativas e possibilidades diversas na existência. A convicção, a
espontaneidade e a alegria da existência foram desqualificadas em nome de uma
corrida de todos contra todos. Os comprimidos ainda nos toldam mais o
discernimento, e às tantas toda esta anormalidade nos parece normal.
5) A maquina plena, ininterrupta, até à exaustão
e ao esgotamento
O humano tardomoderno perdeu a referência
para poder pensar o contraditório, perdeu a imagem para poder refletir sobre os
contrários e os acordos entre polos opostos. Para Han, se só vamos numa direção,
perdeu-se a capacidade de reação, somos apenas ação, e tronamo-nos, tal qual máquinas,
máquinas a quem se dá estímulos e complementos de alta rentabilidade.[12] Os Beatles, quando estavam em Hamburgo
em inicio de carreira, perante o esforço imenso de terem de tocar quase
ininterruptamente, começarem a usar fortes estimulantes que os “quitavam”[13], que os tornam “maquinas de
produtividade.”
Assim, Han aponta a sociedade do doping
como um desenvolvimento da sociedade da produção, e na sociedade do doping não
há descanso, não há pausa, há um estimulo constante para uma produção
ininterrupta. Há apenas um seguir em frente que leva a um esforço e uma entrega
cada vez maior. Um intempestivo labor até ao limite. Sem equilíbrio o ser
humano não resistirá.[14]
Graves problemas do foro mental transpõem-se
depois em doenças psicossomáticas. Uma mente doente, indo um pouco além do que
diz Han, podemos afirmar que, leva a um corpo enfermo. Fora da dialética, o
excesso da positividade na desconsideração do negativo, no continuo maquinal
pela produtividade, é contra producente a longo prazo, leva à falência da
mente, e à falência do ente, ao esgotamento do ser humano (burnout). Um humano
sem alternância, sem mudança de velocidade, sempre a fundo e sempre para lá do
limite. O humano máquina de produção, peça nesta engrenagem de uma “vontade de
poder” fora de controlo.
Assim, como maquinas formatadas cumprimos
o nosso programa. Um dia, vi uma formiga (eram
seis da manhã, ainda noite, e ela perdida de todas as outras) a arrastar
uma carga demasiado pesada para si. Estava exausta, desorientada, andava para
trás e para a frente, sem conseguir parar, cada vez estava mais próxima do
esgotamento, mas tinha de cumprir o seu programa, para ela não havia outra opção,
como formiga não tinha alternativa, não tinha a capacidade do pensar nem da
dialética. O que surpreende no ser humano, é ter a capacidade do pensar e da
dialética, e no entanto, vistas as coisas numa macro perspetiva, agir como
aquela formiga.
6) O esquecimento da via contemplativa[15]
A serenidade perdida, de um tempo em que
se agia, mas também se parava para serenar o espirito. Não é do cansaço do
corpo que Han fala, mas sim dum cansaço do espirito. Causado por uma
continuidade sem pausas, imposta pelo humano a si próprio. A perda de equilíbrio a troco de uma
atividade extenuante. Antes houve em tempos um equilíbrio entre ação e reação
(a fúria, o medo), entre dinamismo e repouso, entre movimento físico e reflexão.
O livro de Han vem denunciar o desvanecer da dialética, que era o grande
veiculo, o grande instrumento humano perante as mais agudas dificuldades. A
reflexão, o aprofundamento, a visão vertical das coisas, no pensar profundo
para além da horizontalidade superficial do tempo. Han vem lembrar que há um
tempo vertical, psicológico, não mensurável, um tempo de contemplação. Na linha
do tempo horizontal, cronológico, há, transversal a cada momento, um tempo
psicológico feito por cada ponto daquela circunstância linear. Em cada ponto da
linha cronológica há um tempo psicológico (como o tempo psicológico referido
por Santo Agostinho nas Confissões, Livro XI), vertical em elevação e
profundidade, onde cada momento pode conter uma “eternidade”. É isso que falta,
segundo Han, ao humano tardomoderno, a capacidade para se fixar num ponto dessa
linha inexorável e que não espera por ninguém. Se estamos fixados nessa
interpretação / visão do tempo horizontal só nos resta correr, e mesmo assim o
tempo sempre nos ultrapassará. A resposta de Henry Van Dyke “Time is too slow
for those who wait, too swift for those who fear, too long for those who
grieve, too short for those who rejoice, but for those who love, time is eternity”
adequa-se ao que Han procura, o tempo da contemplação, o tempo de quem olha e vê
o que está à sua volta, se relaciona com a vida e com os outros, esse tempo de
quem ama dura para sempre.
O dormir é a grande pausa que o físico
todos os dias requer para estar em equilíbrio. A contemplação é o descanso da
mente. Se conseguirmos através da contemplação, ter uma experiência de consciência,
de meditação, a via contemplativa refaz o equilíbrio. A contemplação é o
repouso da mente, mas é também a cura do ser no seu todo[16]. A
via contemplativa refaz o equilíbrio do ser humano. Devido a uma positividade
extrema, devido a uma circunstancia de sempre se seguir em frente, em nome de
uma produtividade fomentada por uma “Circe”, um canto de sereias pelo qual os
humanos foram seduzidos, perderam-se os momentos de contemplação, os momentos
de pausa, de hesitação, reflexão, os momentos em que não nos limitamos a seguir
desalmadamente para a frente fazendo a ação humana lembrar uma parelha de
cavalos a correr desenfreados, loucos e desgovernados sem destino válido fixado[17].
7) O
engano ontológico de uma certa visão do Existencialismo
O humano perdeu o norte, nesta corrida de
todos contra todos, perdeu Deus e as referências absolutas. Com refere Nietzsche
na Gaia Ciência, no texto do louco que vem com a candeia à procura de
Deus, o humano perdeu a linha do horizonte, as referências absolutas e
transferiu para si a procura de significado. O caminho que encontrou desembocou
num Existencialismo vazio de sentido, em que cada um se enjoa de si próprio,
sem reconhecimento do que também pode ser num grupo, para além da
individualidade de cada um, podemos ser um coletivo. “Estamos sós e sem
desculpas” “Nous sommes seuls, sans excuses. C'est ce que j'exprime en disant
que l'homme est condamné à être libre.”[18] Não,
não estamos sós, nem somos apenas eus. Integramo-nos em coletivos, onde somos
uma equipa, uma coletividade, uma comunidade com interesses e objetivos
comuns, onde nos complementamos uns nos outros, um tal ubuntu,[19] a tal essência humana comum de que
falava Feuerbach. Os humanos no seu conjunto formam o Homem. É aqui que o
Existencialismo mostra as suas limitações. Han fala de um cansaço do eu, de um
eu que vive alienado na sua individualidade. Dando a si próprio o seu destino e
a sua finalidade, numa luta de eus, de todos contra todos, numa corrida louca
desenfreada que nos leva à exaustão. Esta versão do Existencialismo desembocou
numa competição extrema e sem sentido de todos contra todos. Numa competição
que ninguém vai ganhar e que vai acabar por nos esgotar enlouquecer a todos. O burnout
coletivo da civilização. O derradeiro suspiro do último homem de Nietzsche. Ou
nos superamos ou pareceremos. Antes o humano vivia em equilíbrio. Han critica
Arendt por não reconhecer isso. A via contemplativa tinha uma importância
capital na vida das pessoas, e o próprio cristianismo preconizava o complemento
entre a ação e a contemplação. Hoje, nesta competição sem tréguas não há tempo
para parar, para descansar, para refletir, nem mesmo até para recuperar o fôlego.
Corremos loucos para o inferno de não sabermos quem somos, onde estamos e para
onde vamos. Corremos loucos sem sentido, apenas para estar mais à frente do que
os que estão ao nosso lado.
8) Ubunto - “humanidade para com
os outros”
Na versão do mundo apresentada por Han o
individualismo leva à competição desenfreada de todos contra todos. Aquele
mundo perde-se por isso, esse é o seu calcanhar de Aquiles. Perante a
produtividade extrema, emerge a sobrecarga e o colapso do sistema. Um humano
positivo, com foco em apenas uma direção, a produtividade. Uma corrida de
loucura, onde todos competem com todos, esquecendo que podemos vencer em
conjunto, que as vitórias não são apenas individuais, e a competição não é apenas
entre os indivíduos, que pode até nem haver competição. No final do texto de
Han é esta a alternativa apontada através de Handke,[20] um cansaço em comum, um laço de cooperação
entre membros de uma comunidade. Crianças africanas, colocadas perante uma
experiência de uma antropóloga, afirmaram “ubuntu.” Colocadas perante
uma competição por um cesto de fruta, deram as mãos e chegaram juntas ao cesto,
e depois dividiram as frutas entre eles. Quando a antropóloga questionou sobre
o significado da palavra, as crianças responderam: “como pode uma criança estar
feliz, quando as outras estão tristes?” O que falta na distopia filosófica
apresentada por Han no texto A Sociedade do Cansaço é exatamente isso.
A sociedade do cansaço, no fim do texto de Han revela-se afinal como uma
sociedade do coletivo. O erro, o equivoco é uma particular versão unívoca do
Existencialismo que vem afirmar os egos negando os coletivos. Não estamos sós
e sem desculpas. Estamos juntos mas não sabemos tirar partido disso, e
deixamo-nos ir cozendo como rãs dentro de uma panela ao lume. A solução de Han é
ubuntu. Feuerbach, e os humanos em conjunto. Fora da competição a
felicidade de um é a felicidade de todos, o esclarecimento de um é o
esclarecimento de todos, quando há um iluminado, todos somos envolvidos pela
graça do Divino. Como as mónadas de Leibniz, e a sua capacidade de seres
individuais, e ao mesmo tempo estarem em conexão com todos as outras através da
fonte. É isso o que está em falta na distopia filosófica de Han.
9) Doença da civilização
O cansaço dos coletivos, que foi
esquecido ante esta sociedade de indivíduos insaciáveis, prepotentes que
intentam para lá das suas forças individuais, que tem a arrogância de almejarem
individualmente conquistas que deveriam ser feitas em conjunto. Han desenvolve
neste texto uma grande crítica ao individualismo, à perda das identidades
coletivas.[21] Ante o estranho, na época bacteriana
fomos formatados para o combater e eliminar, a alteridades era o inimigo. Hoje
não há outro, há apenas correr para a frente. A luta contra a alteridade que
nos era estranha foi substituída pelo combate interior. Dentro de cada um e
contra as dificuldades que nos aparecem à frente do nosso objetivo. Tudo o que
vem barrar o caminho de conquista ao qual nos entregamos sem dó nem piedade tem
de ser combatido e derrubado, para avançarmos e ser mais e mais e mais.
Desconsiderámos a dialética, usamos os estimulantes, transformámo-nos em máquinas
levadas ao limite, até à exaustão. Perdeu-se o horizonte infinito, em nome das
singulares lutas comezinhas, provocando um extremo cansaço dos indivíduos. O
esgotamento dos singulares levará ao esgotamento das coletividades. Como
moscas os humanos vão caindo um por um, mas como coexistimos em coletividades,
vão aparecendo as mossas e as mazelas, as sociedades vão se ressentindo. É uma destruição
da civilização que se manifesta, se vai efetivando dos indivíduos para as
coletividades.
10) Episódio da formiga
A formiga de que falei um pouco atrás no
texto, se não parasse ia de certeza morrer de exaustão, eu olhava para ela,
impotente, sem nada poder fazer, senão sentir empatia pelo seu esforço, pela
sua perseverança, pelo seu desespero em cumprir a sua tarefa, e lembrei-me de
Han e de toda a exposição sobre o colapso humano face a uma positividade
extrema em nome de produtividade sem limites. Aquela formiga era apenas uma
formiga. Nós somos os supostos homo sapiens sapiens, mas pelos vistos,
muitos de nós parecem ter descido aos infernos humanos traduzidos em mais
funestos patamares para além desses níveis de animalidade. Era o instinto
unicamente a dirigir os caminhos daquela formiga, um mandamento interno de
dever não a deixava desistir, e no entanto, ela parecia saber, ou eu sabia por
ela, que ela estava no limite das suas forças e que ia perecer. Parecia não
haver outra alternativa, “parar é morrer” (que dito mais enganoso, pois no caso
dela, como na reflexão de Han, parar é viver).
Conclusão
A realidade ultrapassou a teorização de
Han, o paradigma e os tempos voltaram a mudar. Desde o início da pandemia do
Covid-19 já se vinha manifestado essa mudança profunda, que foi confirmado com
o cenário de terceira guerra mundial dissimulada que começou com a invasão
russa na Ucrânia. Quanto à guerra, uma grande questão que não se tem discutido,
e que faz toda a diferença, ou os cidadãos russos apoiam a brutalidade e a
agressão que o regime está a cometer perante um país irmão; ou os cidadãos
russos estão reféns desse mesmo regime. Isso era importante saber, isso deveria
ser averiguado, e temos meios para o levar a cabo. O que devíamos averiguar
junto dos cidadãos russos é se eles partilham como muitos de nós, desse
sentimento de irmandade, de fraternidade coletiva para com a humanidade em
geral. Se eles compactuam com aquele regime, e estão perdidos numa visão
unilateral e particular da coisa, vendo o absoluto no que é circunstancial; ou
s e estão reféns dentro do seu próprio país nas mãos de um autoritarismo atroz.
Ou estão tão entorpecidos e mal formados que em termos de consciência nem
conseguem avaliar a gravidade do que o regime está a fazer em nome de todos os
russos. Quero acreditar que estão reféns, da ideologia, da propaganda e da
censura informativa, reféns por um silenciamento das consciências pela força.
Bibliografia
Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço (2010), trad.
Gilda Lopes Encarnação, Lisboa, Relógio D´Água Editores, 2014
Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço (2010), trad. Enio Paulo Giachini, Petrópolis,
Editora Vozes, 2015
Nietzsche, A Gaia Ciência (1882), Trad. Leopoldina Almeida, Maria
Encarnação Casquinho e Maria Helena Rodrigues de Carvalho,
Lisboa, Relógio D´Água Editores, 1998
Nietzsche, Assim falava Zaratusta, (1883-1885), Lisboa, Editorial Presença,
1974
Feuerbach,
A Essência do Cristianismo (1841), trad. Adriana
Veríssimo Serrão, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2018
Santo Agostinho, Confissões, Lisboa, INCM, 2021
T.M.Robinson, Heraclitus
Fragments, University of Toronto Press, (...).
[1] Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço,
Petrópolis, Editora Vozes, 2015, Edição digital, p. 8
[2] Byung-Chul Han, Ibidem, p. 7
[3] “Não estamos já perante infecções, mas,
sim, enfartes, originados não pela negatividade do outro imunológico, mas, sim,
por um excesso de positividade.” Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço,
Lisboa, Relógio D´Água Editores, p. 9
[4] “Se, desprovidos da potência negativa de
não perceber, possuíssemos apenas a potência positiva de perceber algo, a
percepção estaria irremediavelmente exposta a todos os estímulos e impulsos insistentes
e intrusivos. Então não seria possível haver qualquer “ação do espírito”. Se possuíssemos apenas a potência de fazer algo e não
tivéssemos a potência de não fazer, incorreríamos
numa hiperatividade fatal. Se tivéssemos apenas a potência
de pensar algo, o pensamento estaria disperso numa quantidade infinita de
objetos. Seria impossível haver reflexão (Nachdenken), pois a potência positiva, o excesso
de positividade, só admite o continuar pensando (Fortdenken).” Byung-Chul
Han, A Sociedade do Cansaço, Petrópolis, Editora Vozes, 2015, Edição
digital, p. 30/31
[5] “A mudança de paradigma da sociedade
disciplinar para a sociedade de desempenho aponta para a continuidade de um nível.
Já habita, naturalmente, o inconsciente social, o desejo de maximizar a produção. A partir de
determinado ponto da produtividade, a técnica disciplinar ou
o esquema negativo da proibição se choca rapidamente com seus limites. Para
elevar a produtividade, o paradigma da disciplina é substituído pelo paradigma do desempenho ou pelo esquema
positivo do poder, pois a partir de um determinado nível de produtividade, a
negatividade da proibição tem um efeito de bloqueio, impedindo um maior
crescimento. A positividade do poder é bem mais eficiente
que a negatividade do dever. Assim o inconsciente social do dever troca de
registro para o registro do poder. O sujeito de desempenho é mais rápido e mais produtivo que o sujeito da obediência.
O poder, porém, não cancela o dever. O sujeito de
desempenho continua disciplinado. Ele tem atrás de si o estágio disciplinar. O
poder eleva o nível de produtividade que é intencionado através da técnica disciplinar, o
imperativo do dever. Mas em relação à elevação da produtividade não há qualquer ruptura; há apenas continuidade.” Byung-Chul Han, Ibidem,
p. 15
[6] “Essa soberania está precisamente
ausente daquele novo tipo humano, exposto e entregue indefeso ao excesso de
positividade. O homem depressivo é aquele animal laborans que explora a si mesmo e, quiçá deliberadamente,
sem qualquer coação estranha. É agressor e vítima ao mesmo tempo.” Byung-Chul
Han, Ibidem, p.16
[7] “A hiperatividade é paradoxalmente uma forma extremamente passiva de fazer,
que não admite mais nenhuma ação livre. Radica-se numa absolutização unilateral
da potência positiva.” Byung-Chul Han, Ibidem, p.31
[8] “Segundo Hegel, é precisamente a
negatividade que mantém viva a existência.”
Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço, Petrópolis, Editora Vozes, 2015,
Edição digital, p. 30
[9] “A fúria, em contrapartida, questiona
todo o presente, pois pressupõe uma paragem ou interrupção no tempo presente.” Byung-Chul
Han, A Sociedade do Cansaço, Lisboa, Relógio D´Água Editores, p. 41
[10] A pintura pré impressionismo tentava espelhar a
realidade. O impressionismo quebra essa tentativa de espelhar a realidade e
depois o pós-impressionismo apresenta uma versão dinâmica da realidade, como se
quisesse captar o próprio movimento.
[11] Fragmento 60, Heraclito
[12] “…aquele desenvolvimento pelo qual não só
o corpo, mas também o homem como um todo se transforma numa
máquina de desempenho, que pode funcionar livre de perturbações e
maximizar seu desempenho. O doping não passa de uma consequência dessa evolução…”Byung-Chul Han, A
Sociedade do Cansaço, Petrópolis, Editora Vozes, 2015, Edição digital, p.
37
[13] Na linguagem dos motards, é o que se faz às motas para lhes elevar a potência para níveis acima dos limites de fábrica
[14] “O excesso da elevação do desempenho
leva a um infarto da alma.” Byung-Chul Han, Ibidem, p. 38
[15] “Não a vida ativa, mas só a vida
contemplativa é que torna o homem naquilo que ele deve
ser.” Byung-Chul Han, Ibidem, p. 26
[16] Os desempenhos culturais da humanidade,
dos quais faz parte também a filosofia,
devem-se a uma atenção profunda, contemplativa. Byung-Chul Han, Ibidem, p. 19
[17] “Essa vida não é um abrir-se passivo que diz sim a tudo que advém e acontece. Ao contrário, ela oferece resistência aos
estímulos opressivos, intrusivos. Em vez de expor o olhar aos impulsos
exteriores, ela os dirige soberanamente. Enquanto um fazer soberano, que sabe
dizer não, é mais ativa que qualquer hiperatividade,
que é precisamente um sintoma de esgotamento
espiritual.” Byung-Chul Han, Ibidem, p. 28
[18] Jean-Paul Sartre, L'Existentialisme est
un humanisme, Éditions Gallimard (Paris) 1996.
[19] Ubuntu: desprendimento, respeito,
entreajuda, partilha, comunidade, cuidado, confiança, generosidade. “Ubuntu não significa que uma pessoa não se preocupe com o
seu progresso pessoal. A questão é: o meu progresso pessoal está ao serviço do progresso da
minha comunidade?” Nelson Mandela
[20] “Handke concebe uma religião imanente do
cansaço. O “cansaço fundamental” suprime o isolamento egológico e funda uma
comunidade que dispersa laços de parentesco.” Byung-Chul Han, A Sociedade do
Cansaço, Lisboa, Relógio D´Água Editores, p. 56
[21] “O cansaço profundo afrouxa as presilhas
da identidade.” Byung-Chul Han, Ibidem,
p. 39

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